Que horas você parte?

As horas parecem passar vagarosamente. O tempo é inexorável. Aqueles momentos de descanso seguem um por-do-sol único – do outro lado do planeta. Enquanto você lamenta, enquanto você se deixa levar, a vida corre e os dias se repetem para nunca mais acontecerem. Se você não criar o seu próprio amanhã, ele vai chegar batendo na sua porta. Então, que horas você parte?

 

Que horas você parte?

_DSC3193menor

Esse texto foi criado pensando na música Another Day do Dream Theater e minhas experiências recentes pensando em vida, morte e na bezerra. Sugiro ouvir enquanto lê, quem sabe você gosta =).

 

Olho ao meu redor. Persigo o ambiente com os meus olhos. Quantas coisas aqui são parte do meu ‘eu’? Poucas. Na verdade, todas. Mas elas são poucas no sentido de não serem muitas e de, no final das contas, pouco importarem para definir a minha existência. Tudo isso é muito para o meu eu agora, mas para o meu que circula pelo menos 60 vezes o sol, não.

Sim, eu sou este computador que está escrevendo esta mensagem. Perdesse ele, eu perderia talvez um grande capítulo da minha atual jornada. Um dos mais importantes. Mas não perderia a jornada. A jornada está no coração, está nas memórias. Como o computador pode explicar a experiência de percorrer pela primeira vez as ruas de Praga, sentir o cheiro de canela e chocolate das banquinhas de rua? O cheiro daquela pessoa amada, as palavras pela primeira vez ouvidas, a sensação de realização com superação de obstáculos?

A câmera, o celular, a carteira. São parte importante de mim. Mas não morrerei sem eles. Ficaria muito triste, é verdade, mas não deixaria de viver outro dia. A vida segue. Segue com as memórias imperdíveis – o desafio de recomeçar a vida, de dar um grande pulo.

_DSC2421menor

Que horas eu parto? São várias partidas. Da última, não sei. Creio que sejam muitas horas para frente, muitas mesmo. Engraçado, eu já achei que faltam apenas poucas horas para partir de vez. Lembro como fosse hoje. Deitei-me na maca e apenas esperei o espírito subir, ir embora sem o computador o celular, a carteira, a cama, os documentos. Nada daquilo me importava no momento. Mas não parti. Fiquei a sós com os meus pensamentos. Eu convivi um bom tempo com eles. Achava a cada detalhe e momento que era o som do ônibus espiritual, mas não foi.

Viajei tão longe do tempo que esqueci do presente – das outras partidas que ainda tenho pela frente. Apenas pensava na última viagem, a inexorável, a mais temida, mas a menos sentida – em termos físicos. Enquanto isso o eu ficou aqui na terra. Sonhos e vontades abandonados. Para que persegui-los se vamos embora? Mas quando vamos embora? É muito longe. É como deixar de aproveitar a luz do dia por que se sabe que vai anoitecer.

_DSC2651menor

A que horas eu parto? Esse é o meu lema atualmente. Não a última e derradeira partida. Mas sim a partida dinâmica de todos os dias. Quando é a minha próxima viagem? Estou sempre me programando, sonhando, arrumando as malas físicas e mentais. Estar em constante movimento é estar vivo. Aprendi isto de forma dolorida, mas aprendi – o amanhã veio me batendo na porta no inverno por que eu esqueci de buscar ele na estação.

Os lamentos ficam e ficarão para trás. Há sempre um novo destino a se visitar, não importa o que aconteceu no último. Há sempre um novo caminho a se buscar para velhas hospedarias e novas hospedarias para velhos caminhos. Há sempre mais um dia de sol para você fazer uma nova viagem. Há sempre um por-do-sol inimaginável que nos fará sentir novamente como crianças, vivenciando a experiência como nunca dantes vista. São estes os que eu busco, são estes os que eu desejo, também inexoravelmente buscar, enquanto eu posso.

_DSC2776menor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.