Sair do Brasil e o Gosto de Viajar – Como explicar para os Muggles?

Mas o que!?MASOQ? Você vai viajar? Você vai morar fora!? Pra que, se aqui tem tudo o que você quer? Para que gastar seu dinheiro e seu futuro? Só vai perder tempo!

Levante a mão quem de nós já ouviu esse papinho. Pois é, muitos, senão todos os que querem viajar, passar um tempo fora ou ficar para sempre, passaram por estes terríveis e chatérrimos questiomentos. E você certamente se perguntou como responder para essa categoria de pessoas que eu chamo de Muggles (trouxas no Universo Harry Potter). Você vai saber o porquê logo abaixo.

Sair do Brasil e o Gosto de Viajar – Como lidar com os Muggles

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Trouxas – Muggles – Foto: divulgação/Warner Bros

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Em primeiro lugar, embora o título seja referente a sair do Brasil, este texto também é para todas as pessoas que resolveram levantar o pó das malas e ficar um pouco longe de casa, nem que seja numa cidade vizinha. O que importa é o ato, que aqui em São Paulo a gente as vezes gosta de chamar de Vazar. E as vezes a gente fala: “vou dar um wazare”.

Esse post é o terceiro da minha série especial sobre deixar o Brasil. Para quem não viu ainda, eu falei anteriormente sobre o desafio de sair do país, e no meu caso, ir para Genebra. Depois eu falei de quando eu me encontrei, na minha primeira viagem, ou seja, de quando o bichinho da viagem me mordeu. 

Para quem conhece o universo de Harry Potter, ou mesmo quem só viu uma pitada de alguns filmes ou alguns livros (meu caso) já viu a expressão “Trouxas”. No original, Muggles. É a classe das pessoas comuns, as pessoas que não estão relacionadas ao mundo da magia. São pessoas que não nasceram com sangue de bruxo ou feiticeiro. Eu prefiro usar o termo original – Muggles, porque “Trouxa” soa um tanto quanto ofensivo no Brasil e ninguém quer chamar o amigo ou parente de Trouxa.

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Você e seu amigo mochileiro se despedindo. Você é o Hagrid. Gif: Divulgação / Warner Bros.

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A essa altura você já deve imaginar o que eu quero dizer. Os muggles da vida real são as pessoas que não estão relacionadas ao mundo da viagem e desprezam quem está na Viajosfera – a nossa Hogwarts. O bichinho da viagem é a coruja do Harry Potter. Eu gosto muito dessa correlação, porque viajar não é nada mais do que uma verdadeira magia. E só quem já passou pela magia conhece bem.

Os muggles da vida real são as pessoas que não estão relacionadas ao mundo da viagem e desprezam quem está na Viajosfera – a nossa Hogwarts.

Você já deve ter passado pela experiência – encontrar aquele amigo ou amiga, ou parente, ou colega de trabalho e querer entornar a conversa para sua viagem. Bora contar daquela vez em que você tirou uma foto com uma Llama em Macchu Picchu, e depois pediu para a mochilosfera tirar duas pessoas da sua foto e elas fizeram altas zoeiras com isso. Ou aquele seu mergulho no Sul da Austrália. Ou mostrar aquelas fotos sensacionais de Paris. Ou aquela experiência que você teve na Chapada Diamantina e viu um ET.

Depois de alguns minutos o seu interlocutor está bocejando, ou desvia o assunto. Acha chato. Fala do que carro que ele/ela quer comprar ou que bateu. De novela. De futebol. De computador. De pornografia, de amor, de músicas, de comida.  Mas não de viagem. Não entende a sua magia.  Talvez um pouco de desinteresse, um pouco de inveja também. Quase sempre desconhecimento. Não entende o que você vê em viagens. Até aí tudo bem. Mas te acha um idiota, ou um iludido. Aí sim. Um Muggle.

Vamos ser justos também – um viajante pode ser muito chato querendo falar todos os detalhes sobre a sua última viagem e ninguém é obrigado a ouvir. Mas um Muggle não é aquele que simplesmente está desinteressado. É aquele que despreza a sua experiência. Acha que não tem nada demais e que você está contando “vantagem”.

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Um muggle te ouvindo falar dos planos de viajar ou deixar o Brasil

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O pior é que você pode passar uma impressão de esnobe. É uma tendência comum para as pessoas acreditarem que quem viaja pra fora ou lugares como o Nordeste (estando no Sul/Sudeste) ou vice-versa é alguém rico, bem de vida, ou querendo se mostrar. Ih, lá vem aquele cara falar da viagem para o Paraguai! Cara chato! As pessoas não veem a correlação entre comprar um carro usado (R$ 15.000,00) e viajar pelo menos três meses pra fora com o mesmo valor.

É lógico que estou levando a ferro e fogo muitas coisas. A grande maioria das pessoas gosta de viajar, mas não com a frequência dos mochileiros ou viajantes experientes. Mas também não são poucas as pessoas que não entendem o porquê de viajar pra fora se no Brasil tem “tudo”. Elas tem uma pequena razão e o resto de muggleza. O Brasil tem muita coisa. Mas não tudo. E nem quer dizer que isso exclua os outros países.  Isso é assunto para outro post.

Uma ressalva que eu faço: Não quero dizer que as pessoas que nunca viajaram são invejosas ou pobres de espírito. Estou me restringindo ao muggles – as pessoas que desprezam o seu gosto por viajar, como se fosse algo insosso e você, um iludido. Ou até um vagabundo, como muitos viajantes são chamados.

Um Muggle em particular. O Muggle mora ao lado.

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Para entender a magia de viajar é preciso ser mordido.

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Eu vou falar de um Muggle em particular. O Muggle que mora ao lado, e em geral é aquele mais próximo de você, quase sempre um parente. E eu vou falar do tipo mais alto de magia: viajar para fora e/ou morar fora. No meu caso, eu vou morar fora e tenho experimentado muito isso, também devido às circunstâncias da minha viagem: sem grana e sem possibilidades de trabalhar no começo (só depois de seis meses).

Aquelas frases que eu falei no começo do post são verídicas. Não são poucas as pessoas que me falam – o que você vai fazer na Suíça você pode fazer aqui. Realmente eu posso fazer aqui. Mas não é a mesma coisa. É como comparar um punhado de tomate e uma pizza. Quase sempre você vai querer a pizza. No seu sistema digestório, no fim, vai se tornar a mesma energia. Mas fique claro que eu não estou falando mal do Brasil. Tem muitas coisas ruins e boas aqui. Isso também é assunto para outro post.

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Rumo à Suíça.

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Voltando, eu tenho ouvido muito que eu não preciso sair do Brasil. Que eu não preciso viajar. Aqui eu tenho tudo o que preciso. Posso fazer Mestrado aqui. Posso ser um profissional de direito internacional aqui.  E acho interessantíssimo o ponto de vista destas pessoas, que na maioria das vezes não viajaram, ou quando viajaram, não foram mordidas pelo bichinho da viagem. Em geral, pessoas que só viajam para dizer que viajam (aquele esquema Miami, praia, compras – Paris, Eiffel, Louvre, Hotel, Aeroporto) ou para mostrar aos outros que viajaram.

Eu quero dizer que essas pessoas não sabem a magia de viajar, e especialmente, o gosto especial de conhecer novas culturas. O sentimento Colombesco de descoberta – muitas pessoas não tem isso. Para essas pessoas, não há magia em viajar. Viaja-se e pronto. E não faz sentido para muitas delas que você vá sair da sua zona de conforto justamente porque é mais fácil. E no meu caso, eu vou sair da melhor zona de conforto que eu tive em anos. Não só isso, eu vou trocar o certo pelo incerto. Sem grana, sem bolsa. Vou chegar à Suíça praticamente com aquela sensação de primeiro dia da escola – você não é ninguém, não conhece ninguém e se não te cuidar, te engolem.

Eu ouvi: “lá você não vai dar certo. Você não tem nada para dar certo lá fora” (apesar de ter um diploma da USP, inglês fluente, conhecimentos de redação, tradução, desenho, design, criação de sites, editoração, processo e direito internacional). Aqui você tem futuro, lá não. Lá você é um ninguém. “Tive um amigo que fez isso e ele se fodeu, e você vai se foder também”. Pois é. Muggles, não entendem de magia.

E explicar a magia, a carga de experiência de vida de lidar com um mundo inteiramente novo? A descoberta! Conhecer a nós mesmos. A experiência está no caminho e não no destino.

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Hora de viajar.

Os Muggles dificilmente entendem. Mas aí é que está o X da questão: é capaz que você entenda o Muggle. Você tem um pouco de muggle em si e já foi mais muggle. Por que muito da magia vem do nosso primeiro viajar. Não é fácil lidar com os Muggles, eles sempre tentarão te jogar para o mundo “real”. A sua zona de conforto. Eles em geral não viajaram. Quando viajaram não “viajaram”, se é que você me entende – a verdadeira viagem é a mental, é a transformação do ser.

Afinal, é muito mais fácil não arriscar, ainda mais que você arriscou um pouquinho só (saiu do ensino médio e começou a faculdade e a trabalhar, isto é, sacrifica o seu tempo, mas tudo dentro do script que as gerações anteriores seguiram e nos deram) e isso já deu resultado.

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Para lidar com Muggles: atice a curiosidade deles. Jogar fatos, não adianta. Mostre fotos interessantes, lugares diferentes. Todo mundo já viu a foto de Paris. Mas e da Capadócia? Quando passou aquela novela que tem cenas na Turquia, muita gente deixou de ser Muggle. De repente o turismo aquela região bombou. Por que? Porque era interessante.

Mas e morar fora? Aí é outra história. Tem que ser um “bruxo” de um nível mais aprofundado. Viver em outro país implica em conhecer e experimentar um pouco da transformação pessoal. Como eu disse, a magia está no caminho. Se você não fez magia antes, só sabe a teoria. Quando você pisa em outro país e se sente maravilhado, e imagina – eu poderia fazer mais isso, essa é a magia. Mesmo com todos os “problemas”, que não são tão problemáticos assim, como fazer passaporte, comprar moeda, fazer a mala, arrumar seguro, criar ou comprar um roteiro, ainda assim, é muito bom.

Atualmente eu lido com muggles ao meu redor, mas eu os entendo. Todo viajante tem um muggle dentro de si. Afinal, viajar delibera um certo esforço. Sair da própria caixa. Abrir a mente. Mas a sensação com certeza é única. Eu adoro.

Hoje, quando escrevo, faltam cerca de 40 dias para a minha viagem.

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