Viajar, mas só de corpo

Meus últimos textos foram alvo de muita polêmica e esse não será diferente. Falar de viagem: estou só começando! Direto ao ponto: muito me interessa tratar sobre um tipo de gente que nós sempre conhecemos e que as vezes nós mesmos podemos nos tornar: aquele que só viaja com o corpo, mas não com a mente.

Viajar, mas só de corpo

Quem sou eu para falar como os outros tem que viajar? Não quero a mim essa pretensão, até porque a minha quilometragem é bem razoável comparada com a de vários outros viajantes e mochileiros. Mas tem um assunto que eu considero bom senso. Vou falar do tipo de viajante que não é incomum, e por vezes, as vezes, somos nós mesmos: Aquele que viaja só de corpo.

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Viajar só pra dizer que viajou

Eu me lembro que após as minhas primeiras viagens eu adquiri uma sanha por querer conhecer o máximo de lugares no menor tempo possível. Eu descobri que existe uma passagem de volta ao mundo. Vi quantos dias teria de férias. E na minha inocência, fui ao fórum dos Mochileiros e fiz a seguinte pergunta: “é possível fazer uma volta ao mundo em 17 dias?” Entusiasmado com a possibilidade, eu imaginava que poderia comprar uma passagem dessas e dar uma volta ao mundo, passando por seis países nesse tempo exíguo. É possível? É. Na época o dólar estava mais barato e isso queria dizer que a passagem de avião ia ficar por cerca de 10 mil reais.

Montei o meu roteiro: São Paulo, Johannesburg, Cairo, Dubai, Bangkok, Tokyo, Honululu, São Paulo.

Tudo isso em 17 dias. Imagina. Todas cidade.

Alguns usuários me jogaram de volta para a realidade: eu poderia até fazer isso, mas eu acabaria não conhecendo as cidades “de verdade”. Perderia muito tempo em trânsito e só me resumiria às capitais. Sairia do aeroporto para voltar logo em seguida. Em outras palavras, eu iria só pra falar que fui. Eu era um baita noob de viagens.

A viagem é factível? É. Mas eu não aproveitaria em nada. Talvez fosse interessante somente para um viajante que quisesse bater algum recorde de mais capitais em menos tempo, mas esse com certeza já às teria conhecido.

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Como funciona o viajar sem viajar?

É claro que isso não se aplica somente às viagens – tudo o que você não faz com a cabeça naquilo, você pode fazer de qualquer jeito, e sequer aproveitar. Viajar estando só de corpo é como transar por transar. Você pode ter prazer, sair contando para os outros e considerar que fez, mas não é a mesma coisa se você estiver com a mente na atividade.

Ir por ir? Parece que o aeroporto e a outra cidade são uma continuidade do seu país. Você age como se estivesse no Brasil – não conhece ninguém, praticamente não fala com os estrangeiros e só faz os programas básicos e batidaços. Nos pontos turísticos: Uma selfie, e volta. O máximo de interação é fazer compras (e as vezes o atendente é Brasileiro). Você está no estrangeiro, mas a sua cabeça não.

Lembro quando fui fazer o curso de inglês, havia muitos colegas brasileiros que no período entre as aulas, só falavam entre si e só saíam entre si. Exagerando um pouco, eu particularmente sinto que você não é um brasileiro no estrangeiro, mas sim, você está no Brasil, apesar de estar fora do país.

pisa
Visitar a torre de Pisa é legal. Tirar Selfie engraçada também é válido, Mas só fazer isso na cidade é praticamente sair do aeroporto e voltar pro Brasil – você não foi.

Viajar só de corpo é estar no lugar de forma praticamente automática. Passar nos pontos turísticos, só tirar uma selfie e ir embora. É claro que isso as vezes é válido. Tem lugares que você tem que simplesmente conhecer (por exemplo ir a Paris sem conhecer a Torre Eiffel e o Louvre é praticamente não ir). Mas se você só for lá para isso e não conhecer outras coisas cidade, é a mesma coisa: você não foi.

Alguém te pergunta: você conhece Paris? Sim. Que acha de Montmartre? Saint Germain? Quartier Latin? É provável que muita gente que só viaja de corpo não saiba nem o que é isso: “Ah, não estive nessas cidades, estive em Paris”.

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O dilema da Mona Lisa

Eu vou dar um exemplo prático de como isso funciona com a obra de arte mais conhecida de todos os tempos.

Essa é a Mona Lisa, quadro mais famoso de Leonardo da Vinci, em exposição permanente no Louvre, em Paris:

Essa é a Mona Lisa

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Mas olhe para a foto abaixo. ISSO é a Mona Lisa. São centenas de turistas lutando por um espaço só para tirar uma foto, na maioria das vezes uma Selfie, na frente do quadro.

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Esses são os bastidores da Mona Lisa

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Eu fui pro Louvre e me assustei. Não são poucos: são centenas de turistas tentando tirar uma foto. Sinto falar que boa parte deles foi lá somente para falar: eu vi a Mona Lisa. Mas será que viu mesmo? Há muitas coisas para reparar no quadro, como a textura, o famoso sorriso, e o fato de o horizonte do lado esquerdo ser menor que o da direita. Não precisa nem chegar ao ponto de detalhar as técnicas davincianas. Basta contemplar.

Depois de muito esperar, eu desisti. Preferi olhar de longe e me foquei nas demais obras do museu, que são fantásticas e cada uma tem a sua história e o seu valor. Inclusive muitas do Leonardo da Vinci, em minha humilde opinião, são mais interessantes que a Mona Lisa.

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Cidades e lugares comuns – e por que as vezes não viajamos de coração.

Existem cidades e lugares que são tão comuns no nosso imaginário e consciência que parece já conhecermos. Exemplos são Londres (Big Ben e o telefone vermelho), Paris (já falei), a Torre de Pisa, em NY a Estátua da Liberdade, e outros monumentos mundialmente famosos. Como eu disse, são lugares quase que obrigatórios de conhecer (e em geral eles oferecem muito mais do que tirar uma foto).

Mas quero dizer que não é nem um pouco difícil se tornar alguém que viaja só com o corpo, mesmo em alguns momentos. Em outras palavras, não viajar de coração. Acontece por vezes quando você visita um certo lugar e só faz o básico. É capaz que você esteja muito mais envolvido do que as pessoas que só vão para tirar selfie, mas todos os destinos oferecem outras atrações mais escondidas – aquilo que os gringos gostam de chamar out of the beaten path.

Eu pessoalmente já fiz isso, embora em menor grau, em uma ilhazinha chamada Miyajima, no Japão. Fui lá, dormi, visitei um monumento, mas praticamente não tive tempo de ver outras coisas. Me senti incompleto, mas gostaria de ter feito muito mais lá (especialmente o Monte Misen).

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O Portão do Mar em Miyajima – devido ao tempo curto, eu pouco pude ver e senti que quase não conheci a cidade.

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Não dá pra negar que existem lugares apropriados para um bate e volta. Isso também é válido. Mas mesmo nestes você pode fazer mais do que ir tirando só fotos e selfies e deixando de lado a própria aventura que você está vivendo.

Por isso também é interessante se envolver em outras atividades, por exemplo nestas cidades mais famosas – comer comida típica, conversar com um local, fazer um tour histórico, visitar algum ponto turístico menos conhecido ou fazer alguma atividade totalmente diferente (andar de balão?).

Pra encerrar, eu lembro de uma frase muito interessante de um filme um tanto recente – A vida Secreta de Walter Mitty. Walter Mitty passa boa parte do filme atrás de um fotógrafo badalado e cheio de personalidade, e este, atrás de um raro tigre das montanhas. E quando o fotógrafo, após esperar horas, finalmente avista o tigre, ele hesita em tirar a foto. O motivo, ele explica:

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As vezes eu não tiro fotos. Se eu gosto de um momento, pra mim, pessoalmente, eu não gosto de ter a câmera me distraindo. Eu só quero estar no momento.

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Foto: Divulgação / A vida secreta de Walter Mitty

Ps: Indico muito assistir este filme e em breve dedico um post só pra ele.

Até a próxima!

5 thoughts on “Viajar, mas só de corpo

  1. Qual o problema dessas pessoas?? Se preocupe com as suas viagens… E deixe q as outras pessoas façam a viagem delas… Se ela so quer bater uma foto da monalisa… Fodase… Eh a viagem dela… E eh ela que esta pagando…

    quem sou eu pra falar d viagem dos outros? So pq conheco 20 paises? Cada um faz oq quer… Pare de olhar para os outros e olhe pra si mesmo

      1. Li… E re-li ontexto… E ate o momento nao entendi o objetivo dele…tenho amigos q foram para a tailandia e so ficaram na praia… Acho isso m absurdo, ir la e nao conhecer o interior…Mas e ai? Eh a viagem deles! Qual o objetivo do texto? Nao entendi meesmo!! Que informaçao ele me traz? Nao sei… Me ajude a entender por favor

        1. Você entendeu sim, tanto que acha que os seus amigos irem para a Tailândia e não conhecerem a praia é um absurdo. Eu também estou falando o que eu acho um absurdo, não estou querendo proibir as pessoas de sairem só tirando selfies!!

          O texto é opinativo, não informativo

          Mas agora eu já sei que você entendeu!

  2. Excelente texto! Tenho horror a esses turistas que só viajam pra postar fotos no instagram… até prefiro viajar sozinha, escolher meu próprio roteiro e ir no meu ritmo.

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