Status. Eu não me importo. Você não se importa. Não nos importemos.

Carrão novo na garagem, rolex no pulso. Entra no prédio. Diz um oi pro porteiro, que pergunta “como vai?”. Só acena com a cabeça. É melhor não se misturar e não prolongar, afinal, ele é o porteiro e você é gente importante. Chega em casa e vê o namorado da filha. Fica feliz, por que apesar do moleque ser de “família boa”, o pai dele não tem mestrado e MBA e você tem. Você é “superior”. Se regozija, em uma felicidade momentânea e vazia. Vive, alimenta e respira Status. E que prazer mais melancólico.

Status. Eu não me importo. Você não se importa. Não nos importemos.

original

Se você leu a introdução e achou normal, até natural, o acontecido, dê meia volta e leia de novo. Talvez seja capaz que você está muito envolvido neste mundo de aparências, como eu já estive e as vezes ainda estou.

Até por que é muito mais fácil rotular as pessoas pelo que elas têm de bens materiais e pelo currículo delas. E as pessoas até acham natural que uma pessoa que é bem sucedida financeira e profissionalmente é melhor do que uma pessoa que faz faxina. E NÃO É.

status é uma cultura muito comum no Brasil, e embora esteja impregnado em vários setores, não é uma exclusividade da terra de pindorama.

É uma tentativa vã e tentadora de se diferenciar e se sentir superior por algo que você não vai levar para você com túmulo e nem para o outro mundo. São exemplos:

  • Carros: Quantas vezes você não viu uma pessoa virar os olhos para outra por causa do carro ou da ausência de carro? Ou de que se alguém está bem de vida, tem que comprar um carro? E quem disse que todo mundo precisa de carro?
    Conheço a história de um promotor de justiça que chegava em festas com seu carro usado modelo anos 90. A mulher não se importava, mas a família ficava falando que “era hora de ele comprar um carro compatível com ele.”

 

  • Bairros e países: O fato de alguém nascer e ter morado no primeiro mundo ou nos melhores bairros, é para muitos, um indicativo de que é um ser superior, e na real, é bem longe disso. Eu lido com estrangeiros o dia todo, e, embora muitos deles se sintam superiores por terem nascido nas montanhas alpinas, não são melhores do que eu em uma série de coisas.

 

  • Estudos: Este é o mais clássico. Quando eu cresci, minha mãe me dizia que eu tinha que estudar para ser alguém. Ledo engano. Hoje eu tenho Graduação pela Usp e estou fazendo um Mestrado no Exterior e tem muita gente que terminou o ensino médio e é melhor do que eu em milhares de coisas. Eu não me sinto nem um pouco superior e nem deveria – na hora de fazer diversas atividades, isto não conta. Em uma conversa de bar, isto não conta. O que conta são as experiências. O Bill Gates não tem formação superior.Anos atrás quando eu começava a Graduação, conheci uma mulher que já tinha doutorado, e embora ela fosse bem avançada em diversos setores, ela achava que eu, por que tinha menos formação, deveria abaixar a minha cabeça para a opinião dela e isso aconteceu diversas vezes. E dizia que eu deveria esperar ela parar sair, ao invés de ser algo igual, simplesmente por que ela dizia que era mais importante.

    E essa é a mais engraçada: anos atrás eu trabalha em uma revista e só tinha um diploma de técnico em artes gráficas. Eu era designer e a outra designer tinha dois mestrados na área gráfica e duas especializações. Ela sempre fez a capa da revista, o que é a parte mais importante, mas teve a brilhante ideia de falar que eu também podia tentar. A diretora da revista iria fazer um teste cego para ver qual a capa ela mais gostava. E adivinha o que aconteceu? Na primeira vez, das cinco capas que a gente apresentou, duas eras minhas, e ela escolheu justamente essas. E na segunda vez, também. Na semana seguinte, eu fui demitido – a outra designer puxou o meu tapete.

  • Emprego: Uma pessoa vive me falando que eu poderia ser juiz ou promotor no Brasil e que as pessoas me receberiam como rei. Chegaria no restaurante e o dono me puxaria a cadeira para eu sentar e não me permitiria sequer pagar. E simplesmente não entende o fato de eu sair do país para perseguir o futuro que eu quero, se era muito mais fácil ficar e tentar um destes cargos altos.E não raro no Brasil mas em outros lugares do mundo nós vemos as pessoas que são porteiros, faxineiros e outras atividades simples como pessoas inferiores. E não necessariamente é assim. Conheci uma faxineira que me deu um banho em vários sentidos: já tinha visitado mais de 30 países, sabia falar 3 línguas e cozinhar mais de 50 diferentes e deliciosos pratos do mundo todo, e eu aqui comendo miojo rs.

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E por que a gente se importa tanto com status? É extremamente cansativo lidar com isso o dia todo! Eu sei, você comprou um relógio, comprou um carro, tem um bom emprego, mas isso não te torna uma pessoa melhor, ao contrário do que você pensa.

Aqui na Suíça tem muita gente que veio para cá na cara e na coragem, sem curso superior, e se vira muito bem, fala francês bem, é respeitado e não abaixa a cabeça para ninguém, ao passo que no Brasil tem gente “de estirpe” querendo sair e nem sabe por onde começar, e acha que tudo vai cair no colo – síndrome do Status.

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