Japão – O imprevisto em Hakone

Arrumo minhas coisas para a hora do parto. O meu destino era Hakone. Uma cidade cuja especialidade são as águas termais – Onsen – e tem um vulcão! Mas chovia, chovia muito. E isso empacou um dia da minha viagem. Eu conto um pouco mais aqui.

Atualização: 17 de julho de 2015. 

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K’s House Asakusa

O K’s House Asakusa é um hostel excelente, os cômodos são confortáveis. Não falta tecnologia e costumes: os banheiros são cheios de botões, você tem que tirar os sapatos para entrar (azar dos outros hóspedes pelo meu chulé), as camas são baixas e uma mesa é típica para ficar ajoelhado. Em três minutos chega-se na estação mais próxima.

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Tomar chá com leite é comum no Japão. Foto: domínio público

Fui tomar um café da manhã em tese típico, em um local perto. Digo “em tese” porque é obviamente influenciado pelo ocidental. O prato, morning setto, vem com duas generosas fatias de pão meio torrado mas fresco, com uma dose de manteiga reforçada, acompanha salada de pepino, repolho e milho, e chá verde com leite. Tudo pelo equivalente a 12 reais. Se fosse no Brasil cobrariam 20 fácil. Mas uma vez os japoneses confundiram quando eu perguntei se aceitava cartão, e tive que pagar com dinheiro.

Hoje no Japão é muito comum tomar esse café da manhã ocidentalizado com pequenos toques japoneses: torradas, manteiga, bacon, ovos, e as vezes linguiça, junto com o chá verde com leite ou puro, salada e as vezes Gohan. Nos restaurantes e hotéis mais tradicionais, ainda é possível provar o japonês.

O proximo destino: Hakone.

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Hakone – Foto: Japan Guide

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Fui a Hakone querer conhecer natureza, mas a natureza se fez conhecer antes. Chuvas torrenciais me impediram de visitar a cidade, as termas e o vulcão. 

Parto para a estação central do metrô. Após ativar o meu passe, é hora de ver do que os japas são feitos. Vou pegar um trem bala. O comboio parte exatamente as 12h26 para chegar 13h08 em Odawara. Tudo escrito na reserva e cumprido fielmente. Assim como no metrô, os anúncios do sistema de som e letreiros também estão em inglês, algo que São Paulo, a cidade mais visitada por turistas do Brasil, também deveria fazer. Como a viagem pode demorar um bom tempo, os japoneses costumam trazer comida e comer no trem. Algumas composições até tem serviço de bordo.
É realmente muito rápido, bem mais do que o metrô comum. E te leva de um lado a outro do Japão por um preço justo.

Cheguei facilmente a estação Odawara. A partir dai eu parti para Hakone Yumoto, o bairro mais turístico da cidade. A minha ideia era chegar rapidamente no hotel e dar um rolê. Não foi bem assim – eu fui conhecer a natureza mas a natureza me pegou primeiro.

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Funicular que sobe a montanha de Hakone –  Foto: Japan Guide

A cidade é conhecida por ser o lar de um vulcão e inúmeras termas naturais. Comprei um passe que me permitia pegar todos os meios de transporte do local ilimitadamente. O primeiro é um trem que seguia por meio de uma mata.

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Vulcão no monte Hakone. Detalhe, em 2015, ele acordou, após quase 800 anos sem erupção.

Chovia muito mesmo e eu pensei em comprar um guarda chuva quando chegasse na minha estação. Desci em Gora e lá peguei o segundo meio de transporte diferente: um funicular, ou cable Car, como é chamado aqui, que subia montanha acima. Três estações depois eu desci em Nakagora. Nada do que eu esperava: o local não tinha infraestrutura, somente uma saída para minha rua. Então não pude comprar guarda chuva e ainda não sabia se estava na rua certa. Andei e encontrei um hotel. Parecia um cachorro molhado, mas mesmo assim a atendente fez mimica para me mostrar que o meu hotel era na próxima quadra. E não é que ela me deu um guarda chuva de presente?

Eu estava em um estado lastimável, a dignidade da minha pessoa humana no menor nível desde que cheguei no japs. E ganhei um guarda-chuva. Esse gesto me deu alento.

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Enfim, vi o meu Ryokan.

Se tem algo que os nacionais sabem fazer bem é receber um hóspede. E o Ryokan é a hospedagem tradicional do Japão, desde tempos imemoriais. Mesmo falando pouco inglês os donos do Hostel Owners Gora me receberam muito bem.

Meu quarto no Ryokan – mesa baixa, cama futon e carpete.

Há um chinelo na porta, assim eu deixei o meu tênis ensopado na entrada. Me apontaram o meu quarto, tipicamente japonês, com tatame, mesa baixa, futon, portas de correr, uma máquina para aquecer a água e uma janela enorme. Da qual eu poderia ver o Monte Fuji caso não estivesse chovendo tanto.

Nao é só isso: ainda poderia utilizar as termas (onsen) do hotel e seria servido jantar e café da manhã no estilo japonês. Eu tinha muita coisa pra ver na cidade, inclusive comer, já que não havia almoçado e já passava das três da tarde. Decidi tomar banho. Mas cadê o chuveiro do quarto? Me informaram que o banho era no onsen e que tinha horários para homens e mulheres em virtude de reforma. O cable Car era demorado e como o jantar era servido pontualmente as 18h pensei em visitar o que podia da cidade à noite. Ledo engano.

Esse negócio de tira chinelo põe chinelo troca chinelo me deixou confuso. Devo ter ofendido muitos costumes japoneses e deuses shintô porque me esqueci várias vezes. E o meu Yukata?, que é o que chamamos de kimono no Brasil. Não sabia se tinha que colocar na hora ou para dormir. Mesmo o meu guia do lonely planet não me informava muito como me portar no local.

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As termas do meu Ryokan – aquele banquinho é para fazer a limpeza prévia. A água esverdeada tem diversos mineiras que dizem fazer bem para o corpo.

E para usar as termas? Só tinha visto algo parecido em animes. Basicamente eu tinha que ficar pelado, me lavar e entrar numa fonte de mais de 40 graus. Mas não estava sozinho, lá apareceu um japonês de Chiba e um australiano. Fiz amizade com eles. Engraçado porque o japonês só falava por meio de mimica mas a gente conseguia se entender. A água era cheia de minerais e deu para relaxar bastante. Mas estava muito quente e eu fiquei só 20 minutos. Os locais chegam a ficar por horas.

Tomei mais uma sova de cultura japonesa no jantar. A liberdade é fichinha perto do prato que me ofereceram. Algumas coisas eu nunca vou saber o que eram mesmo assim eu comi. Outras eu não sabia se eram decoração. Bom eu estou vivo e inteiro então não fizeram mal.

Quando perguntei se eu poderia sair depois do jantar o dono me disse que o trem já estava fechado, para minha decepção. Resolvi então relaxar e ir para o meu quarto. O cansaço da viagem longa bateu cedo e eu simplesmente cai na cama quando subi, mesmo afim de descer nas termas novamente. O lado bom foi que antes os australianos que estavam no hotel eram gente boa e fiquei conversando um bom tempo com eles. Ainda bem, porque precisava colocar meu inglês em prática.
Enquanto isso a chuva não parava e ficava cada vez mais pesada. A diferença para o verão de São Paulo é que na terrinha tem raios e trovões aos borbotões.

Café da manhã japonês

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Acordei decidido a tomar café e finalmente conhecer os pontos turísticos de Hakone. Tomei um último banho no onsen. A refeição foi mais um show, parecia até um almoço – arroz, salada, peixe, conservas, chás e ????, e ainda ????. Os pontos de interrogação são as coisas que eu comi mas não tenho a mínima ideia do que seja.

E foi assim que eu não conheci Hakone, mas sim 13 km de estrada.

Aí veio a surpresa e o primeiro imprevisto da viagem: devido a fortíssima chuva todo o sistema de transporte da cidade estava interrompido. Ficamos esperando alguns minutos, eu, um casal de Hong Kong e o da Austrália. Nessa hora pecou não falar nada de japonês  porque não entendiamos nada do que falava o dono do hotel. Algo como deveríamos esperar um táxi ou coisa assim, ou até reabrirem o trem. O problema é que depois de duas horas ficamos impacientes. O objetivo de uma viagem nunca é ficar parado. Decidimos ir a pé até uma das estações centrais para pegar um trem que nos levaria ao começo da cidade. Meia hora depois, para nossa surpresa ela também estava fechada. As nossas opções eram esperar abrir, pegar um táxi ou voltar a pé. Quem me conhece já sabe qual eu escolhi. Nesse meio tempo de decidir o que fazer conversei bastante com o Wayne e a Holly, os australianos. A chuva não parava de jeito algum, ainda mais numa região montanhosa.

Chamados de loucos e corajosos, decidimos ir a pé até a estação Hakone Yumoto. Debaixo de chuvas e carregando malas. Não tinha nada a perder, afinal não gosto de ficar esperando. O tempo previsto era de 1h30.

Andamos andamos andamos e andamos. E andamos. E andamos mais ainda. Vimos muitos templos shinto e budistas, cachoeiras e rios. Depois de meia hora pegamos um táxi (uma das razões de não fazê lo na estação foi uma fila enorme e um tempo de espera de mais de 4 horas).

O motorista não entendia nada de inglês, e nós, nada de japonês. E olha a confusão do japa era tanta que depois de uns dez minutos ele deixou a gente num lugar desconhecido, falando coisas ininteligíveis  e apontou para uma loja que não tinha absolutamente ninguém, mas pelo menos não nos cobrou nada. Depois de muita mimica conseguimos achar o caminho para a estação, andando do lado da rodovia. O caminho todo durou 2h30 e chegamos bem cansados, e bem mais magros. E foi assim que eu não conheci Hakone, mas sim 13 km de estrada.

Passando das 3h da tarde, valia mais a pena ir direto para o próximo destino: Kyoto.
Mas isso fica para outro post.

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