Pequeñas Aventuras de Santiago – II

Pequeñas Aventuras de Santiago – II

Escrever este texto certamente é um pouco mais difícil hoje, cerca de 7 dias depois, uma vez que muitas memórias, em especial as pequenas memórias de sensações, já me fugiram. Essas memórias são muitas vezes mais interessantes do que as principais: eu as gosto de chamar de memória de transporte, porque são as que nos trazem de volta a algum lugar.

Por isso gosto de dizer que cada cidade tem um cheiro típico, que uma vez lembrado dá a impressão que estamos lá novamente. San Diego tinha um cheiro assombradamente típico que não posso explicar, mas que se busco na memória me traz as reminiscências daquele período.
Por esta mesma razão são as que mais intento lembrar. Aquele cheiro que senti, aquela música que ouvi, aquele miscelânea de cores e aquele pensamento que tive são todos pertencentes a determinado lugar. Guardo-os como uma caixa comprimível em meu cérebro, que uma vez aberta me transporta de todo para o lugar onde a memória se encontra.
Aquela esquina da Pio Nono de Santiago traz um cheiro e gosto muito peculiares, um cheiro que é emprestado a outros mesmos lugares da Capital do Chile. Um cheiro insidioso e ao mesmo frágil de comida, de massa, muito em razão dos grandes restaurantes que tem no pátio Bella Vista.
Enfim, naquela quinta-feira que meus amigos e eu visitamos boa parte do centro de Santiago, no fim da noite nos dirigimos para o Pub Crawl, uma iniciativa em que se visita três bares e uma pretensa balada, quando tomamos um shot de uma bebida de graça em cada um deles. A última coisa que eu prestei atenção foram os bares então não me pergunte. Também não tenho fotos das localizações!
Esqueci de dizer que parece que no primeiro bar rola o esquenta, onde tinha uma pizza e cerveja de graça, mas nós chegamos tarde e só deu tempo de dizer tchau. Os outros bares até que eram legais, mas o Pub Crawl estava bem miado. Eu diria que eramos nós três e os promoters do bar que participávamos. Destaque para uma bebida em especial (que eu fiz questão de trazer uma garrafa pra casa) – o Pisco.
Pisco Sour. Foto: Dominio Público.
O Pisco é uma espécie de cachaça muito comum no Chile e no Peru, feita a partir de uva. É mais doce e saborosa que a nossa caninha, e pro meu gosto, melhor. Melhor ainda quando recebe uma mistura com limão e outros ingredientes (até ovo, parece) e se torna um drink chamado Pisco Sour.
Fiquei surpreso porque um dos barzinhos era na verdade uma casa de videokê. As músicas brasileiras são muito tocadas em outros países, ao contrário do que aqui acontece com as latinas. Os chilenos sabiam cantar muito do nosso Sertanejo Universitário. Isso sem falar na badalada “Ai se eu te pego” do Michel Teló, que um inglês cantou sem sotaque na íntegra.
Ir em outro país pra beber realmente não é minha praia, mas no fim das contas foi divertido.
O dia seguinte foi bem mais dinâmico. Acordamos e alugamos um carro. Para nosso azar ou sorte só tinha um Mitsubishi Elantra branco. Azar porque não era nada barato, e sorte porque era um baita de um carrão, bem confortável.
Decidimos que nosso itinerário seria primeiro a cidade de Valparaíso, o qual imaginamos ser desinteressante quando comparada com a vizinha Viña del Mar. Só que o tempo em que ficamos em Viña foi tão curto, a noite, que nem tivemos tempo de passar e ver o mar propriamente dito.
As estradas do Chile são muito bem cuidadas. Pra variar, tinha pedágio. A visão lateral era quase sempre de vinícola, e o cheiro de uva se acentuava no ambiente. Infelizmente em alguns momentos um dos amigos também decidiu incendiar o ambiente tirando a meia dentro do carro. Uma dessas vinícolas fabrica um dos melhores vinhos que já tomei – Casa del Bosque. Nós, no momento, não pensamos nisso, mas poderíamos te-la visitado. De toda forma a nossa ideia era visitar a Concha y Toro no dia seguinte.
Vista do Porto de Valparaíso.

 

Alguns dos relatos a respeito de Valparaíso tinham nos deixado em situação de maior alerta. Mas nada diferente de São Paulo.  Assaltos, especialmente.
Definitivamente as ruas daquela cidade são ruas mais pichadas, mais quebradas e algumas mais abandonadas que as de Santiago. Mas nada que apagasse a sua beleza.
Valparaíso é uma cidade construída em cima de mais de 40 montes (cerros), por isso as casas de lá tem características bem peculiares. A cidade tem um perto muito belo e em algumas casas mais ao alto pudemos observar muito bem as águas do pacífico.

Em geral, não vimos muitos prédios, mas sim uma série de sobrados. Muitos deles são bem antigos, já que a cidade data de séculos.

Mas o grande chamariz da cidade é uma de suas casas mais belas, aquela de onde tirei todas as fotos desta postagem. O imóvel se chama “A Sebastiana” e foi o lar do poeta chileno Pablo Neruda quando casado com sua segunda esposa.

Casa do poeta Pablo Neruda.
A casa foi transformada em um museu depois da sua morte.
A casa de Pablo Neruda foi comprada especialmente por ser um dos pontos mais altos da cidade. Neruda gostava muito do mar, não de toca-lo – pois tinha-lhe medo – mas de apreende-lo como um todo. Este foi um dos lugares que mais me impressionou na cidade e quiçá na vida.
Infelizmente, não era possível tirar fotos dentro da casa, porque isto desgastaria as centenas de itens de colecionador que lá jazem.
O arquiteto que a desenhou se chamava Sebastião, por isso a casa foi apelidada a Sebastiana pelo poeta. A casa já estava parcialmente construída quando Neruda a comprou e mandou construir mais andares. Se bem me lembro, são quatro: a sala de estar e de jantar, o quarto do casal, e por último, o seu escritório.
Depois de sua morte, a casa foi adaptada para ser um museu. As visitas eram guiadas eletronicamente, com um fone que tinha tradução inclusive para o português.
Neruda era um grande colecionador e tinha um gosto excêntrico para isso. Os itens que mais desejava diziam respeito ao mar. Por isso víamos em seu quarto e em seu escritório mapas, globos, instrumentos de navegação. Tudo, claro, misturados com outros elementos, em linguagem coloquial, nada a ver. Muitas coisas bem antigas. .
O item que mais gostei, diga-se de passagem, é um mapa feito por um espanhol da América no século XVII. Muito bem feito. Gostaria de ter tirado fotos ou mesmo encontrar uma cópia. O mapa falava das populações silvícolas, em uma descrição muito peculiar.
Leilões de coisas antigas era um dos gostos de Neruda. Ele abria o jornal todos os dias para ver se tinha alguma coisa interessante. Muitas das portas que tinha na casa foram compradas leilões de imóveis demolidos. Havia baús de navios, estatuetas, um cavalo oriundo de carrossel, entre outros. Já disse que as coisas não combinavam? Pois é. Mas o que me impressiona foi que tudo isso formou uma beleza única e peculiar.
Me impressionei também com a vida de Neruda. O cara era um poeta e amava o que fazia. Construiu uma casa a seu gosto e jeito e colocou o que bem entendeu lá. Em outras palavras, tocou o foda-se. Isso de certa forma me inspirou, já que durante anos eu pensei que teria uma casa tal e qual o meu gosto. Também gosto de escrever, como podem ver, não só poemas, mas sobre uma gama muito grande de coisas. Quem acompanhar esse blog verá.
Resolvi que alguns textos realmente necessitam de imagens e coloco aqui algumas fotos cuja autoria não é minha, no que dizem respeito aos itens de sua casa. Ao final desta postagem também coloco o poema do Neruda que diz respeito a esta fatídica casa.
Pensei que escrever fosse algo instantâneo, mítico, algo que pudesse sair do cérebro e se transformasse em palavras, fotos e experiências. A postagem parece curta mas já dura 2h20! Enfim, encerro este capítulo agora.
Depois eu falo da curta visita à Vina del Mar, no mesmo dia, e as visitas à Vinicola Undurraga e ao Cerro San Cristobal, no dia seguinte.
Quadro, decoração. Um Cavalo de Carrossel. Fonte: eldigoras.com
Todas as casas de Neruda tinham um bar. Aliás o poeta gostava de fantasiar de bar-man e fazer bigodes de pintura no rosto e servir para seus convidados os seus drinks especiais. Foto: Trip Advisor.
Itens de vidro da coleção de Neruda, comprados em leilões. Foto: Flickr
Quarto e cama de casal. Todos com vista para o mar. Foto: Flickr

YO construí la casa.
La hice primero de aire.
Luego subí en el aire la bandera
y la dejé colgada
del firmamento, de la estrella, de
la claridad y de la oscuridad.

Cemento, hierro, vidrio, 
eran la fábula,
valían más que el trigo y como el oro,
había que buscar y que vender,
y así llegó un camión:
bajaron sacos
y más sacos,
la torre se agarró a la tierra dura
-pero, no basta, dijo el constructor,
falta cemento, vidrio, fierro, puertas-,
y no dormí en la noche.

Pero crecía, crecían las ventanas y con poco, con pegarle al papel y trabajary arremeterle con rodilla y hombro iba a crecer hasta llegar a ser, hasta poder mirar por la ventana, y parecía que con tanto saco pudiera tener techo y subiría y se agarrara, al fin, de la bandera que aún colgaba del cielo sus colores.

Me dediqué a las puertas más baratas, 
a las que habían muerto
y habían sido echadas de sus casas, 
puertas sin muro, rotas, 
amontonadas en demoliciones, 
puertas ya sin memoria, 
sin recuerdo de llave, 
y yo dije: “Venid
a mi, puertas perdidas:
os daré casa y muro 
y mano que golpea, 
oscilaréis de nuevo abriendo el alma, 
custodiaréis el sueño de Matilde 
con vuestras alas que volaron tanto.”

 

Entonces la  pinturallegó también lamiendo las paredes, las vistió de celeste y de rosado para que se pusieran a bailar. Así la torre baila, cantan las escaleras y las puertas, sube la casa hasta tocar el mástil, pero falta dinero:faltan clavos, faltan aldabas, cerraduras, mármol. Sin embargo, la casa sigue subiendo y algo pasa, un latido circula en sus arterias:es tal vez un serrucho que navega como un pez en el agua de los sueñoso un martillo que pica como alevoso cóndor carpintero las tablas del pinar que pisaremos.

Algo pasa y la vida continúa.

La casa crece y habla,

 

se sostiene en sus pies, 
tiene ropa colgada en un andamio, 
y como por el mar la primavera 
nadando como náyade marina 
besa la arena de Valparaíso,
ya no pensemos más: ésta es la casa:
ya todo lo que falta será azul,
lo que ya necesita es florecer.
Y eso es trabajo de la primavera.

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