Viajar, morar fora e coisas que você descobre sobre você mesmo

A principal coisa que você vai descobrir é o quanto você ficou diferente, mas tem mais do que isso.

Viajar, morar fora e coisas que você descobre sobre você mesmo

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Mais um post no estilo brainstorming! Vou jogando as ideias aqui que eu desenvolvi e vou continuar desenvolvendo durante meses.

Genebra, 17 de outubro de 2015. Quase dois meses de uma louca viagem em que eu joguei tudo pro alto, larguei um emprego estável de concursado e resolvi recomeçar a vida na Suíça mesmo sem ser rico e sem ter grana suficiente para a manobra. Mas eu tô aqui e é isso que importa.

Muita gente já fez isso antes de mim, de maneiras extremamente diferentes, mas com vários resultados semelhantes. Não que o que eu vá dizer aqui seja exclusivo de quem mora – é mais pronunciado, é verdade, mas se você é um viajante que fica um bom tempo longe de casa certamente pode se reconhecer.

A tônica principal disso, e todas as coisas que você vai se descobrir vem dessa atitude, é a de fugir da zona de conforto. Sair da caixinha, pensar fora do nosso quadrado – é como você largar a pele de cobra, que foi você e não é mais. É como sonhar e ver o seu próprio corpo. Você vai, irremediavelmente, descobrir muitas coisas sobre você.

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A junção de dois rios em Genebra. A foto não tem nada a ver com o texto, eu só coloquei por que é bonita.

1 – A principal delas – eu, você, somos pessoas bem diferentes daquelas que éramos antes de viajar ou de morar fora. Você mudou de ambiente, mudou de vida, e teve que se adaptar, e isso muda todos os seus hábitos e te faz repensar tudo o que você era. Por que para efetivamente sair da zona de conforto, você vai trocar de pele. E isso pode doer no começo, mas depois vale a pena.

Aqui eu tive que me virar em dois para fazer várias coisas funcionarem, algo que começou alguns meses antes de eu vir para cá. E é até engraçado quando eu converso comigo mesmo – não, não sou esquizofrênico, estou falando de ler as coisas que eu escrevi e o que eu produzi, por exemplo, para me dar conta de o quanto estou diferente.

2 – Descobri que ser brasileiro me define. Para o bem e para o mal. No Brasil a gente pensa que todo mundo é igual e que nós somos todos malandros. Fora da terrinha a gente se dá conta de como somos diferentes, mas os estrangeiros nos colocam todos no mesmo balaio de gato. Muita gente fala de mim como “o cara brasileiro”, o que é comum, claro. Normalmente é a nossa característica mais marcante a que fica como pecha.

Mas me descobri brasileiro com as diferenças culturais. Eu sou introvertido e ainda assim, mais amigável e extrovertido que a maioria das outras nações. Eu sinto falta de pão de queijo e brigadeiro e do fato de poder acordar e tomar pingado com pão na chapa na padaria.

3 – Envelhecer é relativo. Me dou cada vez mais conta que uma mente dinâmica dura muito mais. Deixei de me acomodar com uma estabilidade relativa e agora me sinto muito mais vivo. Eu não tenho a mesma idade que os alunos do meu curso, e isso quer dizer entre 3 a 8 anos a mais, mas de forma alguma eu me sinto velho. Lutar novamente me faz sentir renovado.

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4 – Muito reclama quem pouco faz. Morar fora não é fácil se você não for rico. Eu não sou. Aqui eu tenho que me virar em dois, me adaptar em uma velocidade muito grande, e sobra menos tempo para reclamar da vida. Quando a gente se acomoda tende a reclamar mais de coisas banais.

5 – Nós somos um caminho e não um fim. Em outras palavras, você se identifica com um processo, uma cadeia de atos e comportamentos seus que te dão uma noção de quem você é, muito mais do que aquilo que você é enquadrado. Vou simplificar um pouco mais. Você não é uma foto, você é um vídeo.

O seu grau de satisfação depende muito mais de uma série de acontecimentos que em geral se resumem em alguns meses e semanas, do que aquilo que você acumulou de realizações ao longo do tempo. Por isso não importa que você seja um campeão olímpico, se os seus últimos meses forem ruins, você vai até esquecer do passado glorioso e talvez ele seja um fardo para você, inclusive. E mesmo que você não tenha nada, se o caminho que você percorreu nos últimos meses foi gratificante, você vai ser feliz.

6 – Nossa capacidade de adaptação é enorme. E variável. Hoje eu aprendi e continuo aprendendo muitas coisas que eu nunca achei que fosse fazer quando era mais novo. E muitas dificuldades que pareciam intransponíveis são coisas do passado. A gente consegue se adaptar pra tudo, mesmo para situações aparentemente impossíveis. Engraçado que muita gente diz que não se deu bem no exterior e volta pro Brasil por que acha que não se adaptou. Para descobrir que não é bem assim.

9 thoughts on “Viajar, morar fora e coisas que você descobre sobre você mesmo

  1. Oi! Adorei o post. Me mudei pro Canadá há quase um ano e tenho percebido exatamente essas mesmas coisas que você. É incrível como a gente muda e aprende com essa experiência de morar fora, sinto que realmente não sou mais a mesma pessoa que deixou o Brasil, e isso é muito legal!

  2. Verdade, já larguei o Brasil 3 vezes, 2 para o Canadá e uma para a Europa! Só volto agora para passear!! Não consigo viver mais no que deixei para trás!! A gente só não muda, como evolui!

  3. André xará, não me reconheci mais nas suas palavras, por que eu só fiquei 25 dias fora que foram o suficiente para eu me ir , e nunca mais voltar !! Eu fui para um país onde nada nada nada, absolutamente nada tem a ver conosco Brasileiros, talvez exceto a corrupção, porém lá é maior, e a alegria, que lá de certa forma também é ainda maior! E, minha lama ficou por lá, eu luto todo dia pra matar a vontade que eu tenho de voltar e ficar um tempo, talvez a vida toda. O fato é que não é falta de coragem largar tudo, no meu caso é um consciência extrema que bata sobre minhas responsabilidades de mãe, pelo apego, e por ainda não ter concluído estudos… eu preciso ser autônoma, isso é minha prioridade, meu maior objetivo, pra aí então, poder voar. Mas no final, dentro de mim esse tempo aqui, que estou vivendo é preparação para em breve sair por aí, e caminhar pela terra, na sucessão de erros e acertos que estou louca para viver nesse mundão…. Os dias passam, os meses, os anos, e a vontade só cresce.. e eu vou, é o que eu digo sempre, e repito mil vezes baixinho para meu coração e para minha alma, eu vou….admiração pelo seu texto, sentimento de troca, empatia mesmo… vou seguir seu blog e quem sabe no futuro te visito na Suiça, 😀 .. luz e determinação, por que coragem vc tem de sobra e eu eu admiro os raros corajosos do mundo !!

      1. Eu vou em André, hhahahahaha ! Mas é provável que você queira me visitar quando eu voltar pra onde eu fui e quero voltar :p !! Eu fiquei no Egito 23 dias, conheci 16 amigos virtuais, foi uma experiência incrível, vi lugares, conheci pessoas, senti cheiros, vi cores e tive sensações na alma que eu desconhecia. Me senti em casa desde o momento que vi o céu empoeirado e marrom misturado ao vermelho do por de sol quando aterrissava no Cairo… tudo, absolutamente tudo me encantou , inclusive as enrascadas, as tentativas de extorsões, as propinas que tentam forçar, e vc depois da segunda berra. por que fala sério já paguei uma vez , 2 não não vou pagar !! O pais é lindo e ainda falta ver o leste e o oeste, e ficar por lá um tempo… e eu me esqueci lá , e não voltei nunca mais! Enfim…. mas eu lhe convido quando estiver por lá novamente, no máximo em 2 anos, esse é o plano !! Good Vibes pra você André e força que vai !!

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