Quando eu joguei tudo para o alto

Tem coisas na vida que não são óbvias. Esqueça a experiência do cinema – a vida real é um emaranhado de relações e decisões que você plantou no passado e se desvencilhar de tudo é mais trabalhoso do que aquela duas horas de filme com trilha sonora podem mostrar. Mas não é impossível jogar tudo para o alto e, as vezes, isso pode ser uma solução.

Quando jogar tudo para o alto pode ser uma solução

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Genebra, onde estou morando agora, me fez jogar tudo para o alto.

Antes de mais nada, mais uma vez eu vou falar de mim: eu joguei tudo para o alto e resolvi arriscar, e agora estou pagando as benesses e passando pelos obstáculos que eu já previ que passaria, mais de uma forma muito mais intensa. E quer saber? Eu me sinto mais vivo do que nunca. Cada dia é diferente do outro, embora as chances de tudo dar errado estão muito mais perto – eu diria que na esquina, no final da rua, e quando eu chegar até lá, eu vou saber.

Larguei um emprego excelente no Brasil, estável e não tinha risco de ser demitido com essa crise que a gente vive em 2015. Deixei de parar para estudar para um concurso em que eu dobraria o meu salário e seria um profissional reconhecido. Então, eu joguei tudo para o alto. E eu posso dizer para vocês que este texto é único por que todo mundo que fala desse assunto fala depois que ele aconteceu e quando deu certo – e eu estou falando quando ainda está acontecendo, e inclusive ainda pode dar errado, mas eu tenho fé, muita fé em mim.

Eu já cheguei a explicar que foi uma decisão profissional e um antigo sonho. Mas não é só isso o que envolve jogar tudo para o ar. Para tomar uma decisão de largar tudo (spoiler: você nunca larga tudo), arriscar tudo a perder, chutar o balde, colocar o pé na jaca, muita coisa aconteceu, até que você chega em um grande ponto e diz: foda-se.

Eu vivia uma vida regrada e humilde…

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Eu e meus irmãos somos quatro e fomos criados pela nossa mãe praticamente sozinha. E dadas as dificuldades financeiras e o Brasil dos anos 80 e 90, afora uma série de outros fatores que eu não vou me ater, nós tivemos uma infância relativamente tranquila e uma adolescência muito limitada em questões financeiras.

Assim, nenhum de nós pôde estudar em escolas particulares, que já naquela época eram as melhores. Tudo em casa era dividido: ela comprava uma garrafa de coca-cola e colocava quatro copos com a mesma quantidade. A mesma coisa valia para todas as comidas que a gente mais gostava. Como minha mãe cresceu em uma família de cinco crianças, ela falava que com ela era a mesma coisa, e que a gente tinha sorte de ter o que a gente tinha. Isso era parcialmente verdade – ela esquecia de falar que ela começou a trabalhar com 12 anos, e já podia gastar um pouco com ela.

Eu vivia uma vida em que eu sempre tive de fazer escolhas entre algo que eu gostaria muito e outro algo que eu gostaria muito também. E isso foi importante para mim – eu tinha cabeça de “pobre” e acreditava que na vida a gente tem coisas que a gente nunca vai ter – como viajar para o exterior.

E esse pensamento me fez evoluir e fazer escolhas que deram certo – eu passei na USP, e passei em um concurso público, tudo dentro de uma escolha regrada, em que eu praticamente não pude viver a minha adolescência e os meus 20 e poucos anos por que eu investia no meu futuro ao invés do meu presente. Hoje eu percebo: aquilo era besteira. Não era por falta de tempo, mas sim por falta de grana, e por falta de conhecimento.

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As vezes a gente tem que apertar o foda-se.

Enquanto muitos colegas meus viajavam, se divertiam, praticavam esportes e aproveitavam o seu tempo livre, a única coisa que eu fazia era de graça – usar a internet. Eu sinto como se não tivesse aproveitado bem o começo da minha juventude – é claro que eu sai e me diverti, mas muito menos do que eu poderia.

Tudo isso são escolhas, claro. Aí eu senti que essa vida regrada era insuficiente para mim. Sabe, tem um lado bom de ficar mais velho, e esse lado é que você vai se dando cada vez mais conta de que você não é um escravo da sociedade, a comunidade é funcional e você não precisa se ater a certas regras que normalmente as outras pessoas querem impor para você, mas não para elas. E eu comecei a reparar que as pessoas seguem muitas destas regras ou se deram bem seguindo, e por isso acham que este é o único caminho.

Sabe aquela história de “não bebe, não fuma, não come, não fode?” Era eu. Eu era assim. E pode não aparecer de imediato e nem se dar conta disso, mas este ditado não quer dizer somente isto. Quer dizer que a pessoa não se arrisca e não vive. E eu não me arrisquei tanto quanto deveria.

Quando você segue a risca as regras que os outros se impõem acaba se acostumando com elas. E eu achava que a vida era uma grande escolha linear, e na verdade, pode ser mesmo – crescer, estudar, trabalhar, casar, ter filhos e se aposentar.

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Mas falta algo nessa equação – se divertir. Se você deixa de fazer as coisas que você gosta, morre mais cedo a cada dia. Mas não é uma coisa tão óbvia – tanto que “vagabundear” é crime, e gozar a vida é considerado como coisas da high-society. Nós que viemos de classes mais humildes e menos abastadas estamos acostumados a ouvir “ah, não tenho tempo para isso, eu tenho que trabalhar”. Como se trabalhar fosse o único objetivo da vida (mas você pode trabalhar com o que você ama e isso é completamente diferente).

E isso começa a cansar. E você também já deve estar cansado desta ideia de que tem que trabalhar muito e viver depois. De que você tem que viver uma vida linear. E eu estava cansado de uma vida em que as escolhas são excludentes, de estudar muito e o resultado demorar demais (quase sete anos) e de só vislumbrar fazer o que eu gosto depois de muitos anos de formado. Eu também estava cansado de uma vida em que eu deixava tudo para depois.

Eu estava cansado de que ter que fazer escolhas que eu não teria que fazer se me arriscasse mais. 

E aconteceram algumas coisas que me marcaram muito – e alguns dos leitores já devem ter lido várias vezes, mas eu não tenho como não repetir, e me fizeram repensar todo o conceito de vida mais uma vez. A primeira delas foi que eu perdi uma amiga que tinha apenas 19 anos, quando eu tinha 21. Até então a morte era algo só das pessoas mais velhas ou algo que a gente vê na TV. A segunda delas foi quando a minha mãe faleceu no dia da minha formatura. Aquilo me fez repensar as convenções sociais. Mas chegar em casa e ver todos os planos não realizados dela foi ainda mais forte. A morte tinha batido na porta de casa e levado um pedaço de mim.

Uma terceira coisa que pode não parecer tão importante para você, mas para mim foi, era de que eu sempre tive miopia quando criança e odiava usar óculos. Odiava mesmo. E eu achava que iria ser míope para o resto da vida e desejava do fundo da minha alma que deus me curasse no meu sono. Depois, em 2010, eu simplesmente descobri que eu podia fazer a cirurgia nos olhos e era o caso de só assinar um papel, por que para minha a sorte o meu convênio cobria. Pronto. Eu nunca mais usei óculos e 27 de janeiro de 2011 foi o dia em que eu renasci e comecei a acreditar mais.

E aí eu chego com 28, 29 anos e olho para trás e penso que muitas coisas valeram a pena, mas eu tive que fazer muitas escolhas doloridas e deixei de viver muita coisa. E aparece a oportunidade para morar fora, estudando um curso que eu gosto em uma cidade fantástica. Mas, com um pequeno problema: eu não tinha o dinheiro suficiente para isso. Aliás, quase menos que a metade. E eu olhei para trás de novo e estava quase igual ao velho (novo) André – aquele que desistia dos sonhos loucos em nome de uma estabilidade garantida e uma vida no script.

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Por que não, amigo?

Aí eu parei e pensei: por que não? Por que eu devo adiar a minha viagem? Por que eu deveria desistir? Foi quando eu tive certeza: vou jogar tudo para o alto e vou. E já vi alguém desvanecer subitamente em minhas mãos, cheia de sonhos e planos. E eu não quero que isso aconteça comigo.

Foi quando eu joguei tudo para o alto.

E hoje eu estou aqui, em Genebra, escrevendo do meu quarto, e prestes a rumar para o primeiro dia de aula. Não, ainda não consegui o dinheiro que preciso – mas olha, eu estou aqui. Realizando um sonho. Pode eventualmente dar errado, o que eu não acredito. Mas só por tentar eu já me sinto outra pessoa. E eu me dei conta de que a grande maioria dos nossos sonhos é factível. Você só tem que correr atrás de informações.

Mas saiba – quando jogamos tudo para o alto não quer dizer que nós abandonamos tudo. O que nós jogamos é o medo, a comodidade, a preguiça.

Eu espero que isso tenha te ajudado a te inspirar.

14 thoughts on “Quando eu joguei tudo para o alto

  1. Seus textos ficam melhores a cada dia! Amando compartilhar com vc essa experiência! Keep walking! 😊👏🏻👏🏻👏🏻🔝

  2. Compartilhei teu post com a seguinte frase: Nunca li um texto tão lúcido como o seu…Estou prestes a fazer o mesmo e tudo que vc mencionou no post, de certa forma remeteu a mim mesmo.
    Estou dando um passo rumo ao desconhecido, deixando muita coisa para trás, muitas que irei sentir falta para o resto da vida, mas não estava vivendo, estava simplesmente deixando a vida passar.

  3. Sensacional seu texto. Fiz mesma coisa a um ano atrás, comecei a viajar em junho deste ano e agora estou mudando alguns planos por causa da desvalorização do real mas convicto de que estou no caminho certo e mais feliz do que nunca.
    Parabéns. Te desejo toda a sorte do mundo.

      1. Comecei minha jornada com o programa Remote Year (www.remoteyear.com). Passamos por Praga na Rep. Tcheca, Ljubljana na Eslovenia, Dubrovnik na Croácia e Istanbul na Turquia, e agora estou deixando o programa pra viajar solo.
        Tinha uma grana guardada e achei que fosse conseguir bancar todo o ano de viagem mas com a desvalorização do real ficou muito mais complicado.
        Agora (amanhã) estou indo para Portugal trabalhar num hostel em troca de hospedagem enquanto ponho meus negócios de pé. Aproveitar que tenho a cidadania e conhecer um pouco da história da família.
        Me identifico muito com sua situação de estar realizando o sonho de vida ao mesmo tempo que constroe as fundações para seguir nessa vida. Não é fácil. Cheio de altos e baixos, dias bons e ruins, mas nada melhor do que escrever a nossa história do nosso jeito.
        Precisando bater um papo, procurar soluções, é só chamar. Estamos juntos nesse barco.
        Grande abraço

  4. Parabéns meu caro! Você é um exemplo de ousadia e de empreendedorismo pessoal. A vida é uma e o melhor investimento que fez, foi a melhor escolha: Investir em você. Grande abç e votos de sucesso em sua caminhada.

  5. Estou na mesma situação que você. Também servidora pública e estudando para um concurso melhor, mas sabendo que não tenho perfil e mais saco para essa burocracia brasileira.Me identifiquei demais com sua história.

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