Relatos do Japao – os parques de Ashikaga e Hitachi

Pense em um ocidental, um Gaijin, como eles chamam, perdido no meio de um Japão rural, entre ruelas, tratores e arrozais. Sou eu, na província de Toshigi, cidade de Ashikaga, pedindo informação: como voltar para a estação Tomita?

 

Os incríveis Jardins de Ashikaga e de Hitachi

Muito antes disso, deixava o hotel na cidade de Nikko. Havia forte controvérsia em meu âmago, entre visitar as outras vistas próximas, como o lago Chuzen-Ji ou partir para Ashikaga. Decidi pela última. Um dia ainda volto para Nikko. Tomei café na estação mesmo, e isso significa mais chá verde com leite, que já estou começando a gostar, torrada ovos e salada de repolho. Mesmo com tudo isso os japoneses não parecem flatular deveras. Pelo menos eu não senti os cheiros da natureza em toda minha estada.

Era o primeiro dia em que não podia contar com meu JR Pass, então comecei a gastar o transporte do meu bolso. Basicamente o Japao é dividido, em se tratando de trens, dos metrôs e das linhas ferroviárias intermunicipais ou interprovinciais, que costumam cruzar mais de uma cidade. Essas são chamadas de JR Lines, e pra quem quer economizar é uma ótima opção – a alternativa, o Shinkansen (trem-bala) pode fácilmente superar os 50 dólares para uma viagem de 30 minutos.

Era bem mais difícil, porém, me localizar nas JR, seja pela falta de informações em inglês, seja pela complexidade inenarrável do mapa férreo.

Ashikaga Flower Park

Tive sucesso na minha empreitada. Chegando na estação Tomita, ainda no “Estado” de Tochigi (pronuncie Tochigui, ou os japoneses nunca entenderão o que você pretende dizer, é sério), tinha a opção entre caminhar 15 minutos ou pegar um táxi… lembrando que eu estava com a mala, a primeira opção se afigurou melhor e acertada.

Segue a estrada e cruza um rio, tudo perto de casinhas e fazendas. Me senti numa cidade do interior.

 

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Logo na entrada do parque, uma venda de flores, sementes, decorações e outros souvenirs assemelhados. Mas logo percebi o que já me alertaram em um fórum estrangeiro – poucas flores se quedavam lá, no fim da primavera. Desta feita, não pude testemunhar uma das belas cenas de todo Japão, o túnel da flor Glicínia, que pinta todo o parque de roxo e violeta… mas durante a primavera. E eu já estava quase no verão. Tivesse chegado alguns dias antes, teria visto muito mais coisas.

 

Mas nada disso tira a beleza do parque, que por si só, sua organização, as plantas ornamentais, os pequenos lagos, os pássaros e as outras flores, criam uma paisagem cênica ideal para eventos. Eu aproveitei para relaxar e passei algumas boas horas lá, dando uma volta pelo local, que não é curto, e sendo picado por insetos (que por alguma razão adoram o meu sangue).

 

 

 

 

 

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É um lugar ideal para sentar e aproveitar a natureza, e tirar boas fotos de pássaros e outros insetos, como eu realmente o fiz. As plantas que desabrocharam eram as Hortênsias, Íris e Clematis, mas eu sinceramente não saberia diferenciar qual é qual e só coloquei o nome porque faço uma breve pesquisa antes de postar. Mesmo assim, não deixam de ser belas.

Rumo a Mito

Partiu de Ashikaga, como eu disse, me perdi para voltar para a estação Tomita. Não que eu não tivesse a noção de onde deveria ir, mas sim, o melhor caminho. Bastava acompanhar a linha do trem, mas lembrem-se, eu estava com uma mala. Perguntei para vários japoneses, e após andar e tomar uma leve chuva, cheguei no local designado, apesar de que os 15 minutos viraram 40, no fim.

Estação de Mito. "Mito-stn" by Mutimaro - Mutimaro本人が撮影(Pictured by Mutimaro). Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons - https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mito-stn.JPG#/media/File:Mito-stn.JPG
Estação de Mito. “Mito-stn” by Mutimaro – Mutimaro本人が撮影(Pictured by Mutimaro). Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons – https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mito-stn.JPG#/media/File:Mito-stn.JPG

O destino é Mito, capital da prefeitura de Ibaraki. Não tive muitos problemas para chegar lá, mas tive que sair perguntando de novo porque os mapas rareavam as informações em inglês. Nada complicado porém.

Cheguei em Mito. Aparentemente uma cidade pequena, mas de fato não. No Japão, muitas cidades tem mais de 1 milhão de habitantes e essa era uma delas. E por se tratar de uma capital, havia infraestrutura de sobra. E me adianto que me apaixonei de cara. Uma cidade tranquila e desenvolvida era tudo o que eu queria. Gostei mesmo não visitando muita coisa. Só a saída da estação e a vista da cidade me fizeram gostar. E as fotos? Estava em entressafra de pilhas então não pude tirar nenhuma. A que você vê acima é Wikimedia e mostra a estação principal.

Cheguei ao Court Hotel Mito. E para minha surpresa era um hotel de ótimo nível, executivo, com um quarto amplo, uma cama de casal, um banheiro aconchegante e uma vista para a cidade. Tudo por cerca de R$ 130,00, e com esse valor no Brasil eu não encontraria lugar assim.

A privacidade foi o que mais me deixou feliz. Poderia acordar a hora que quisesse e fazer barulho sem medo de incomodar ninguém ou ser incomodado, e dormir naquela cama bem espaçosa. Acho que isso também colaborou para eu ficar contente. Deixei minhas coisas no hotel e parti para comer no shopping da estação. E eu já estava há dias no Japão, e somente naquele dia comeria meu primeiro Sushi.

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Sushi com cerveja, uma bela combinação.
E digo e repito, que o melhor Sushi realmente está no Japão. O peixe, especialmente o atum, tem um sabor bem diferenciado do nosso, e mais leve e menos aromático. Realmente, fiquei encantado, e tomei uma cerveja japonesa de Sapporo que também foi paixão. Digno de nota. O nome do restaurante estava em japonês, o que dificulta um pouco a identificação.
Voltei para o hotel para o merecido descanso, não antes de lavar e secar as roupas. Não sei se fui eu, mas no dia seguinte o secador estava interditado para manutenção haha. A verdade é que eu esqueci uma moeda no bolso e pode ter sido isso. Tomei o café da manhã, que estava incluído no preço, com direito a open bar de refrigerante, raspadinha e chá. Era hora de me dirigir a outro parque.
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Para comer tanto assim no café da manhã, só se for open Bar. E era.

Tinha mais uma dúvida, contudo, se iria para um dos três grandes parques do Japão, e nesse caso, aquele que se situava na cidade de Mito, chamado Kairakuen, ou me dirigiria para o de Hitachi, que era um dos meus destinos principais e grande objetivo da minha viagem. A escolha foi óbvia, mas se desse tempo, visitaria o Kairakuen também. Mas o Hitachi Seaside Park me encantou de tal forma que eu passei o dia todo lá e poderia ter ficado mais tempo se desse.

Deixei minha mala na Estação Katsuta.

Hitachi Seaside Park.

Encostado junto ao litoral nordeste do Japão, fazendo divisa com o azul do oceano pacífico, ouso dizer que lá me senti em casa. Não à toa, muito antes de considerar minhas aventuras nipônicas eu já decidira vir a tal lugar, muito em razão de fotos que tinha visto na internet. E não me arrependi da visita, mas tão somente da temporada, pois tal como o parque de Ashikaga, as principais flores e plantas não haviam desabrochado.

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Colina das Kochias. Isso é o que eu esperava encontrar, mas fui na estação errada do ano. Foto: Site oficial do Seaside Park/Divulgação. http://en.hitachikaihin.jp/

Essa é a minha foto:

E elas eram a Kochia/Nemofilia, uma espécie que, durante o outono ou a primavera, tingem boa parte do parque e de uma bela colina em especial, de vermelho ou azul, respectivamente. E foi isso o que eu perdi. Mas tal qual o dia anterior, aproveitei ao máximo.

E aquele lugar poderia se dizer um verdadeiro parque. Porque entre os trocentos caminhos e estradas, jaziam lugares como jardins de areia, ou de pedra, pontes, lagoas, uma casa de vidro, uma galeria silenciosa, um sino, cenários fantásticos para tirar fotos, fora restaurantes, e ainda um parque de diversões com direito a montanha russa e outros brinquedos. Aquele lugar foi feito para ficar um dia inteiro e eu gostaria de ter passado muito mais tempo lá.

Para quem quisesse, uma espécie de trem passava nos principais pontos para levar os transeuntes entre os destinos mais visitados, tal era o tamanho do parque. Tanto que muita coisa eu não vi.

Os lugares que mais gostei foram a galeria silenciosa, a casa de vidro, e claro, a colina onde deveriam estar aquelas plantas. Almocei uma deliciosa macarronada, mas, para não ficar muito italiana, pedi com shitake e shimeji. Está no Japão, seja como os japoneses.

Gozei ótimas 7 horas lá, usei a montanha russa, que nem era tão grande assim, e dei um rolê muito grande. Minhas pernas até hoje sentem, coitadas, o quanto andei dessa viagem. Mas tudo, ao fim, valeu a pena.

 

A visita para o Hitachi Kaihin Koen certamente será repetida nesta vida. Voltei para a estação Mito, e como dito, já estava escuro. Nem daria tempo de ir ao outro parque. E aqui, começaria o fim da minha viagem: os últimos dias seriam em Tokyo, ou seja, o último hotel, os últimos passeios. Chega de andanças com mala.

 

 

 

 

 

 

Parti para Tokyo, mas o que lá aconteceu, fica para outra postagem.

2 thoughts on “Relatos do Japao – os parques de Ashikaga e Hitachi

  1. Realmente muito bom este post! Conteúdo Relevante!
    Gostei bastante do site, vou ver se acompanho toda semana suas postagens.
    Trabalho pela internet a alguns anos com meu blog de decoração e adoro
    tudo referente ao assunto. Sei que o assunto não é decoração mas adoro
    saber novidades em diferentes nichos e áreas. Obrigada

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