Morar fora não te torna uma pessoa melhor, mas ajuda muito.

Calçadas limpas, parques bem cuidados, infraestrutura impecável, transporte público sem catraca, silêncio nas ruas após as 22h, poder andar sozinho de noite sem medo. Tudo isso não tem preço. E sabem quem são alguns dos mais respeitadores destas regras? Com poucas exceções, somos nós brasileiros, das terras tupiniquins.

Morar fora não te torna uma pessoa melhor, mas ajuda muito.

Aprofundando um pouco o que eu disse na introdução, eu ando aqui pelos parques de Genebra e praticamente não vejo sujeira no chão, a grama está bem cortada, bem cuidada. As calçadas não estão pintadas de chiclete por toda parte. Entro no tram e praticamente não tem fiscalização. Eu faço questão de comprar o meu ingresso e a enorme maioria daqui compra.

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Bonde sem fiscalização, por que não precisa

 

Quando eu era mais novo no Brasil, já fui daqueles que grudava chiclete em baixo da carteira, afinal ninguém ligava mesmo. Já passei várias vezes debaixo da catraca do ônibus quando criança. Não tinha lixeira nas ruas então eu ‘deixava’ cair o meu papel de bala no chão. Eu era um babaca, como muitos de nós somos, mas felizmente eu mudei a minha visão ainda no Brasil.

Vivia em uma área relativamente periférica de São Paulo em que eu tinha que pegar um ônibus de 40 minutos até o metrô. As escolas públicas onde estudei viviam pixadas e quando eu era adolescente também pixei. Uma de minhas escolas tinha um buraco na parede pelo qual os alunos do ensino  primário podiam matar aula. Ou a gente pulava o portão mesmo. Eu era um babaca, como muito de nós somos e ainda temos este babaca dentro da gente, mas felizmente eu mudei a minha visão ainda no Brasil.

Eu já não fazia muitas destas coisas que significam desrespeito ao próximo. Mas eu sei de muitos brasileiros que faziam e que vieram para cá e mudaram diametralmente o seu comportamento. Não jogam lixo na rua, apesar de quase não ter policiamento ou fiscalização. Sabe por que? Por que ninguém joga lixo na rua e se você jogar o seu vai aparecer pra todo mundo.

Pode acreditar que aqui na Europa e em outros países de primeiro mundo, muitos dos brasileiros que criticam a cultura do Brasil são justamente aqueles que dirigiam no acostamento, pulavam a catraca do metrô, deixavam a latinha de cerveja na praia, mijavam no muro da vizinha, pegavam a moedinha da velhinha que caia no chão. E aqui viraram outras pessoas. E para mim, não é somente por causa que estão morando no exterior. Isso ajuda muito. Mas é por que o brasileiro sempre quis exercer este respeito.

Vou repetir: o Brasileiro sempre quis exercer este respeito, mas quando ele vê que ninguém exerce, começa a desanimar. Por que eu já ouvi da boca de Suíços que os brasileiros são pessoas respeitosas e muito amigas. E ouço dos brasileiros daqui e daí que a gente é cara-de-pau.

Se a natureza do brasileiro fosse sacanear com os outros, não teria tanto brasileiro se dando bem no exterior e arranjando trabalhos. Eu acho que muitas das agruras do Brasil tem a ver com o meio.

No Brasil, a gente acha que está em terra de ninguém. Somos eternos imigrantes – nada é problema nosso, e os problemas se acumulam. Claro que isso já foi bem pior nas décadas passadas. Eu acompanhei muitas melhorias. Mas a sensação que temos é que falta fiscalização, falta cuidado, falta segurança.

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Parque super bem cuidado

Aqui na Suíça nós temos ainda menos fiscalização e policiamento nas ruas do que São Paulo, comparando as populações relativas. É por que simplesmente não precisa – existe uma cultura local de que, eu cuido, você cuida, nós cuidamos. O problema não é do governo, o problema é nosso.

Isso tudo com certeza nos ajuda a nos tornar pessoas melhores. Além do que, o fato de não termos que nos preocupar com a volta pra casa, se seremos ou não assaltados, de não ter que deixar separado o dinheiro do ladrão, permite que nós sejamos “nós mesmos”, de forma muito mais fácil. Por que quem vive com medo,  não vive.

Eu não acho que o Brasil e o Brasileiro sejam ruins, porcos, mal-cuidados. E acho engraçado que quem as vezes prega estas coisas no Brasil, de que “o país é uma merda”, é a mesma pessoa que propaga o jeitinho brasileiro, passando o carro pelo acostamento enquanto os “otários” ficam no trânsito. Eu acho que o nosso problema é que ninguém se importa com as coisas em comum. No Brasil sinto que muita gente está pouco se fodendo com a limpeza dos parques e praias – só querem gozar das benesses que oferece. Ai deixa a farofada na areia.

Mas isso vem de uma crença comum de que “se ninguém cuida, não sou eu que vou cuidar”. E essa crença acaba com tudo. Por que é aí que ninguém se importa mesmo. E nós, como seres sociais, costumamos seguir o exemplo um do outro. É só ver o lixo na rua que vem outra pessoa e joga uma bituca de cigarro em cima. Não era mais fácil pegar e o jogar no lixo?

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