Mulheres mochileiras – Um desafio a mais – A visão de um homem

Não é preciso nada, nem curso de sociologia, nem dados físicos e metafísicos para reconhecer: as mulheres que mochilam e viajam passam por diversas dificuldades a mais do que o homem. Exemplos nós damos de língua. Mas ainda assim, ainda existe uma teima bruta em não admitir de que elas tem desafios a mais.

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Mulheres mochileiras.

Wild-Movie-2014

Demorei muito para escrever este post. Sempre esteve nos meus planos. Sempre admirei as mulheres mochileiras. Mas pelo fato de ser um homem e apegado à boa escrita, aos sentimentos verdadeiros e a vontade de querer passar as minhas ideias de uma forma fiável, me vi diante de dificuldades de descrever em como imagino como se sentem as mulheres. Afinal, não sou uma. Mas eu posso me orientar em escrever a visão masculina.

E eu não me sentiria verdadeiro se eu não reconhecesse: Mulheres passam por diversas dificuldades a mais quando viajam sozinhas e quando mochilam. 

Um filme me ajudou bastante nessa tarefa. O filme Wild (Livre), baseado no livro de mesmo nome, é um dos melhores que eu já vi, tanto a respeito de viagem, cultura backpacker, mudança de vida, protagonistas mulheres e também do cinema em geral.

Eu já tinha esses pensamentos amigos. Mas o filme colaborou com que eu tivesse uma proximidade maior com o ponto de vista das mulheres, e eu pude reconhecer de vez que, ser mulher e mochilar é uma aventura em particular. Homens e mulheres passam por dificuldades diferentes. Mas as delas são muito mais arriscadas.

Subir o Everest? As mulheres podem. Dar mortal numa cachoeira? As mulheres também podem. Fazer uma trilha ao redor de um vulcão? É claro que sim. Nada disso depende de sexo, mas sim, de vontade e de coragem.

Mas estar mais sujeito à criminalidade e abusos, elas estão muito mais, simplesmente pelo fato de serem mulheres.

Raiva, medo, angústia. A protagonista do filme Wild passou por tudo isso em duas cenas memoráveis. Adianto que nada de mal lhe aconteceu. E que os homens passariam por mesmos riscos, mas de uma forma muito menos intensa.

Pegar carona é uma delas. As mulheres tem que pensar mil vezes mais rápido e analisar diversas situações, como em um xadrez, para averiguar o risco que o caronista oferece. Outro dia eu vi um relato angustiante no Facebook, em um grupo de Mochileiros, sobre uma garota que estava com várias pessoas em uma van, pegando carona, mas acabou caindo no sono. Quando acordou, viu assustada que as portas estavam trancadas, o veículo estava em um local isolado e ela estava sozinha com o motorista, que chegou a exigir sexo. Não fosse o espírito firme e coragem dela, teria sofrido o pior.

Se alguém me disser: mas os homens também podem sofrer isso. Podem, mas em um grau ridiculamente muito menor e que diminui conforme a idade do manolo. Qualquer pessoa pensaria duas vezes ao tentar tomar um homem de assalto. Uma mulher, se quisesse se aproveitar de um homem, mais ainda. Então não, não é a mesma coisa.

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A verdadeira Cheryl Strayed. Fotomontagem: Historyvshollywood.com

A cena que me chocou e me deu nojo no filme, e até uma certa angústia, foi a perseguição inquieta e nas entrelinhas que um caçador fez à protagonista. Enquanto ela mochilava sozinha por uma região isolada, um par de caçadores à viu. Um deles a olhava como se ela fosse um simples pedaço de carne. E depois a espionou trocando de roupa. Não é preciso ser mulher para emular o sentimento de medo e de ameaça que essas cenas podem gerar.

Qual o problema de nós homens admitirmos isso? Isso em nenhuma forma nós torna menores do que nós somos. Mas muitos de nós, inclusive muitos amigos, teimam em negar simplesmente por que acham que não é assim. Muitos acreditam, e até algumas mulheres, de que isso é vitimização, quando na verdade, isso é só um nome rebuscado para “frescura”. Acontece que, como toda “frescura” (nota – para mim não é frescura, é um fato), a gente acha que é frescura até que nós passemos por situação semelhante.

Infelizmente, falta empatia. O sofrimento e o medo dos outros é sempre relativizado.

Mas você pode dizer a falácia que “mulheres são mais bem tratadas”. Eu entendo que por trás desse suposto tratamento especial sempre esteja alguém querendo come-las na primeira oportunidade, então com certeza não é algo tão inocente quanto se imagina.

E com tudo isso, elas são 60% das pessoas que mochilam e procuram informações sobre viagens backpacking na internet (Fonte – MochilaBrasil).

Mulheres mochileiras. Eu admiro vocês.

Blogs de mulheres que gosto de ler:

Woman Trip é um site que reúne vários blogs em geral.

Uma Sulamericana
O que vi do mundo
Mochilão Trips
Mulher Casada Viaja

Informação:
Dicas básicas para mulheres

7 thoughts on “Mulheres mochileiras – Um desafio a mais – A visão de um homem

  1. Muito legal seu post. Principalmente porque toca neste problema da negacao (teclado sem acento, foi mal). Vejo que muitos mochileiros e mochileiras negam este problema e, como ja vi em alguns grupos de mochila, as proprias mulheres julgam aquelas que passaram por problemas, afirmando que a culpa e da vitima (por exemplo, comportamento inadequado, roupa etc). A verdade e que o machismo existe, em alguns lugares e menor, sem duvida, mas em outros e brutal. Eu ja viajei sozinha varias vezes e algumas com meu marido e em todas ja sofri preconceito (mesmo com ele, e mole?), com o tempo, porem, a gente aprende a evitar certas coisas, como olhar nos olhos dos transeuntes (principalmente homens), mudar de calcada ou de caminho quando um grupo de homens se aproxima, evitar andar sozinha muito tarde, nao dizer sua nacionalidade (ser brasileira pesa em alguns lugares), entre outros. Tudo isso faz com que a viagem da mochileira seja diferente da do mochileiro. Por exemplo, um cara sozinho pode fazer um pub crawl e fazer varios amigos, curtir muito, uma mochileira sozinha tambem pode, mas e muito provavel que varios caras vao chegar nela, alguns bebados vao tentar agarra-la, ela tera que se preocupar com sua seguranca no caminho de um pub a outro e sempre ficar de olho na sua bebida. Por fim, ficar bebaca nao e uma boa, se estiver sozinha, e nao pense que a mochileira vai fazer um monte de amigos porque e mais dificil para uma mulher fazer amizade quando esta sozinha. Moral da historia: a riqueza da viagem vai ser menor. No final, a ideia e fazer como voce fez: admitir que temos um problema! A solucao tem que vir dos proprios mochileirxs, que, muitas vezes, sao super machistas (nem todos, claro).

    ps; uma vez encontramos uma mochileira bebaca e caida em um bar de rock, que eu frequentava ha muito tempo atras. Ela era holandesa. Eu e meus amigos headbangers pegamos ela e colocamos em um taxi e ela foi para o hotel, porem isto me fez lembrar que o machismo e diferente de pais para pais. Na Europa e mais tranquilo ficar bebaca e esta guria imaginou que podia ficar assim no mundo inteiro. Ela deu sorte.

    ps2; todo mundo fala que o Brasil e punk, porem, quando morava na Franca fui atacada por um homem arabe, que tentou me agarrar. Estava de dia. Acho que nunca corri tanto na minha vida. Moral da historia: a holandesa deu sorte no Br, eu nao dei sorte na Franca (na verdade me safei, entao dei sorte rsrsrs), ou seja, todo cuidado e pouco! 🙂

    Boa sorte com seu blog.

    1. Gostei bastante do seu comentário Camila.
      Você deu ótimos exemplos tanto de coisas que acontecem, e que podem acontecer, como as estratégias tem que adotar para se sentirem quase tão seguras quanto os homens podem se sentir, mas ainda assim não é a mesma coisa.

      Muita gente pode falar da sua história e da amiga Holandesa de “é frescura por que não aconteceu nada”. Mas não precisa acontecer nada. Só a ameaça de acontecer alguma coisa já é muito ruim.

      Como você falou, infelizmente a magia da viagem vai ser menor se nós temos que nos preocupar com muita coisa ao redor. E as variáveis que as mulheres tem que considerar são em maior número que a dos homens. Bebida, rua, “amigos” subitamente bonzinhos, alguns países em específico, andar à noite, etc…

      Obrigado pelo seu comentário, ele complementou bastante muita coisa que eu não coloquei no post por que não tinha a experiência e não saberia falar.

    1. Opa Aline, o que eu falo não é nem 1% do filme! E tem muito mais no filme pra ver do que o assunto que eu entrei rs…

      Eu falei só de duas pequenas partes de cenas curtas.

      Se você assistir, vai se surpreender.

  2. Belo texto. Ser mulher é difícil na rua, perto de casa mesmo. Muitos homens, que infelizmente não pensam como você, acham que podem falar o que querem só porque estamos andando na rua. Imagina isso longe de casa, com a mochila nas costas – que denuncia que você é turista, e sozinha!
    Nunca viajei sozinha, porque descobri o amor por viajar eu já estava até casada, mas me solidarizo com essa mulherada corajosa, que coloca uma pedra imensa em cima do preconceito e do medo e encara uma trip solo. Minha mãe é uma delas – vai viajar sozinha esse ano.

    Parabéns pelo post e pela sensibilidade. Por mais homens como você!

  3. Agradeço pelas dicas, precisamos ficar atentas e tomar alguns cuidados porém quero deixar um recado para as mulheres que querem viajar sozinhas(como eu): Não tenhamedo!!!! Se libertem do medo!!! A vida é maravilhosa!! Beijooooo

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