Brasileiro ainda acha que viajar é coisa de rico.

Mesa de bar, conversa de whatsapp ou elevador. “Como está fulano?” “Ah, Fulano!? Tá super bem de vida, só anda viajando!” Quantas vezes você não ouviu algo assim? E será mesmo que precisa ser bem de vida para viajar?

Brasileiro ainda acha que viajar é coisa de rico.

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Tent illuminated at night from inside
Foto: Stockmedia.cc

Tenho certeza do que o que eu vou falar aqui vai causar polêmica. Afinal, está arraigado no consciente coletivo do Brasileiro que viajar é coisa de rico. Não serão poucos os que lerão (mas não interpretarão) e falarão que “pobre” não tem tempo nem dinheiro para viajar. Ou que eles não são pobres, mas não dá para viajar por que só rico pode. E não, não é bem assim.

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Um pré-conceito que tem origem.

A ideia de que quem viaja é rico tem muito da época colonial brasileira e se prolonga até uns 30 anos atrás. Era normal que as pessoas endinheiradas enviassem seus filhos para estudar nas escolas europeias. Aliás, tudo que vinha do velho mundo era considerado chique (e ainda parece ser) – menos os seus imigrantes. Então = ir para a Europa = ser rico. Pelo menos eram o que pensavam as pessoas. Mas mesmo assim não era de todo verdade.

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Viajar, especialmente de trem e depois de avião, era considerado como coisa de gente abastada.

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Isso não impedia, porém, que pessoas de outras classes pudessem viajar. É claro que era muito mais difícil para quem não tinha posses. Mas o conceito de primeira classe e segunda classe existe desde as primeiras viagens de trem e de barco. Copiou? No Titanic, por exemplo, existiam três classes, e a terceira pagava cerca de US$ 620,00 para uma passagem entre Southampton (Inglaterra) e Nova York. Hoje em dia essa viagem, se for feita de avião, custa em média US$ 500,00. Ou seja, o preço não é tão mais baixo. O valor é ainda maior para a atual viagem de transatlântico entre os dois destinos: US$ 1.000,00.

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Revolução dos Transportes – O avião

O avião significou uma grande mudança na forma como vemos o mundo – ele o “diminuiu”. O mundo ficou muito menor. A revolução foi eficiente para reduzir o tempo médio entre as distâncias de dois destinos. A ponto de que uma viagem de São Paulo ao Rio, a cavalo, podia durar quatro dias no tempo de D. Pedro, e hoje, de São Paulo a Tokyo via avião, se demora em média 20 horas.

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anos 50
Nos anos 50, viajar de avião era um luxo para poucos. Essa era a classe executiva.

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Mas justamente pelos preços praticados nas décadas de 50 a 80, aliados a um serviço incipiente – uma novidade, o avião foi considerado um transporte caro. Com isso, as pessoas continuaram a associar viajar com o fato de ser endinheirado. Claro, isso também era generalizar demais, porque não era só de avião que se viajava. Mas a pecha pegou e sobrou pra outros transportes, a ponto de que se você falasse que iria de avião, ou até mesmo ônibus, do Rio a Salvador, ainda assim achariam que você tinha dinheiro de sobra.

Na década de 90, as coisas mudaram: ficou muito mais barato e acessível viajar de avião no Brasil. Destinos começaram a ser vendidos por R$ 50,00, preços até mais vantajosos que passagens de ônibus. O exterior virou uma realidade para muita gente. Ir para fora do país também ficou mais em conta, e até hoje, apesar do dólar caro, é possível encontrar uma viagem de ida e volta aos Estados Unidos por menos de 1.000 reais, quase quatro vezes menos do que aquela passagem do Titanic de terceira classe.

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“Pobre não viaja”

Esse é um ditado que muita gente diz, e muita gente acredita. Eu próprio, durante anos, achei que para fazer qualquer viagem tinha que ter muito dinheiro. Isso foi logo no começo na internet (pra mim), lá pelos idos de 2000, 2001. Mas para falar a verdade essa cabeça dura durou até alguns anos atrás – até 2012. Antes disso, eu via os meus amigos da faculdade viajando e pensava – como eu desejaria ser rico e viajar para os Estados Unidos ou a Europa igual a eles, mas eu mal tenho para guardar.

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Foto: Chaves animado/divulgação

Pois é. Mas depois eu resolvi pesquisar um pouco e conversei com outras gentes. Pensei: por que não?

Em 2012 eu resolvi arriscar, fiz um empréstimo e uma viagem destas – mesmo sendo um estagiário que ganhava pouco mais de um salário mínimo. Paguei três anos de empréstimo, não gastei com muita coisa em San Diego, e vi que não era impossível viajar – na verdade, com o financiamento que eu fiz, eu poderia ter ficado cerca de três a quatro meses, ao invés de um mês que fiquei. O que faltou? Informação. Soubesse muita coisa que eu sei hoje, eu poderia até lucrar com isso.

Não precisa ser rico para viajar. Precisa ter informação

Mas o Brasileiro é elitista. Ele não acha que precisa de informação. Mas sim, dinheiro. E eu digo que o brasileiro é elitista por que ele acredita firmemente na existência de castas: alguns lugares, restaurantes, atrações e bairros são feitos para serem frequentados por quem pode, por quem é rico. Até nós, que não somos abastados, somos orientados a acreditar que existem certos lugares que não devemos ir a tal lugar por não se “encaixar”. E quem não se lembra dos rolêzinhos no Shopping?

Isso também estava um pouco arraigado em mim. Lembro até hoje da neura que minha mãe tinha (que deus a tenha) quando qualquer pessoa visitaria a casa. Parecia que iriamos receber o Papa – ela queria a casa toda limpa e usava os melhores pratos, tudo para parecer que nós tínhamos uma vida muito melhor do que a nossa realidade. Mas depois a gente voltava a comer miojo em todas as refeições.

Quer uma prova mais concreta!?  Vou mostrar uma foto.

aeroporto
Rapaz de regata e bermuda no Aeroporto. Na verdade, ele é um advogado. Mas uma senhora viu e postou a foto na internet debochando dele só por que parece pobre.

Essa foto foi compartilhada na internet por uma professora, que postou a seguinte frase: “aeroporto ou rodoviária?”. Em outras palavras, ela quis debochar do fato de que uma pessoa com regata e bermuda estava no aeroporto, onde não deveria estar. Como se aeroporto fosse um lugar exclusivamente para os ricos. Depois ela se retratou, mas a ingenuidade e a espontaneidade da postagem ficaram para a posteridade.

E o que eu quero dizer com espontaneidade? Que é algo que a maioria dos brasileiros temos dentro de nós e dizemos com tanta naturalidade que esquecemos de questionar: só rico pode viajar?

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Viajar não é coisa de vagabundo – histórias inspiradoras. 

 Como eu disse acima, falta informação. É claro, é muito mais fácil viajar se você tiver dinheiro ou estiver juntando. Mas não quer dizer que, se não tem, não possa fazê-lo. Eu colecionei algumas histórias bem interessantes que talvez inspirem muita gente:

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O Japonês Seiji Kawasaki viajou o mundo saindo de casa com uma bike e dois dólares. Nesta foto, ele no Nepal. Foto: Divulgação / http://www.feel-the-earth.com/pro.html

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O Mochila Brasil publicou a matéria de um japonês que saiu de casa com 2 dólares e uma bicicleta e viajou mais de 37 países. Como ele conseguiu fazer isso? Trabalhando nos destinos dele. Ele é mágico. Nessa hora o cérebro de muita gente dá bug. É por que não tem pessoas que não sabem conciliar a circunstância de viajar e trabalhar. Brasileiro, elitista, confunde viajar com férias. E tem mais, acha que viajar é coisa de vagabundo.

A Aline Campbell fez ainda mais: viajou sem nada pela Europa e conheceu trinta países.

Leonardo Macieria saiu viajando pelo Brasil com 70 reais na Carteira e quer ir até o México.

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Falta informação.

Eu disse e repito que falta informação. Como vocês podem ver, dá para rodear grande parte dos problemas. Basta pesquisar e se empenhar. A internet ajuda bastante – hoje é muito mais fácil do que antes. Entre os meios que facilitam a tarefa de gastar pouco ou nada estão:

– Couchsurfing – dormir no sofá na casa de outras pessoas

– Carona

– Trabalho em troca de moradia e/ou refeição – em hostels, hotéis, fazendas e outros lugares. Sites como o workaway, o helpx, o WorldPackers e o jobbaticabal são úteis para isso. Em fazendas, o WWOOF.

– Trabalhar como profissional liberal ou vendedor: como o japonês que faz truques de mágica. É possível, por exemplo, ensinar línguas, ou vender itens como artesanato ou alimentos.

– Fazer uma vaquinha virtual

– Vender serviços ou outras coisas pelas internet (em outras palavras, ser um nômade digital).

– Acampar

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Desafios

É claro que a tarefa não é de todo fácil, até por que, existem vários obstáculos para isso, como a nossa mentalidade elitista, gastos agregados e necessários, como visto, seguro e taxas, mas tudo isso é contornável. Peça para alguem ou algum parente te ajudar a compor renda para tirar o visto. Trabalhe alguns dias ou semanas a mais para tirar o passaporte, que não é barato. Mas importante: corra atrás disso, se for o seu sonho.

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Conclusão – É normal comprar um carro usado por 30.000 reais, mas se você usar a grana para viajar, é um “vida boa”.

Sim, o brasileiro ainda acha que viajar é coisa de rico. O que mais você ouve é que “mas eu não tenho dinheiro”. Eu acho engraçado e até contraditório que as pessoas arranjam dinheiro para milhares de outras coisas que as vezes são até muito mais caras. E as pessoas movem mundos e fundos para isso. E por que para viajar não? Para não serem tachados de “vagabundos” ou “vida boa”.

Por isso hoje é normal gastar dinheiro num celular de 1.000 reais, pago durante um ano, mas se você gastar a mesma grana para ir a Buenos Aires, tá ostentando.

É normal pagar 30.000 reais em um carro básico com dois anos de uso, mas se você usar o mesmo valor para ficar seis meses na tailândia, vão dizer que você nasceu com a bunda virado para a lua.

Está vencendo na vida quem compra um apartamento de R$ 500.000,00 em 300 parcelas em São Paulo, mas se você pegar este dinheiro, ir para a Tailândia, comprar um apê na praia por R$ 250.000,00, investir e montar um negócio de turismo, você é um “perdido”

Tudo isso você pode revender, mas não nos esqueçamos que você gasta com crédito no celular, gasolina e manutenção do carro as vezes bem mais do que o próprio item. A casa tem IPTU, condomínio, manutenção, etc…

E por último, casar gastando mais de 40.000 reais para um dia é comum, aliás muita gente ainda pode reclamar que o seu casamento é simples demais. Experimente usar a mesma grana pra uma viagem ao mundo. Milionário por votação.

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Até mais!

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26 thoughts on “Brasileiro ainda acha que viajar é coisa de rico.

  1. Excelente texto.
    Nos valores citados no começo do texto foram atualizados? Pergunto pois em 1912 650 dólares era muito grana, um Ford T na época custava mais ou menos isso pra efeito de comparação.

  2. Ótimo texto, me senti mega retratada. Escuto direto que sou uma vida boa, porque ano passado fiz uma volta ao mundo e agora trabalho com meu blog de viagens… Eita que tá na hora de abrir a cabeça, né?

  3. Adorei o texto. Fazia um tempo que eu não viajava nas férias porque achava que era caro demais, só quem tem dinheiro viaja em julho. Mas uns amigos insistiram tanto que fui. Nos juntamos pra pagar a gasolina, estacionamento, alimentos,bebidas e além disso ficamos na casa de uma nativa da ilha( Algodoal- PA).Resultado, como dividimos os gastos todo mundo economizou, ainda voltei com dinheiro no bolso e combinando a próxima viagem.

  4. Eu e meu marido deixamos o Brasil há quase 3 anos e com dinheiro para permanecermos apenas 3 meses na estrada. No entanto, sabíamos que não queríamos voltar para o Brasil (não por um bom tempo), e nunca mais voltamos. Conseguimos nos virar, trabalhamos em diversas atividades, até que criamos uma fórmula que nos permite viver na estrada por tempo indeterminado (como nômades digitais). É possível, (quase) qualquer um pode fazer, basta querer de verdade e ter disciplina! Desde então, já rodamos 1 ano e 7 meses pela Nova Zelândia, moramos 1 ano na Tailândia, e visitamos vários países do Sudeste da Ásia. lembrando que somos classe média e saímos do Brasil com menos de 10 mil dólares.

  5. Bem legal o texto , depois de dois mochilões tenho ouvido muito isso também.
    O que achei bem legal foi a parte sobre viajar e trocar serviços por hospedagem. Na ultima Mostra Viajar 2015 no Ibirapuera conheci o https://www.worldpackers.com/ de um brasileiro que tem feito bastante sucesso e as historias dos viajantes la retrata um pouco do que teu texto fala que é sobre se virar pra viajar pra algum lugar que realmente gostaríamos de conhecer.

  6. Tem 20 anos que comecei a viajar e nesses 20 anos posso dizer que esse papo de “não tenho dinheiro” é apenas desculpa para quem tem medo. Medo de abandonar o conforto de sua casa e de enfrentar o desconhecido, o inesperado. Quantas vezes na vida não escutei: “como você é corajosa!”, mas nunca entendi porque. Não me considero corajosa… Apenas SEI que posso me virar em qualquer lugar, com ou sem dinheiro… Viajar não é questão de dinheiro, viajar é vocação, amor pela estrada mesmo, e não é pra qualquer um, definitivamente, e independente do volume da conta do banco!

  7. Ótimo texto! Já ouvi tanta coisa preconceituosa por preferir ir a Europa a ter q trocar meu carro popular :3 hehehe

  8. Excelente Texto, o do casamento então, acabei fazendo isso, ao invés de gastar 50 mil em uma festa, fizemos uma viagem de 40 dias, 10 EUA e 30 Europa de Lua de Mel, e não nos arrependemos nenhum pouco.

  9. Não concordo plenamente com voce que pobre pode viajar. Veja o seu exemplo e que o sujeito fez um emprestimo e pagou tres anos. Viajou e ficou mofando tres anos em casa. Isto deve ter sido para uma viajem simples sem gastar muito com compras e passeios etc. Depois, vendo os valores de hoje não acredito que ele poderia ficar 3 meses.
    Outra coisa é viajar pelo brasil onde voce pode andar de carona, onibus barato, dormir em casa de nativo ou em barraca, comendo buffet por kilo em beira de estada ou nos suburbios, etc, ficando assim bem barato, e com isto pobre pode viajar sim.
    Fazer uma viajem hoje em dia para Europa, se hospedar em hotel, fazer passeios, compras e comer dignamente fica dificil. Se fizer empréstimo, com certeza vai se apertar. Isto porque os empréstimos hoje, estão pela hora da morte. Será que este é o nosso país mesmo? Onde viajar é só coisa de rico? ou será que pobre pode mesmo tirar uma onda de rico e se encontrar em Miami fazendo compras com os ricos? Ou será que está na hora de acordarmos e concordar que pobre não tem condições de viajar?

    1. Opa César, quem disse que eu fiquei três anos mofando em casa?
      Então, eu era muito mais pobre, fiz um empréstimo e viajei. Sou o maior exemplo disso. E na época, dava para ficar três meses sim, até mais! O dólar estava 1,70.

      Você diz que não concorda plenamente, mas você mesmo deu exemplo que pobre pode viajar, mediante carona, onibus, dormir na casa de nativo.

      Tudo isso também pode ser feito na Europa. O cálculo é o seguinte: passagem para Europa custa uns 3.000,00. Seguro, uns 300,00. Okay, as pessoas podem guardar R$ 4.000,00 e ainda assim ir para Europa:

      – se hospedando via couchsurf
      – trabalhando em hostel
      – pegando carona.

      Não é por que o Brasileiro médio não esteja disposto a fazer isso que é impossível. Uma coisa é não poder, o que é bem diferente de não querer.

  10. Excelente texto. É isso mesmo !! Mas penso que, além de elitistas ( a grande maioria dos desinformados), também tem aquela pontinha de inveja . Nada fazem para melhorar sua situação, seja financeira ou até mesmo intelectual. Passam horas intermináveis lendo e comentando bobagens na internet, principalmente, e não se importam em se instruírem. Para eles, é bem mais còmodo falarem mal.

  11. Alguem ai realmente se importa ou esta sofrendo por causa do que pensa um ou outro idiota?
    Se alguem esta sentindo na pele as opinioes dos outros, quem quer que seja, ‘e porque aprendeu muito pouco com a viagem, eu penso.

  12. Beleza campeão.

    Primeiro de tudo, na tua condição de “pobre”, chegue praquele sujeito gente fina que é seu patrão, daquele emprego de merda no qual te prendem durante seis dias da semana e tente pedir folga ou um período de férias, volte aqui e diga se continua empregado ou se foi demitido por “justa causa”.

    Depois, se der tudo certo, passa lá na embaixada dos EUA pra tirar visto com contra cheque de 2 salários mínimos pra ver o que acontece;

    Ou então passe mais alguns anos juntando dinheiro, compre uma passagem pra Europa e sinta o amor com que você vai ser tratado pelos agentes de imigração na tua condição de viajante de classe média-baixa oriundo de alguma latrina do terceiro mundo. Bônus se você não for branco e não tiver sobrenome alemão, italiano ou qualquer outro que não denote origem europeia direta.

    Tudo isso levando em consideração que você não tem família, porque se tiver, pode esquecer de vez…

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