Relatos do Japao – O portão do mar e a tragédia atômica. Miyajima e Hiroshima. E a Matrix.

 

Uma libelula voou a minha frente,
pousou na cerca.
Eu levantei, peguei meu bone
e ia pegar a libelula quando…”

O relógio que parou no tempo – o exato momento da bomba atômica em Hiroshima
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 Finalmente estou conseguindo acompanhar os relatos com mais proximidade do acontecimento dos fatos. Graças ao tempo de viagem entre Hiroshima e Tokyo, que é cerca de 5 horas de trem bala.

 O Guest House Mikuniya é um hotel que mais parece um museu ou casa de ricaço. Não é a toa que a nota dele nos sites especializados é de 9.6, tudo pelo preço extremamente vantajoso de 100 reais a diária (o que para o Japão, e com café da manhã, é bom).

Eu no Guest House Mikuniya

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 Logo na entrada, uma réplica em tamanho reduzido de uma armadura de samurai, que deve valer mais de 15 mil reais e máscaras de divindades protetoras. E ainda, um piano, um computador de última geração, um violão, um sofá negro que deixaria qualquer tokstok no chinelo, e mais algumas dezenas de itens de colecionador, além de um jardim imenso onde não raramente aparecem aqueles veados japoneses. Uma máquina de café nespresso a vontade e comida free, com algumas poucos exceções. Pra mim, um dos pontos altos da viagem e se eu pudesse ficaria dias lá, facilmente. Mas tinha que ser rápido e visitar o templo e portão de itsukushima, Hiroshima e ainda voltar para Tokyo.

 Cinco minutos até a praia (em que não vi japonês algum se banhando, apesar do clima perfeito para isso), o que vejo me deixa impressionado, embasbacado, e dedico alguns plenos e íntegros minutos até me atrever a levantar a câmera.

Dista igualmente da praia ao redor, sito e majestoso sobre o mar, reside um portão vermelho fogo, o rubi refletido nas águas e contrastante com o azul destas, imponente a desafiar a beleza experimentada por quaisquer inocentes olhos. O portão de Itsukushima.

 Tal maravilha, poética por si só.

Itsukushima
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Visitei o templo ao redor deste, mas não os demais pontos da ilha, que não por isso deixam de ser interessantes. Volto para o hotel, sem deixar de me perder em meio às quebradas, e, tomando a minha Hiroshima Cola (!), pego a balsa de volta para a cidade, aproveitando a brisa do mar e a despedida de Miyajima.

Hiroshima

 Em Hiroshima, um ponto alto e triste da minha viagem. Ali, sobre uma ponte em formato de T e o Hall, explodiu em 6 de agosto de 1945, a 600 metros de altura a primeira bomba atômica detonada sobre a terra, matando instantaneamente mais de 50 mil pessoas, número que aumentaria para 150 mil ao fim daquele ano e mais de 400 mil ao longo do tempo, em decorrência da explosão, radiação e chuva negra, bem como incêndios e desmoronamentos que se seguiram.

Ponto onde caiu a bomba atômica e um centro de convenções, que foi deixado exatamente como na forma em que ele ficou desde a bomba. A-Bomb Dome.

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 Peguei o onibus para fazer o maple loop – meipuru~pu, ciente de que meu limitado tempo não me permitiria conhecer todos os lugares.

 O primeiro é a cúpula da bomba A (A bomb dome). Trata-se de um prédio muito importante da cidade que servia para conferências, reuniões e similares, e que, mesmo ficando perto do epicentro da explosão, manteve boa parte das estruturas de pé, muito em razão do ângulo em que foi atingido. Depois da guerra muito se discutiu sobre derrubar ou não a edificação, devido às memórias negativas que ela trazia, mas decidiram mante-la do exato modo que ficou após a bomba. Ela realmente causa o efeito pretendido, o de assustar os transeuntes e de lembrar a todos o que a guerra pode causar.

 Tudo fica no mesmo parque, o memorial da paz, no qual estão espalhados outras esculturas e memórias. Várias placas explicam o que aconteceu e avisam que sobre aquele chão estão as cinzas de milhares de pessoas, muitas das quais completamente incineradas com a onda de calor que ultrapassou quase 6000 graus Celsius.

 Beleza e tristeza se confundem em outros pontos, como o cenotaph, uma escultura-lápide perto de uma chama que foi mantida acesa desde a explosão, o hall das vítimas, e especialmente o museu da paz, que é fantasticamente perfeito em passar uma mensagem séria sem deixar de ser admirável.

Museu da Paz em Hiroshima

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 Lá consta o relógio que parou exatamente no momento de explosão. A frase, a mesma com a qual comecei a escrever a presente narrativa, carrega consigo uma dramaticidade única. Como em um intervalo de segundo tudo ao seu redor pode mudar.

 Ainda passei por uniformes de escola, cadernos, um triciclo derretido, a pedra cuja sombra que um humano lhe fazia ficou preta em razao do luminosidade, e ainda, para chocar mesmo, fotos dos atingidos pela bomba, terminando inclusive com um exemplar de língua com púrpura, queloides e uma medula com câncer.

 Depois dessa saraivada de informações e choque de realidade, vem a informação do otimismo. Corria um rumor de que nada mais cresceria naquela cidade por 75 anos, mas, as ainda naquele ano, os habitantes notaram o nascimento de alguns arbustos. Interessante não?

 Estava na hora de enfrentar o trem bala mais uma vez. Tempo de viagem até tokyo: 5 horas. Mas dessa vez, nada de correria. A la japoneses, eu comprei um Bentô, ou marmita como chamamos aqui, para comer na longa viagem.

Tokyo de novo

 Não é só em São Paulo. No metrô de Tokyo, não existe amor nem amizade. Apesar de ter que descer após apenas uma estação (aliás era tão perto que eu poderia ir andando até Kanda), fui sumariamente empurrado. Parece que os japoneses querem que todos entrem no trem e ninguém fique esperando o próximo. Pudera, talvez fosse um dos últimos. Passava das 23 quando cheguei lá. Muitos japoneses acabavam de sair do trabalho. Aliás terno e gravata é comum, independente do trabalho.

 Kanda fica na parte central da cidade e é um distrito voltado a trabalho e escolas. Mas o lugar onde passei, até encontrar rapidamente o meu “hotel”, parecia meio rua augusta. Algumas mulheres começaram a me oferecer massagem, e eu, sabendo de nada inocente, pensei comigo que uma massagem cairia muito bem. Depois me toquei que na verdade eram prostitutas, o que confirmei após breve pesquisa na internet. Pelo menos as que eu encontrei no caminho me ajudaram a achar o hotel, e eu dispensei esta massagem do tipo tailandesa.

 Quando cheguei no hotel cápsula, cuja diária me custou uns 40 reais, uma fila e muita bagunça. Queria ver como era a experiência, e agora que eu vi jamais repetirei. Isto porque vc já chega, põe os sapatos em um locker, pega a chave de outro, sobe pro seu andar e da de cara com um corredor, com um monte de grandes máquinas de secar. Porque é isso que as cápsulas parecem e eu pensei sinceramente que não fossem tão pequenas, mas são. Mal da pra ficar ajoelhado.

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Eu extremamente feliz de dormir num Hotel Cápsula
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Entrar na minha, que ainda tinha uma escadinha pra dificultar, me fez me sentir um humano na matrix, um ser industrializado. Não tinha porta, soh o buraco de entrada e uma cortina veda luz.

Lá dentro um colchonete, um radio/tv e um batente para colocar algum item e bater a cabeça e o cotovelo enquanto dorme (foi o que mais fiz). Pra tomar banho, vc põe um Yukata, desce pro subsolo e vai dividir o banheiro com um monte de turistas orientais, no caso tailandeses, vietnamitas e chineses, e ainda estudantes e trabalhadores todos esperando pelados a sua vez. Lógico, uma cena do inferno.

 Tomado o banho, durmi mal, acordando várias vezes. Tanto que as cinco da manhã decidi me levantar e vazar da matrix, não sem antes usar a internet.

 Tomei café na estação, e era hora de partir para Nikko, a última cidade em que visitaria templos. E o que lá ocorreu fica para outro post.

 

 

 

 

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