Prontos pra viajar: Por que a Geração Y criou asas

Fomos criados no meio de uma das maiores revoluções de todos os tempos. Em menos de 30 anos, o mundo ficou pequeno. A informação é instantânea. A Geração Y acompanhou a transformação de um mundo em outro. A Geração Y se adaptou rapidamente – ela criou asas e está pronta para voar.

Prontos para viajar: Por que a Geração Y criou asas

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O mundo ficou muito menor

As escolas foram surpreendidas por crianças que aprendiam rapidamente e lidavam com eletrônicos como se eles sempre existissem. Na virada do milênio, muitas destas crianças já dominavam o computador e a incipiente internet, fuçando e aprendendo tudo de uma forma surpreendentemente natural.

Nascidos nos anos 80 e 90, a Geração Y acompanhou e testemunhou o fenômeno da revolução digital de perto. Muitos de nós fomos criados aprendendo a colocar ficha no telefone e hoje ligamos para os nossos amigos do outro lado do mundo com Smartphones. E isso implicou em uma outra transformação, uma figura de linguagem que se materializou rapidamente: o mundo ficou muito menor.

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“Nada a ver”, você pode dizer. “O mundo está do mesmo tamanho. E é enorme”  Sim é verdade! Mas eu falei no sentido figurado! Hoje é muito mais fácil encontrar voos para muito mais partes do mundo do que há 30 anos atrás. Há muito mais opções de transporte. Há mais opções para entrar em contato com outras pessoas do outro lado do mundo. E há muito mais informações sobre lugares que antes eram considerados remotos ou inatingíveis.

Muitas destas coisas me vieram a tona quando eu uma vez quis viajar e me desligar da sociedade, deixar de falar um pouco com as pessoas e me focar nas minhas necessidades. Dar uma “fugida” do mundo. Quando eu cheguei no meu destino, mal liguei o celular e pipocaram mensagens de voz, whatsapp e uma ligação. Amigos, família, etc… Eu estava bem longe de casa, mas parecia que não. Podia falar instantaneamente com qualquer deles. Aí eu precisei me desligar tecnologicamente para me conectar comigo mesmo. Se você quer dar uma fugida, hoje é muito mais difícil.

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Eu também me lembro, quando pequeno, eu adorava ver fotos de lugares distantes, e a única fonte que eu tinha de conhecê-los era uma enciclopédia. Uma vez eu li que existem algumas ilhas próximas à Antártida, que estão entre as mais isoladas do mundo, mas que são habitas. Eu vi as fotos com pinguins, pequenas casas e tudo mais e pensei comigo mesmo que eu queria visitar aquele lugar algum dia (na minha cabeça de um menino de cinco anos, não era tão frio). Falei para a minha mãe e a professora e elas riram da minha ideia.

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Localização das Ilhas Georgia e Sandwich do Sul, onde está a estrela.

Hoje eu sou um grande entusiasta de viagens, e dias atrás eu pesquisava alguns dos destinos mais isolados do mundo, quando me lembrei deste lugar. Em menos de meia hora, eu consegui levantar todas as informações de como chegar lá (saindo das Ilhas Malvinas/Falkland), onde ficar, o que fazer, em que época do ano ir e ainda vi mais de uma centena de fotos. De repente, apesar da distância física, as Ilhas Geórgia e Sandwich do Sul ficaram muito mais perto do que imaginaria o meu eu criança. E não só isso: elas ficaram mais acessíveis.

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Grytviken – Ilha Geórgia do Sul – Foto: Gregory “Slobirdr” Smith. Licença: CC 2.0. Mais em: https://www.flickr.com/photos/slobirdr/

Estes lugares tem até Wikitravel. Quer mais? O google maps já passou por lá. Pois é, então é possível você visitar as ilhas diretamente do conforto da sua casa, do seu pc, e instantaneamente.

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Revolução Digital e conflitos

Tudo isso tem seus prós e contras. Nós somos conhecidos pela nossa capacidade de adaptação, mas ao mesmo tempo, de imediatismo, inclusive em questão de trabalho ou sucesso pessoal. A Geração Y é conhecida por querer tudo para hoje. Até por que, no mundo digital, onde tudo é instantâneo, é possível. E isso confronta diretamente com os valores das gerações anteriores e da forma como o mundo funciona.

Nas décadas de 50 e 60, época do Baby Boom e de certa prosperidade econômica, havia menos pessoas no mundo, e em geral era necessário trabalhar menos (em anos) para comprar os itens como casa, carro e geladeira, que eram o sonho de qualquer família. Mas isso também significava que as pessoas começavam a trabalhar mais cedo (aos 12, 13, 14 anos, o que era comum), e quando chegavam aos 20 e poucos anos, muitos já tinham o padrão de vida que era o desejado pela sociedade.

No Brasil, vivíamos o êxodo rural, o que inchou grande parte das nossas maiores cidades e criou muito dos problemas urbanos que temos hoje. Definitivamente não quero dizer que a vida era mais fácil no geral. Era em alguns aspectos (facilidade para encontrar trabalho com menos formação, e a moeda mais forte), mas em boa parte não (saúde precária, falta de infraestrutura, menos direitos trabalhistas).

Quando a Geração Y veio ao mundo, encontrou a terra em uma constante transformação. Para começar, a sociedade é muito mais competitiva. Hoje é considerado pré-requisito para ter sucesso um curso superior, e ainda assim, os salários de entrada no mercado são baixíssimos. Adolescentes não podem mais trabalhar e todas as vagas tem grande concorrência. Há muito mais itens que as pessoas compram. Se antes era casa, carro, fogão e Geladeira, hoje não pode faltar microondas, computador, celular, TV, sem falar em muitos outros itens supérfluos.

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Comprar a casa própria – Nunca houve tantas opções, mas nunca foi tão caro.

Aliás, a casa própria, nem se fala. Nunca antes esteve tão caro comprar um imóvel no Brasil e no mundo inteiro, com cidades superando facilmente o “um milhão de reais”. A Geração Y descobriu que para comprar um imóvel que custa metade destes (por exemplo, um simples apartamento no Jardim Miriam em São Paulo), ganhando um salário médio (R$ 3.000,00), teria que trabalhar nada menos do que 500 meses (41 anos) e ainda passar sufoco.

Novamente, não estou falando que antes a vida era muito mais fácil. É um fato que não pode ser isolado de outros. As casas que nossos pais e avós compravam, eles os faziam em 10, 15 ou 20 anos. Muitas delas eram periferias. Hoje não são mais: os bairros ganharam muita infraestrutura e transportes.

O que eu quero dizer com isso: A Geração Y (e a que veio em seguida, a Z também) se deu conta que precisaria trabalhar muito mais e estudar muito mais, em um mundo cuja concentração de renda aumentou, para conseguir aquilo que nós achamos que é o mais desejado da vida: casa, carro e família.

Outra coisa: A Geração Y se deparou com o fato de que, para aproveitar a vida e conhecer o mundo, tal como as gerações anteriores se programavam, teria que esperar se aposentar. E se antes isso acontecia aos 40 (lembre-se, tem gente que começou a trabalhar com menos de 15), 50 anos, quem nasceu depois da década de 80 só vai poder pensar nisso já quando estiver com mais de 60. Filhos então, foram adiados dos 20 para os 30 anos.

Tudo isso conflita com a instantaneidade da Geração Y. Mais de 4 décadas para conseguir bens que todo mundo quer e o tempo para gozá-los. O que fazer então? CHUTAR O BALDE.

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Criando asas e prontos para viajar

Criando asas. O Jetman Yves Rossi
Criando asas. O Jetman Yves Rossy

 

A Geração Y chutou o balde. Para que esperar tanto? E para que tanto materialismo? Será que ter uma casa e um carro é mesmo um objetivo de vida para alguém se realizar? Não necessariamente.

A juventude criou asas e começou a voar. Inicialmente, mas não somente, de forma a se diferenciar. Cada vez mais pessoas vão estudar no exterior, seja línguas ou graduação. Cada vez mais pessoas viaja para lugares muito mais longe do que se pensava que era longe antes – de São Thomé das Letras à Timbuktu. Se comprar uma casa ficou muito mais caro, viajar ficou muito mais barato, e acessível. E se uma pessoa precisava juntar durante anos para visitar o exterior, hoje pode pagar no cartão de crédito e ir no dia seguinte.

Não só para estudar. Cada vez mais pessoas saem dos seus países para morar fora, seja temporaria ou definitivamente. E com o preço dos imóveis no Brasil, a violência e os problemas de saúde, educação e infraestrutura, sair daqui virou uma opção realista e as vezes até uma necessidade para muitas pessoas. Nunca antes eu ouvi falar de tanta gente que está saindo do Brasil.

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Viajar, então, além de ficar mais barato, ficou mais acessível. Temos problemas no Brasil, mas o país hoje certamente é melhor que há 30 anos atrás. Mais pessoas podem viajar por preços menores (apesar do dólar). E mais destinos são visitados, a ponto de Macchu Picchu se tornar um Hot Point da América do Sul.

Para se adaptar, a Geração Y aproveitou a revolução digital e criou asas. Não fosse assim, estaríamos todos contentes com a nossa vida e pensando em nos conformar com um futuro que parece ficar cada vez mais caro e distante todos os dias. 

Sair de casa cedo, trabalhar oito horas por dia, perder tempo com o trânsito, e assistir aulas da faculdade ou da pós. Ou do inglês, espanhol, ou francês. Ou cursos profissionalizantes. Não sobra tempo. O dia todo ocupado. E quando chegar o final de semana, a única oportunidade para descansar. Uma ova – por que aí tem a casa para limpar, ir ao médico e resolver pepinos. As Gerações X (que nasceu na década de 70 e começo da de 80), Y e Z (que está começando a entrar no mercado de trabalho agora) estão sobrecarregadas. E muitas pessoas não se contentaram com isso. Muitas delas chutaram o balde e resolveram bater as asas para bem longe.

Uma classe específica foi mais longe: São os nômades digitais. Aproveitando as benesses da informática e tentando contornar um mundo caro em que o tempo vale dinheiro e é subvalorizado, eles simplesmente resolveram que não tinham que se conformar e não tinham que esperar para conseguir a vida que queriam.

Essa é a próxima revolução. Ou pelo menos eu espero que o seja – a da qualidade de vida. Por que não adianta se matar de estudar e trabalhar, sendo que você não consegue se realizar ou cumprir qualquer outro objetivo. Quando você poderia aproveitar o que conquistou? Somente com 65 anos?

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Prontos para viajar

Quantas pessoas compraram apartamentos em prédios com piscinas, caríssimos, e não puderam ir mais do que uma ou duas vezes? Tempo até pode ter, mas disposição, pouca. Por que logo chega a neura das preocupações e a pessoa decide focar nas obrigações ao invés do descanso. O Stress é uma epidemia mundial.

Os nômades digitais decidiram e viram que é possível aproveitar o tempo, sem deixar de trabalhar e ser produtivo. Hoje é possível trabalhar em vários setores, em basicamente qualquer lugar do mundo com infraestrutura. Conheço um casal de colegas blogueiros que está no sudeste asiático. Outro colega está terminando a sua lista de 198 países do mundo que ele tem que visitar. E nenhum deles é vagabundo. Todos trabalham bastante, mas não precisam necessariamente estar presentes, ou muito menos usar 8 horas do dia para isso.

Ah, as 8 horas. É um conceito arraigado de que as pessoas tem que trabalhar um terço do dia, dormir outro terço e aproveitar o último terço. Mas acontece que nós usamos o nosso terço “aproveitável” para nos capacitar, locomover, comer e resolver problemas que, muitos deles, são oriundos justamente do nosso ritmo de trabalhar 40 ou mais horas por semana.

E aí nós nos damos conta que estamos muito mais produtivos do que há 30 anos atrás. Menos gente, e máquinas, produzem o mesmo ou mais que uma fábrica de 30 funcionários da década de 70. Basta olhar o que você pode fazer com uma impressora 3d. Você pode criar uma linha de souvenires em menos de um mês!!!

Eu me pergunto: Será que não está na hora de repensarmos as nossas prioridades e horários? Tem gente que acha que sim. E na prática, eles já revolucionaram o mundo deles. A Geração Y está pronta, na boca do túnel. Os nômades digitais são os integrantes que já estão do outro lado.

Nós criamos asas para nos adaptar a um mundo caro, injusto e ainda violento. Talvez seja a hora de usar.

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