Quando eu, brasileiro, descobri que posso viajar

Parece que é mentira, mas não é. Chegou um dia na minha vida e eu tinha juntado uma grana. Ao invés de gastar com balada, com carro e com iphone, resolvi tirar um fim de semana a mais de 1.000 km de minha cidade. E muita gente falou que não durante tanto tempo que eu quase não acreditei: eu estava viajando.

Quando eu, brasileiro, descobri que posso viajar.

tecoteco

Foi um dia estranho. Eu estava um lugar cheio de máquinas, de latas que depois eu vim a descobrir que podiam singrar os céus. Por que até então eu achava que sendo brasileiro e pobre eu não podia voar. Que isso era coisa de rico e brasileiro em geral não tem grana. Se viaja, está ‘ostentando’. Quer ‘aparecer’. Não é mais brasileiro.

Não sabia nem como fazer a mala. Aliás, que mala? Nem mala eu tinha. Mas eu iria voar e isso era o de menos. Quando eu descobri que podia viajar isso era o de menos.

Mas o mais engraçado era que quanto mais eu falava que viajaria mais me falavam que eu não podia. Especialmente me falavam que já tinham ido lá. Como se o destino fosse uma bandeira e uma propriedade em que alguém pisou primeiro e era uma autoridade no assunto. E ninguém mais pode ir.  “Ah, já fui lá, se eu fosse você ia em outro lugar.” E pronto, de repente por que Beltrano foi para X, você tem que ir para Y. Ou melhor, não vá para X de forma alguma. Beltrano quer ser o único a ter ido. Ou ele diz que é ruim e você não deve ir.

Quando eu entrei no avião foi a coisa mais engraçada. Todo mundo me imaginou um ricaço. Afinal avião é coisa de rico não? Por mais que muita gente pague em um tênis o preço de uma passagem de ida e volta para Bonito/MS. Foi como mágica. Entrar no avião me colocou uma chave de um carrão zero no bolso, um rolex no punho e uma mala de dinheiro. Não importava que eu tinha biscoito na minha mochila de mão. Quando eu descobri que podia viajar eu ganhei muitas coisas e uma delas foi o olhar das pessoas de que eu era de outro nível.

Mas isso é o que menos importa. Quando eu descobri que podia viajar alguém fez questão de me descobrir um novo ‘bem de vida’. Não importa, de novo, o pacote de passatempo na mochila e nem a escova de dente usada durante três anos. Eu simplesmente me tornei outra pessoa. Quando descobriram que eu podia viajar, de repente ficou menos interessante viajar. Afinal qualquer um pode. Engraçado acontecer isso comigo. Ah, se você pode, eu também posso. Me sinto um grande boi de piranha. Nivelo por baixo?

Quando eu descobri que podia viajar foi a melhor sensação do mundo. Aquela da liberdade. Então eu também posso entrar nessa nave de lata? Vira-latas também podem ganhar competições. É verdade. Eu podia viajar e isso não me reduzia ou não me aumentava. Não aos meus olhos – eu me descobria de verdade. Eu era eu mesmo quem aterrisava naquele solo e o dia começava e terminava e o sol se punha. Muita gente me descobriu naquele dia mas não quis dar o braço a torcer. Afinal o brasileiro comum não pode viajar. Se viaja, não é mais comum. Vira gente. Virei gente aquele dia? Nunca precisei. Sou quase o mesmo pé-rapado de sempre, mas desta vez a 10.000 metros de altura.

One thought on “Quando eu, brasileiro, descobri que posso viajar

  1. Entendo vc perfeitamente. Passei por isso tb. Até mais do q vc. Pq no meu tempo, ( uns trinta anos atrás) somente rico realmente entrava num avião. Hoje as coisas são diferentes. Mas, depois q passei a viajar, me sinto mais poderosa, rs… e as outras pessoas me vêm diferente com certeza!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.