Mudando de país – coisas que não te dizem (ou que você não prestou atenção)

Aquela foto bunita do Instagram não diz nem metade. Ninguém vai postar fotos das horas que passaram em repartições públicas, nem vídeos de momentos em que você foi um total estrangeiro excluído do convívio pessoal. Morando fora, cedo você vai perceber que tem coisas que ninguém te diz. Ou talvez alguém te disse, mas você não prestou a atenção.

Morando fora – As primeiras semanas. Coisas que ninguém te diz.

Leadership-Island

Já falei aqui que para sair do país tem que ter um certo nível de coragem. E que a coragem tem que ser exercida todos os dias. E agora que eu completei uma semana fora, mais do que nunca eu confirmo – não existe um dia em que você não faça pelo menos vários questionamentos sobre quem você é, o que você quer é se você realmente é inteligente. Por que todos os dias tem algum desafio que por mais pequeno que seja, é um desafio.

1 – Você vai se sentir muito deslocado

Tem coisas etéreas, metafísicas, hábitos e consciência espacial que nós estamos tão acostumados que não nos damos conta do quanto isso facilita a nossa vida. Você vai no mercado e já sabe exatamente o que quer e onde está o item. E se você estiver em outros estados também. Você sabe o horário de funcionamento de repartições públicas ou mesmo que não souber descobre rapidamente.

A organização espacial brasileira nos deixa tranquilos. Em geral onde vamos tem um balcão de informações e acredite, isso as vezes faz muita falta no exterior. Aqui, mesmo a disposição das coisas é diferente, o que nos faz muitas vezes nos sentir perdidos, por mais que a informação esteja na nossa cara.

Quando você conhece os meandros e hábitos do lugar onde você vive, isso te dá uma grande liberdade, afinal, você sabe aonde está pisando. Em outro país, muitas vezes nós não temos noção de onde estamos e de quais os hábitos locais. E como o ser humano tende a empatizar com os outros, ficamos meio perdidos no começo.

2 – Você vai se sentir um analfabeto

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Não importa que você tenha 10 anos de estudo da língua do país onde você vai. Você ainda não tem a fluência que os locais têm. Mas você pega com o tempo. Isso quer dizer que no começo tem coisas que você vai simplesmente não entender nada.  Tem coisas que a gente nunca é suficientemente ensinado e vai aprender lá. Experimente ir no mercado logo nos primeiros dias. As pessoas falam com uma velocidade grande. Tem itens e comes e bebes que você nunca ouviu falar. Ao conversar com alguém você vai vai ouvir algo que não entende e vai só balançar a cabeça (tipo pode ser um pedido de casamento e você de repente aceitou).

Outro dia eu fiquei vários minutos procurando detergente e não achei. Por outro lado tinha uma prateleira imensa de produtos para lava-louça automática, coisa que é rara no Brasil.

Fui falar com um grupo de alunos da faculdade e no começo tudo bem. Mas a medida em que se juntaram britânicos, australianos e americanos conversando, eu simplesmente deixei de entender muita coisa do que eles falaram, e olha que eu tenho um inglês bom. Me senti um analfa total.

Sem falar no francês, que é a língua oficial daqui do cantão de Genebra rs.

3 – Você vai virar criança novamente

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Criança, tudo o que vê, é uma grande novidade, e para você será também. Essa é uma das fases mais gostosas da vida, e a gente associa muito “descobrir” as coisas a ser feliz. E quando você muda de país, pode ter certeza de que cada semana será de novas descobertas, mas as primeiras mais ainda.

Com certeza quando você era criança, e seus pais ou tutores ou alguma pessoa te levava no mercado e você via aquela imensidão de doces e coisas gostosas e diferentes e queria provar um pouco de tudo. E assim como uma criança, você dificilmente vai ter condição de comprar tudo o que quer, e as vezes, nada mais do que um item. Mesmo assim, você vai embora feliz.

Aqui em Genebra eu descobri algumas coisas interessantes como o Xarope de Menta, o Xarope de Romã, o Cheesecake de Quark, e que eles vendem uma linha inteira de cafés (cappuccino, mocha, caramel, machiato) no mercado mesmo.

4 – Você vai comparar tudo com o Brasil

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Não tem como ser diferente. A gente sempre vai comparar o nosso novo lar com a terrinha brasileira. E não necessariamente vai ser sempre ruim. Como eu disse, o Brasil tem coisas que os outros países não tem, ou são mais baratas lá, independente de crise. Na Europa em geral, as frutas e a carne são caras, ao contrário do que possa parecer no Brasil.

Mas não só isso. Você vai sentir uma grande diferença nos costumes, já que, no Brasil, as distâncias são grandes, mas as pessoas parecem ser um pouco mais próximas, para o bem e para o mal.

5 – Você vai virar um expatriado e não se identificar nem com o Brasil e nem com a sua nova terra.

Nós saímos do Brasil e deixamos de lado muitos dos hábitos que nós já não gostávamos e outros que a gente teve que deixar, se não não conseguiríamos nos encaixar de jeito nenhum. Mas não abandonamos tudo. E também não vamos adotar 100% dos hábitos do seu país de destino, a não ser que você venha para cá ainda como criança.

E você vai visitar o Brasil e se sentir chocado com coisas que você acompanha e as vezes até mesmo você fazia. E onde você mora, tem coisas que, por mais que você faça, você simplesmente não engole – parece que no Brasil era mais fácil e prático.

E o resultado disso é que você vai se sentir um estrangeiro tanto no Brasil como no país onde você mora. Isso por que os seus costumes vão mudar, e, mesmo que seja pouca coisa, as pessoas vão notar.

22 thoughts on “Mudando de país – coisas que não te dizem (ou que você não prestou atenção)

  1. Cara, realmente existem problemas quando você mora fora, mas minha concepção sobre o texto mudou quando li “agora que estou há 1 semana fora”. Concorda que isso não é NADA? Que os atuais “problemas” podem estar acontecendo porque você acabou de chegar? Muitos dos que fizeram intercâmbio/moraram fora sentem que até a adaptação ao lugar acontecer, os primeiros sentimentos são de “o que eu tô fazendo aqui?”.Eu me senti exatamente assim na primeira semana em que morei fora, mas nas semanas e meses seguintes, fui me adaptando ao lugar. É tudo questão de adaptação, e as coisas que antes eram “problemas” se tornam corriqueiras. Se o balcão fica num lugar diferente, na primeira vez você estranha, mas na segunda já vai direto. Se aquela palavra não é familiar, na segunda já será, e será incluída no seu vocabulário. Isso é adaptação. Se sentir excluído da sua cultura: isso sim pode ser considerado um “problema” para alguns. Alguns hábitos brasileiros não são encontrados lá fora e vice-versa.
    Pode nos contar melhor os problemas daqui a alguns meses? Talvez os reais problemas estejam mais em vista.
    Abraços

    1. Oi Eduardo obrigado pelo comentário.!

      Então, por isso eu coloquei no começo do texto é que isso acontece nas primeiras semanas.

      E eu já cheguei a fazer um ensaio de morar fora outra vez, então já tive essa experiência antes rs..

  2. Estou cruzando a ponte Mont Blanc ao ler isso e o seu último ponto é muito verdade. Nem tinha pensado nisso :D.

  3. Perfeito!
    Não moro em outro país mas com certa frequência passo alguns meses em NY e me sinto exatamente assim para todos os ítens acima citados.

  4. É isso mesmo.. estou há 70 dias na França, sozinha, engatinhando no idioma e na cultura… força pra nós!!!

  5. Me identifiquei com tudo, principalmente com a 5 parte.Hoje ja me sinto mais deslocado no Brasil do que no Japao, é como se o Brasil ja nao fosse mais o meu lar.

  6. E sorte sua que esta em um pais que usa o alfabeto romano, voce ve uma palavra que nao sabe o significado, pega o dicionario e pronto, agora imagine viver no Japao, tu ve um kanji e nao tem como achar em um dicionario porque nao sabe nem como se le, tem que perguntar a um japones e depois procurar no dicionario ou perguntar o significado em ingles.Me sentia um completo analfabeto no Japao.

  7. Oi, ja moro 10 anos na Suecia, os 5 primeiros anos foram quase que os piores de minha vida. Eu comparava e comparava ! Terrivel! Muitos falavam: vc compara, nao se pode comparar!’ Mas todo mundo que e normal compara! Hoje,amo, mas nao adoro aqui. Mas, tambem nao quero voltar, pq sei que nao sou mais de la…dai bate um pouco de nostalgia, mas como tenho tanta coisa pra fazer ‘ pq aqui ou vc estuda ou trabalha’ logo o vazio ou nostalgia vai embora. Abraco/ boa sorte! Iara

  8. Considero muito triste alguém se sentir estrangeiro onde mora e estrangeiro no pais de origem. Dá pra fazer uma forcinha e ser feliz aproveitando o melhor dos dois mundos? Essa a arte da vida que não é um caminho reto e bem pavimentado.

  9. Muito legal o seu texto! Moro ha quase 7 anos na França e algumas coisas sinto assim, principalmente quando a gente volta ao Brasil e jah não se acostuma com algumas coisas e alguns comportamentos… Não gosto que franceses falem mal do Brasil e tb não suporto quando brasileiros falam mal da França, mas mesmo se me sinto melhor aqui do que lah, sei que não sou “francesa” e nem tenho a pretensão de ser. Vivo a minha vida e na maior parte do tempo não penso nisso. Mas a gente se sente deslocado ou mesmo analfabeto como você disse. Em conversas, as pessoas falam dos filmes e até 2008 lembro dos filmes com os nomes em português, e depois dessa data em francês. Então fica dificil falar do passado com os franceses e falar do presente com os brasileiros. Soh para dar um exemplo bem basico que aproxima (ou distancia) as pessoas.

  10. Estamos vivendo na Espana há 6 meses, troquei também uma vida estável por essa aventura.Tenho dupla nacionalidade mas, nao esta fácil, poucas oportunidades profissionais e o clima bem diferente.
    Ás vezes me dá uma revolta.

    Por essas e outras temos um prazo de 6 meses mais … se as coisas nao melhorarem voltaremos, afinal por pior que seja a situacao do Brasil, lá ainda tenho um emprego que me faz feliz e casa própria …
    Mas a experiencia em si é incrível.

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