Para melhorar um coração despeçado, viaje. Se não funcionar, viaje de novo.

Viajar é como subir uma montanha, e as vezes você precisa estar longe para ver o que não consegue enxergar na palma da sua mão – um coração quebrado, uma vida despedaçada – tudo isso pode ter sido ferido, mas há formas de curar: viajar pode ser uma delas. E se não der certo? Viaje de novo.

 

Para melhorar um coração despedaçado, viaje. Se não funcionar, viaje de novo. 

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Não sou muito de escrever de relacionamentos aqui, mas eu sempre escrevo de sentimentos. Gosto de falar que a minha inspiração para colocar as palavras no papel vem direto do coração – é uma parte de mim que muitas vezes só surge quando eu estou escrevendo. Parece que as letras e frases saem todas voando e eu pego e simplesmente coloco em ordem. É como uma grande conversa.

Demorei um pouco pra viajar. Sim, demorei muito mais do que muita gente. Tive lá meus motivos – falta de grana, falta de convite, falta de tempo. Mas especialmente, falta de informação. Tivesse àquela época o conhecimento que tenho hoje, eu teria viajando muito mais. Ficar em casa no computador vendo vídeos, jogando videogame, mergulhando na TV, é legal de vez em quando, mas eu podia ter saído mais.

Mas quando viajei, senti uma revolução imediata. Todas as vezes. O bichinho me mordeu e – pá – não vejo a hora de começar a próxima. O mais interessante foi o efeito que as viagens tiveram para me curar. Singrar os ares e correr o asfalto me fizeram melhorar um coração despeçado, mais de uma vez. E quando não curou por completo, eu viajei de novo, e de novo. Por isso eu posso dizer, com certeza – se não funcionar, viaje de novo.

Problemas – finalmente lidando com eles.

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As vezes é preciso ir longe para enxergar o que não conseguir ver de perto.

Viajar não vai resolver os seus problemas mas vai te colocar em uma distância suficiente para que você possa pensar neles de uma forma panorâmica. Viajar, para mim, é como subir uma montanha. As vezes o seu telhado quebra, as vezes a sua vizinhança muda e você não percebeu, as vezes o rio está avançando sobre o seu jardim. Você está perto, você está ciente do que está acontecendo, mas se você tiver uma visão do todo, melhor ainda. Viajar é subir na montanha – onde a altitude do terreno lhe permite observar de um ângulo totalmente diferente.

A sua casa é a metáfora da sua vida. As vezes o seu telhado quebrou e você não percebeu – chove, você está molhado, a sua cama está molhada. Você pode não perceber – o seu coração, despedaçado. Ele precisa de cura, ele precisa de cuidados, ele precisa de tempo, e as vezes ele precisa de distância.

Viajar vai te por a par com os seus problemas. Sim – eles não vão sumir e muito menos você vai esquecê-los. É que sair do ambiente simplesmente vai te fazer bem. Respirar um novo ar vai te fazer bem. Ver o telhado quebrado da montanha vai lhe fazer bem.

O coração despedaçado.

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Quebrado – mas bem intencionado. A arte se manifesta por formas que parecem feias, mas é arte, e como tal, é a voz do coração, e é bela. 

O coração é um órgão inteligentíssimo e ao mesmo tempo super sensível. É tão engraçado que a gente se refere a ele tanto no sentido físico como no sentido mental e emocional. O coração é um órgão tríplice e se você não estiver bem nas três esferas, ele vai reclamar. Você vai sentir um vazio, escuridão, fraqueza. Quando você menos espera algo acontece que o seu coração fez despedaçar.

É uma sensação terrível e simplesmente traduz – impotência. Nos sentimos incompletos, seres humanos sem propósito. Parece que a vida não faz sentido. O coração, quebrado, torna-se apenas máquina, cuja vida nos faz sentir automatizados. O coração, quebrado, e nós também.

Viajar me ajudou um número de vezes a curar esse meu tal sentimento de quebra. Até hoje eu recolho pedaços antigos e admiro os pedaços novos que viajar me auxiliou a curar.

Me fez superar a perda irreparável da minha mãe (que amo) em um dia repentino e trágico de dezembro – era para ser a minha formatura. Lembro que não reparei, mas eu estava quebrado e molhado – o meu telhado demorou para cair, mas depois das primeiras goteiras veio o chuvaréu, veio a tempestade. Eu fiquei encharcado, ensopado, 100% quebrado. Demorei a perceber que o meu coração estava despeçado, e quando eu fui viajar, tinha-o cortado ao meio, sem reparar, terminei o serviço – terminei um longo relacionamento dois anos depois.

E assim eu lembro todos os dias daquela e daquelas fatídicas viagens, colhendo pequenos pedaços, plantando outros e me enviando pelo correio para que o meu eu do futuro as abrisse – as cartas – e tomasse a si aqueles novos trechos do meu caminho. Quando eu comecei a viajar, eu me curei, mas não 100%. E aí, viajei de novo, e de novo, e de novo.

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Um sorriso sincero em Berlim – estou muito melhor.

E você pode me perguntar – está curado? Não de todo. Descobri que todos nós temos algumas rachaduras no coração – a quebra ficou evidente e tornou sólido o vão que ajudou a romper o tecido. Viajar me fez ir para a montanha e entender que aquele já estava começando a avançar sobre o meu jardim a mais tempo do que eu imaginava. Me fez entender que o meu telhado, por mais bonito que fosse, tinha outras goteiras e tinha telhas faltando – mas funcionava. E me fez compreender como eu devo reconstruí-lo, mais forte, mais durável, e fazer meu jardim renascer, aproveitando a água do rio e subindo o meu terreno.

Não é santo remédio, mas é santo processo de cura. E se não te curar, se não melhorar – viaje de novo. Quem sabe o seu eu do futuro não encontra a solução para o coração despedaçado.

4 thoughts on “Para melhorar um coração despeçado, viaje. Se não funcionar, viaje de novo.

  1. Me identifiquei muito com o seu texto e sua história. Realmente não é nada fácil um “coração despedaçado”, e viajar nos leva a outros níveis de sabedoria e entendimento.

    Já curti sua página e coloquei nos meus favoritos! 😉

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