Foi tão longe de casa que eu pude me encontrar

Quantos de vocês já não se deram conta disso? De que viajar é uma das melhores formas de se encontrar. É preciso ir tão longe para isso? Longe de casa, dos amigos, da família do trabalho. As vezes sim. No meu caso, com certeza.

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Foi tão longe de casa que eu pude me encontrar.

Ou a história da minha primeira viagem pra fora. Ou, como o bichinho da viagem me mordeu.

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No meu último post, eu falei sobre a minha decisão de deixar o Brasil e os desafios que estou enfrentando para fazer isso. No momento em que eu escrevo, ainda não fui para Genebra – faltam cinco semanas. Mas vou voltar um pouco atrás no tempo e falar sobre um momento especial na minha vida e na vida de muitos mochileiros, viajantes e wanderlusters. É um dos pontos de partida para o meu momento atual. Um momento em que um certo bichinho me picou e eu nunca mais esqueci: o bichinho da viagem.

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San Diego, 2012.

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Pier em San Diego, praia de La Jolla – Foto: Expedia

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Minha primeira viagem internacional não foi com o intuito turístico ou de mochilar. Foi por questões profissionais, mas especialmente, uma certa curiosidade e uma dose de “inveja”. Cometi uma série de erros básicos de iniciante naquela trip mas acertei em diversos outros, por exemplo, o lugar: San Diego, uma cidade-zinha-zona no sul da Califórnia, nos Estados Unidos.

Eu era um estagiário em um escritório de advocacia. Fazia o curso de Direito na Universidade de São Paulo, e já beirava a entrada do quinto e último ano. Já beirava também fazer 27 anos (eu comecei a faculdade mais tarde e esse foi o segundo turn-over da minha carreira, o terceiro está sendo agora, mas isso é papo pra outro post). E durante a minha vida acadêmica eu via o quanto de muitos amigos meus e parentes meus viajavam para o exterior. E eu tinha ido no máximo para Minas Gerais.

Tive sim, inveja, afinal quem não tem vontade de conhecer lugares novos? Mas diferente de muitos colegas de trabalho e faculdade, eu vim de uma origem um pouco mais humilde, estudei a vida toda em escola pública e para eu, viajar era um luxo muito distante. Mas de repente eu fui ficando com cada vez mais vontade de conhecer outros lugares, e aquela curiosidade de saber como eram outros países. E eu me toquei que faria 27 anos em breve e não conhecia NADA do mundo! A vontade só aumentou quando eu comecei a conhecer alguns intercambistas estrangeiros na minha faculdade. Uma amiga americana em particular, Esmeralda, me chamou a atenção pela sua bagagem. Ela já tinha conhecido alguns lugares bem interessantes e as conversas sobre Tóquio, Paris e outros lugares me fascinava. Ela achou que eu já conhecia os Estados Unidos. Mas eu infelizmente não conhecia também. Eu comecei a pensar: por que não?

A necessidade de melhorar o meu inglês, por motivos profissionais – afinal, como pode uma pessoa querer trabalhar com direito internacional não saber sequer inglês? – me fez procurar fazer um intercâmbio no exterior.

Por questões de custo e preço, curiosidade e indicação (da mesma amiga que eu falei e da própria Companhia que me ajudou), eu escolhi San Diego nos Estados Unidos. E sabe o que mais? Azar de quase todas as outras cidades do mundo, porque as minhas expectativas de viagem foram parar lá no alto.

Como era minha primeira viagem internacional, eu procurei uma agência de intercâmbio para intermediar as questões de aula e estadia lá. E não me arrependo, fizeram um ótimo serviço. Claro que isso colocou um custo muito maior na minha viagem, e hoje, depois de mais de 100.000 km de experiência, eu tenho muito mais conhecimento e meios que me fariam ficar por mais tempo lá e gastar menos. Mas na época, diante da minha inexperiência, foi um ótimo negócio. Outra coisa: por razões de custo e da volta às aulas, eu só tinha um mês para ficar lá.

Fiz um empréstimo que paguei por quase três anos. Toquei o foda-se mesmo. Para viajar, era aquela hora ou nunca.

A ansiedade da primeira viagem. E o bichinho me mordeu

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Fiquei muito ansioso para a minha primeira viagem para fora. Desde tirar o visto de estudante (deu aquele cagaço básico de não aceitarem), até a forma de levar dinheiro, de como chegar na casa onde eu ia ficar, etc.. e tal.

Por isso, todas as sensações são extravasadas – os medos e as alegrias. Lembro por exemplo de como eu fiquei ansioso para dormir no avião, tentando me forçar a dormir, mas o senso de novidade, e é claro, a ansiedade natural, não me deixaram pregar o olho um único segundo. Quando cheguei em Atlanta, depois de uma viagem de 9h, estava exausto, mas feliz. Mas também louco para chegar logo. Ainda teria 3 horas até o meu destino final.

Aterrisei em San Diego eu tive uma sensação estranha. Foi quando pisei os pés no aeroporto, um bichinho me mordeu. O bichinho da viagem. Me senti em casa. É sério. Eu vi aquele aeroporto diferente de tudo o que tinha visto no Brasil. Tinha uma fonte. Parecia uma rodoviária de uma cidade do interior, algo um tanto pequeno, mas mesmo assim cuidado. E ao mesmo tempo, muito bem estruturado. Fui tomar um café por 2 dólares e veio quase um litro de cappuccino. Vi os lanches enormes, uma rosquinha que era quase de um tamanho de uma roda de um carro. Comecei a rir e pensei: estou nos Estados Unidos. Mas eu não sabia que eu estava em uma área muito especial dos Estados Unidos: a Califórnia. E que dentro dos Estados Unidos há muitos “países”, e a Califórnia é um deles.

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Uma cidade-zinha-zona. Aonde me conheci.

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Turma do intercâmbio em San Diego

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San Diego me deixou apaixonado. Só sei que amei tudo o que eu fiz lá desde o primeiro até o triste último dia. Fiz mais de 50 amigos e conheci praias, natureza, museus, história e cultura.

San Diego é uma cidade engraçada por que tem uma estrutura de cidade grande, população de cidade grande (é a 6ª maior dos EUA, com mais de 1,5 milhão de pessoas), mas um estilo de cidade pequena e praieira. Só quem já foi lá para saber como é. Existe uma proximidade, um calor humano, e um estilo de vida saudável, que são tipicamente californianos. E a culinária é muito boa também.

Mas foram justamente as reflexões sobre o que eu fiz e sobre meus pensamentos e meus comportamentos que me fizeram me tocar: quem sou eu? 

Em San Diego eu me conheci de verdade. Eu descobri que eu gostava, mais do que isso, eu amava viajar, e conhecer novas culturas e experiências. Essa sensação de descoberta me fez sentir realizado e pensar – por que eu não fiz isto antes. Eu não sou apaixonado por muitas coisas, mas as que eu sou, sou – e uma delas foi a sensação de estar fora da caixinha, de me superar, e de abrir uma nova fronteira na minha vida – fronteira esta que eu estou expandindo pra morar em outros países.

Em viagens internacionais nós temos que nos abrir, deixar de ser de todo tímidos, aprender a perguntar, a ser mais humildes, falar com desconhecidos. Em viagens internacionais, cada novo passo é uma descoberta, e foi assim que eu me senti. Aquela ansiedade que eu tinha se transformou em frio na barriga e a minha adrenalina foi lá para cima.

Eu me conheci em San Diego. Eu precisei estar a 10.000 km longe de casa para entender uma série de coisas que se passavam sobre mim, meu comportamento, e minhas ambições. E todas as vezes em que eu viajei depois, aconteceu novamente. Aprendi a lidar com questões de ansiedade, de ambições, de vontades, e o tempo que nós temos nesta esfera terrestre.

Lá o bichinho terminou de me morder. Eu queria viajar mais. Eu queria morar fora. E eu queria, e ainda quero, morar em San Diego.

E quando você se dá conta de que é viajando que você se conhece, você se torna um Wanderluster. A sua vida é viajar.

4 thoughts on “Foi tão longe de casa que eu pude me encontrar

  1. Amando seu blog e acompanhando sua experiência.
    O mesmo aconteceu comigo e volta a acontecer a cada viagem… 3 viagens para o mesmo lugar e cada uma delas me fez conhecer mais de mim. Fui mordida pelo bichinho da viagem tbm…kkkkkkk
    Sua exoeriência é inspiradora!

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