Mochilar, morar fora, e a ilusão dos bens materiais

Saindo de casa, saindo do Brasil, quanto mais viajava, quanto mais eu demorava para decidir o que colocar na mala, mais eu me dava conta de que nós temos muito mais do que realmente precisamos. Os bens materiais são o símbolo de nossa pseudo-riqueza e ao mesmo tempo uma grande ilusão. Por que o cachorro? Para ele importa menos os ossos que ele enterrou e mais a relação com o seu dono.

Mochilar, morar fora, e a ilusão dos bens materiais – Insight 1

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Por que o cachorro? Para ele importa menos os ossos que ele enterrou e mais a relação com o seu dono

Esse post é uma espécie de brainstorm sobre o assunto e não pretendo encerrá-lo. Eu gosto de ouvir as opiniões e depois eu pretendo escrever algo mais completo mas isso demanda tempo e páginas!

“Cristiano Ronaldo se apresenta à seleção com a mesma roupa do desfile”. O título de uma notícia acaba de pulular aqui na minha timeline no facebook e eu me dou conto de que estamos mergulhados em um grande mundo de aparências. Especificamente, nada contra o jogador – ele tem que zelar pela imagem. Mas chama a atenção o fato de que a notícia nos leva a entender que a situação é uma exceção, sei lá, um “delito fashion”.

E o que isso tem a ver com o meu tema? Por acaso eu encontrei o CR7 na minha viagem para Genebra? Eu passei por Portugal (e tem um causinho de lá), mas infelizmente não encontrei o gajo. Sou fã do futebol dele, mas este não é o cerne da questão.

O cerne é que nós damos muito valor para itens materiais como roupas, e só quando precisamos nos mudar para levar o básico nós vemos que o que consideramos como básico é normalmente muito mais do que cabe na definição realista de básico.

O fato de uma pessoa ter que trocar de roupa 3, 4 vezes ao dia e por mudas diferentes deve ser muito chocante para quem morava nestas bandas há cerca de 60 anos atrás.

E eu, logo eu, que nunca fui tão ligado a questões materiais – tipo um carro nunca foi objetivo de vida para mim, eu não quero um iphone por querer e não ligo de ter um celular que não é de ultima linha, eu uso meias que não combinam, assim que eu comecei a fazer a mala para ir para Genebra eu tive que me desfazer de uma série de coisas, como roupas que eu cheguei a comprar anos atrás e nunca mais usei.

Nossa sociedade é acumuladora e ao mesmo tempo muito consumidora. Nós temos uma grande mania de acumular por que no Brasil estamos sempre sujeitos à épocas de crise e vacas magras. É até inevitável fazer isso. Mas o consumo também é muito alto. Para que trocar de celular ou de carro todo ano?

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Quando você se toca que para mudar, você precisa escolher, você se dá conta de que o básico são só as roupas do corpo, praticamente, e as ferramentas de comunicação. O resto, infelizmente, é resto.

Sabe aquela nossa ideia de que temos que ter uma casa cheia de lembranças? Todo mundo gosta disso, um canto para chamar de lar, convidar os amigos, etc.. e tal. Mas as vezes nós levamos isto muito a sério, a ponto de ter itens de cozinha e outras coisas como toalhas, jarras, sucos, que nós só usamos para servir a visita. Uma coisa é tratar bem, outra é criar um mundo de aparência na nossa casa, o que eu não sou tão a favor.

E esta história da casa cheia de lembranças é gostosa, mas o que é mais gostoso mesmo são as lembranças que nós levamos consigo. E infelizmente as vezes não cabe aquele vaso que as pessoas compraram na China ou aquela espada de Samurai do Japão, por mais tentador que seja ter uma coleção destas. Eu queria trazer muita coisa do Japão mas depois pensei que aquilo eu dificilmente poderia levar se fosse mudar de país. E dito e feito.

Aqui no meu quarto eu só tenho alguns posteres e imãs de geladeira.

Todo o resto, que é pouco, mas é algo, se transformou em uma grande ilusão. A de que eu algum dia talvez usaria aquilo. No fim, a roupa do corpo é o que mais me serviu, e mesmo assim eu não uso muito mais do que alguns sets.

E claro, a viagem final, nós não levamos nada.

One thought on “Mochilar, morar fora, e a ilusão dos bens materiais

  1. Muito bons seus textos. Me identifiquei com muitas coisas, já morei fora do Brasil e em diferentes lugares no Brasil… dei um tempinho aqui na minha cidade mas agora já estou indo pro outro lado do atlântico novamente.. todas essas andanças me ajudaram muito a aprender a desapegar e ver que na verdade não precisamos nem de metade das coisas que temos.. o que mais importa são as pessoas, as conversas, as risadas que encontramos pelo caminho… essas sim são as lembranças que valem a pena guardar, e não precisamos de espaço físico pra isso 🙂
    enfim, parabéns pelos ótimos posts e pela determinação em ir atrás dos seus sonhos! continue escrevendo, irei acompanhar!

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