Deixando o Brasil – A coragem: depois de chegar.

Meses atrás eu escrevi um texto sobre que tipo de coragem é necessário trabalhar para poder sair do Brasil. Lembro que faltavam menos de 30 dias para a minha fatídica viagem para Genebra e que a ansiedade e o frigo na barriga estavam no ponto mais alto de todo o meu desafio. Hoje, mais de quatro meses depois de chegar, eu confirmo: morar no exterior é exercitar a coragem todos os dias.

Deixando Brasil – A coragem: depois de chegar

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Como o tempo passa rápido, não? A minha viagem aconteceu em 31 de agosto e o meu post anterior sobre coragem foi redigido no dia 8 daquele mês.

Lembro perfeitamente da sensação daqueles dias: ansiedade, medo, esperança e frio na barriga. Naqueles dias eu precisava ter coragem todos os dias. Por que ainda dava tempo de desistir. Eu larguei um trabalho muito bom com grandes prospectos de futuro – no Brasil. Eu poderia prestar grandes concursos e ser juiz, promotor (Mas eu ainda posso, é só eu voltar). Para piorar, o meu trabalho era estável e eu morava praticamente sozinho. Eu ia largar tudo aquilo por um sonho louco de morar em Genebra e estudar direito internacional, em um curso que custava muito mais do que eu tinha juntado.

E eu larguei e aqui estou. E quer saber? Valeu totalmente a pena.

Mas as preocupações sumiram? Não, de forma alguma. Os medos e as ansiedades não sumiram, eles apenas se transformaram. Em outras palavras, a coragem que eu tive, eu tenho que manter e exercitar de uma forma totalmente diferente.

Quem mora no exterior precisa trabalhar a coragem de forma diferente. A primeira delas é deixar de achar que é vira-lata. Nós Brasileiros achamos muitas vezes que somos um povo inferior quando estamos no exterior, e deixamos de reclamar de coisas e reagir em situações em que normalmente reagiríamos. A gente acha que vai se portar mal e de forma inadequada. Sei lá, esse medo é inexplicável. Em geral os estrangeiros podem ter um certo preconceito (em geral com todos os países), mas eles gostam de nós.

A segunda é a coragem de todos os dias superar as dúvidas da decisão que você tomou. Por que volta e meia a gente pensa se o que fez é certo ou não. É claro que agora nós temos o benefício da escolha. Mas junto com a escolha, vem o peso dos dois lados – se de um lado no novo país, temos melhores condições e uma vida diferente, um futuro diferente, tudo isso traz algumas dificuldades a mais. E do outro lado, no Brasil, temos família, amigos, a facilidade da língua, mas uma série de coisas que normalmente são aquelas negativas que nos fizeram deixar o país.

E essa decisão é pensada todos os dias. Por que eu garanto que se o Brasil fosse um país mais desenvolvido muita gente não iria nem pensar em sair, ou iria voltar correndo. Quanta gente voltou nos idos de 2004 a 2011, quando o Brasil crescia a mais de 4% ao ano?

Conheço muita gente aqui que pensa no Brasil todos os dias. Eu mesmo penso. Não quer dizer que eu quero voltar.

A terceira – vencer em um novo ambiente.  Em geral quem sai do Brasil já passou por poucas e boas. E aqui precisa passar por várias delas, de novo. Quase sempre mudar pro exterior é rebaixar o seu padrão profissional – em outras palavras, começar de novo. Se você era sênior no Brasil, capaz que volte a ser junior. Se estava no meio da carreira, vai demorar um pouco até conseguir se restabelecer. Essa decisão envolve coragem todos os dias. Eu tinha um cargo ‘sênior’ no Brasil, e agora eu estou procurando estágio. Não me arrependo.

As the sun rises, Soldiers from Company F, 3rd Battalion, 227th Aviation Regiment, 1st Air Cavalry Brigade, 1st Cavalry Division, U.S. Division–Center, make their way through an obstacle course March 23. The second of eight events, the Soldiers were required to work together in order to complete all of the challenges.

A coragem que eu tenho aqui é totalmente diferente – é a de ser arrojado e me desafiar todos os dias. Preciso aprender francês? Preciso, então eu vou me dedicar muito mais e falar com os locais. Preciso conhecer a cidade e procurar trabalho, então eu vou me jogar e deixar de ser tímido. Preciso frequentar o Mestrado e me apresentar e escrever em inglês, e apesar de não ter 100% de confiança, eu não vou deixar isso me abalar.

Quem pensa que morar no exterior é uma Utopia, talvez só conheça o lado turístico dos países desenvolvidos. De forma alguma é assim. Aqui a gente tem que pagar contas, fazer compras, enfrentar a burocracia local e os problemas locais que não são tão aparentes para quem só visita alguns dias ou semanas. E tudo isso envolve sair da sua toca e se mexer – e com graus diferentes de quando se fazia no Brasil.

Chegando na Suíça eu estava com depressão e tive que tirar coragem do fundo de mim para fazer algumas coisas chatas – felizmente eu consegui. Sabe coisas que a gente já fez ou faz no Brasil a anos ou décadas e até já esqueceu como faz? Como por exemplo criar uma conta no Banco – levar a papelada, assinar todos os papeis. Só que tudo isso em outra língua. Pagar contas – em outra língua e com um sistema diferente do nosso.

Mas até agora, valeu muito a pena. Eu só mudaria uma coisa na minha trajetória – eu queria ter vindo antes. Eu seria mais novo, e teria mais tempo. Mudar do Brasil aos 30 é completamente diferente de sair do nosso país aos 20 e poucos anos. Eu tenho mais sabedoria e cabeça dura do que naquela idade, mas certamente eu tinha um pouquinho mais de energia e plasticidade, coisas que eu estou trabalhando agora.

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Sabe aquela decisão de largar o melhor trabalho da minha vida? Pois é ‘a merda já está feita’, como diz o jargão de baixo calão, então não adianta mais chorar sobre o leite derramado – se a decisão foi acertada ou não, não vai adiantar nada ficar remoendo isso. Claro que as vezes eu penso nisso e comparo a minha vida mais limitada, e mais realizada agora, com a vida anterior, onde eu tinha mais liberdade, especialmente financeira. Mas é impossível voltar ao que era antes – eu simplesmente teria que passar em um dos concursos mais concorridos do Brasil, outra vez. E se eu me formar no Mestrado aqui, certamente tenho chance de voltar em melhores condições.

E se você também quer mudar de país, não pense que vai ser fácil, mas também não pense que vai ser impossível e que o esforço não valerá a pena. Toda coragem se transforma em melhoria da nossa auto-estima.

8 thoughts on “Deixando o Brasil – A coragem: depois de chegar.

  1. Eu fiz a mesma escolha que você, passei as mesmas dificuldades, mas só tinha me preparado para ficar 3 meses, acabei voltando para o Brasil já vai fazer 3 meses de novo e não tem 1 dia que não pense em voltar pra Itália, só que a crise de trabalho lá está bem complicado, então eu sinto medo, mas também não perco a vontade, de toda forma seu texto me ajuda e me dá forças pra eu seguir nessa busca… Abraços e parabéns.

  2. Compartilho da tua experiência! No nosso caso viemos a Portugal, eu para fazer mestrado e meu marido para o doutoramento. Trouxemos 3 crianças! Assim como você deixamos empregos, clínica, vendemos bens… para seguir em frente e valeu muito a pena! O que mais marca a semelhança do que vc escreveu com o que sentimos, é a vontade de ter vindo antes, hj já estamos com 40 anos! Mesmo assim, o tempo é o agora e ainda temos muito para viver nos próximos 40 anos! Depois que saímos do Brasil, o céu é o limite!

  3. Cara, me identifiquei com seu blog porque você transparece sua simplicidade. Não procura usar palavras bonitas e nem floreia as coisas. Bem realista.
    Amigo, tenho 32 anos, sou concursado a 11, ganho 12 mil por mês, tenho meu AP, mas sabe de uma coisa, sou mto infeliz nessa vida….
    Fui diagnosticado com depressão severa, vou começar o tratamento, mas fico a pensar: adianta começar a tratar com medicação e terapia e minha realidade não mudar?!
    Eu deteste esse emprego que me dá estabilidade, é horrível isso! E quando penso em estudar para outro me deparo com o mesmo problema….será que vale a pena??
    Meu irmão ganha 30 mil por mês noutro concurso, mas sabe de uma coisa, ele não está feliz com a vida dele….só fica gastando com carros, viagens esporádicas, mas ele não gosta do que ele faz…..
    Enfim, estou pensando em largar esse emprego de merda, mas tenho muitos receios…. eu fiz uma cirurgia de coluna, muito pelo trabalho sentado e estressante, e justamente por isso não sei se daria conta de ser um viajante e encarar novos desafios….
    Mas por outro lado acredito que a libertação desse estilo de vida poderia revolucionar minha saúde, inclusive física, pois acredito que muitas das minhas dores são em decorrência da depressão patológica.
    tenho desejo de mudar de vida, mas no meu caso não falo outra língua fluentemente, e tenho medo de ir para outros países e virar chapeiro de MC Donald’s….nada contra, nenhum pre-conceito, apenas que minha coluna “aparafusada” não me permitiria….fora o medo do frio tbm, já que tenho parafusos nas costas.
    Mas sinto que estou morrendo dia após dia aqui…..
    Sei lá, se vc puder me passar alguma experiência ou informação eu fico grato,,,,

    1. E eu com 35 anos, formada em direito, advogada, estudando pra concurso. Solteira e sem filhos. Já passando por crises de choro, pq não aguento mais estudar, emendando a faculdade com estudos para a OAB dão 7 anos garrada, sem poder viver tranquila, vivendo de futuro, vivendo de que lá na frente será melhor que aqui… E ao pensar que terei estabilidade, ou seja, raiz em um lugar por causa do concurso, me sinto triste… Estou amadurecendo a ideia de ir pra Dublin, mas tb tenho medo de desperdiçar meu dinheiro e tb todos esses 7 anos de estudo e investimento financeiro no direito Brasileiro, além do investimento de energia. Mas a possibilidade de expandir me deixa brilhante… Sinto as vezes que não quero criar raízes. Sabe quando parece que vc não quer nada que te prenda.. quer ser leve, livre e solta? Pois bem, o concurso vai de encontro a isso… Não sei o que fazer da vida!

  4. E eu com 35 anos, formada em direito, advogada, estudando pra concurso. Solteira e sem filhos. Já passando por crises de choro, pq não aguento mais estudar, emendando a faculdade com estudos para a OAB dão 7 anos garrada, sem poder viver tranquila, vivendo de futuro, vivendo de que lá na frente será melhor que aqui… E ao pensar que terei estabilidade, ou seja, raiz em um lugar por causa do concurso, me sinto triste… Estou amadurecendo a ideia de ir pra Dublin, mas tb tenho medo de desperdiçar meu dinheiro e tb todos esses 7 anos de estudo e investimento financeiro no direito Brasileiro, além do investimento de energia. Mas a possibilidade de expandir me deixa brilhante… Sinto as vezes que não quero criar raízes. Sabe quando parece que vc não quer nada que te prenda.. quer ser leve, livre e solta? Pois bem, o concurso vai de encontro a isso… Não sei o que fazer da vida!

    1. Você poderia tentar ficar um ano pra saber se é isso mesmo o que quer.

      Eu tenho o meu diploma e não seria tão ruim voltar pro Brasil. As vezes vc só precisa da experiência!

  5. Nossa! Super legal seus comentários, me identifiquei bastante. Sou formada em Ciências Contábeis e Direito. Sou concursada no Brasil e estou de licença não remunerada. Estou morando na Alemanha com minha família. Estou vivendo aqui há sete meses, com o grande desafio de aprender a língua e enfrentar o inverno rigoroso. Tenho 41 anos e confesso que às vezes tenho vontade de voltar para o Brasil, saudades da família, dos amigos, das comidas, da zona de conforto mas, quando me vejo conseguindo socializar e interagir em outra cultura, outra língua, resolvendo questões que, a princípio, no Brasil seriam simples mas, aqui se tornam complexas, sinto uma felicidade tão grande que me dou conta de que estou vivendo um momento único. Estou aqui no tempo de Deus e aproveitando todas as oportunidades que tiver para viver experiências incríveis.

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