O mito do viajante solitário e a morte

Quem sabe quem é Alexander Supetramp, quem já viu o filme “Na Natureza Selvagem”, deve entender um pouco sobre o que eu estou falando e a crítica que eu vou fazer. Sobre a eterna moldura encantadora de uma viagem arriscada, sobre as páginas de um diário interminado e sobre o charme de abandonar a vida em uma sociedade corrupta se esconde a morte.

O mito do viajante solitário e a morte.

supertramp

Okay, se você chegou até aqui, quer dizer que foi muito além da leitura superficial no facebook e em outras mídias sociais, vai ter a certeza, ao final, de que este texto não é nada de que você possa imaginar.

Quem somente ler o excerto vai imaginar que eu não gosto do filme “Na Natureza Selvagem.”. Eu gosto. Eu adoro! Eu amo. Especialmente as músicas. Mas para mim, Christopher McCandless,  nome verdadeiro de Alexander Supertramp, aquele de quem eu falo, é ao mesmo tempo, um gênio e um idiota.

Todos nós temos dentro de nós aquele desejo de fuga da sociedade. Se você não tem, eu digo que não reparou – está escondido no seu âmago, aquela sensação de que “eu não queria estar aqui”, ou “eu queria estar vivendo de outra forma”. A gente sempre foge, pelo menos alguma vez ao dia, para algum lugar distante na nossa mente. E normalmente os livros, internet, tv e filmes são alguns dos nossos agentes de viagem.

Mas tem a fuga fuga. Tipo… Cansei. Quero sair, começar de novo, novas possibilidades, me desafiar, dar um vazare, construir a minha própria vida, quebrar os meus paradigmas.

E nada mais atraente, nada mais apelativo e mais revigorante do que sentir o poder e a sensação orgasmática de que você não está amarrado à sociedade, que tem regras funcionas -andar de cueca, calcinha, uma identidade, trocar um pedaço de papel por bens de valor -, mas tem regras estúpidas como aquela de que o seu objetivo no mundo é procriar.

Aqui acontece a primeira morte. Você, eu, e o Alexander, matamos aquele eu comunitário, aquele eu quadrado, o “homo condicionadus”, o eu robótico (homo robotus), e descobrimos que no fundo podemos ainda ser o Homo Sapiens Sapiens. Aquele que pensa duas vezes e não é um mero seguidor de regras pelas regras, mas sim pela função delas.

De fato, são duas mortes, são duas escolhas. Por que morre mais cedo quem não vive – cada dia é um dia a menos, e cada dia que você pensa sem pensar no seu eu e no que você está fazendo aqui – cada dia que você pensa com a barriga em busca do dia seguinte – cada dia que você passa em frente à TV só digerindo pensamentos de uma sociedade heterogênea e disforme, você está morrendo.

E aí o que você escolhe? O viver do homo domesticus ouvintus, que significa uma morte lenta e desagradável, ou o viver de quem desencarnou das amarras para renascer como um novo ser?

Por isso a genialidade de Alexander Supetramp. Deixou a faculdade, família, amigos, namorada, e foi tentar descobrir quem ele realmente era. Não necessariamente nós temos que ir para o Alasca para desvelar o nosso verdadeiro eu, mas a forma a qual ele escolheu é, no mínimo, intrigante.

E aqui o mito do viajante solitário – muitos querem ser igual a ele – abandonar tudo e se descobrir. Mas quem viu o filme vai lembrar o que foi que ele descobriu ao final, e eu conto mais abaixo, com alerta de spoiler, claro.

Eu digo que é um mito por que, justamente, você pode chegar muito mais longe se não estiver solitário. Não se trata de dissolver as amarras, até por que é quase impossível dissolvê-las por completo, mas descobrir a verdadeira essência delas.

Okay, você quer se sentir um vencedor, mas solitário, aonde você vai chegar? Calma! Não estou dizendo para não se testar, não se desafiar – pelo contrário, sou a favor da própria descoberta e este é o atual momento de minha vida. Digo solitário mas não digo sozinho. Afinal, você vai precisar de carona certo? Afinal vai precisar de pesquisa certo?

lastpic

E de onde vem estas informações? Viu como você não está solitário? Está sozinho, mas acompanhado. Alguém te passou essas informações. Alguém te dará mais informações. Alguém quer que você complete a sua trilha.  Muita gente já fez e quer fazer o mesmo que você. E muita gente quer te ajudar a se libertar. Por que de alguma forma já ou ainda estão se libertando.

Viajar, como solitário, é um grande mito. Nós estamos sozinhos – solitário fosse, não chegaria sequer à metade de onde chegou. É certo que, como todo mito, tudo está envolto em uma aura dourada, uma moldura de realização pessoal. Você quer se encontrar, mas ao final, talvez encontre a mesma coisa que Alexander Supertramp encontrou.

Spoiler alert. Ele passou meses viajando, e se deu conta que a viagem era a descoberta, e aqui ele terminou de vez em sua morte desgraçada. Cumpriu com um sonho eterno – a liberdade, mas matou a esperança de continuar se descobrindo.

Alexander Supertramp é um gênio e um idiota. Por que ao fim de sua trilha ele descobriu o valor em coisas que aparentemente não lhe tinham muita importância, como as relações sociais de amizade e família.

Com 33 quilos, ele deixou a terra. Engraçado que ele se descobriu somente quando já estava se desfazendo. Um gênio. E um idiota. Sabe por que? Há menos de 1km de onde ele estava, tinha um “bunker” para proteção de caçadores, com aquecimento, alimentos, remédios e um telefone de emergência.

Talvez na ânsia de querer fazer tudo sozinho, ele tenha reduzido e muito o tempo em que ele poderia ficar realmente sozinho. É bom pensar nisso. Isso me faz pensar sempre. Um grande e tonto gênio.

5 thoughts on “O mito do viajante solitário e a morte

  1. Opa!!E aí?? Achei super bacana seu texto, e concordo totalmente quando existe um mito do viajante solitário. Na verdade a maioria de nós apenas sai de casa sozinho para um mochilão e vai passar a maior parte do tempo convivendo com pessoas que a gente vai conhecer. E isso será o melhor da viagem. Concordo inclusive com a sua opinião sobre o Supertramp. Engraçado como uma história com um final ruim pode ser apelativa para tanta gente, né?? Vejo todos falando sobre a viagem dele como se fosse um sonho, mas ele morre no final… morre na praia… Bom! Fica a reflexão!

  2. Assim como os outros, um bom texto!
    No entanto, as cabanas (3) estavam aprox. entre 7 e 10 km do ônibus. Uma era do Denali National Park e outras duas eram particulares. Foi descoberto que todas haviam sido invadidas e destruídas, ou seja, mesmo que Chris as encontrasse, não conseguiria suprimentos para ajudá-lo. Claro que existem suspeitas de que o próprio Chris tenha achado as cabanas e feito isso com elas, mas o governo não sustenta essas suspeitas. Além disso, nada que possa confirmar a ideia de que ele achou as cabanas foi escrito em seu diário.
    Essas informações estão no cap18 do livro do Jon Krakauer. Dá um confere lá! Ao ler seu texto lembrei dessa passagem do livro e fui procurar. Não lembro de ter lido sobre um bunker há menos de 1km do ônibus, mas posso estar enganado.
    Enfim, admiro muito que você tenha ido para Genebra mesmo sem apoio de seu pai. Continue escrevendo (:

    1. Adoro este filme e a trilha sonora é demais. Alexander Supertramp , num trecho do filme mostra, quis voltar, mas a gelo havia derretido e não mais conseguiu atravessar o rio. Uma frase que cita no filme:” A felicidade só é real quando compartilhada”, traduz a descoberta da necessidade do outro.

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