Saindo do Brasil – A estrada até aqui e a inevitabilidade do tempo

Cento e cinquenta dias separam a minha existência atual com aquele dia fatídico em que eu sai do Brasil. De comum com aqueles tempos: não parece que foi ontem, parece que vai ser agora. Desde então todas as questões que me levaram a buscar essa empreitada são iluminadas todos os dias e eu ainda me sinto mudando. Tudo o que eu percorri desde 1º de Setembro até agora, você encontra aqui.

Saindo do Brasil – De São Paulo para Genebra

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Quando eu vejo alguém falar sobre sair do Brasil não passa um grande filme na minha cabeça. O filme começou faz tempo e nunca parou de passar. A celulose rola quente sobre o aparelho e a luz de fundo queima mais forte do que nunca. Para mim, não parece que foi ontem. Parece que é agora.

Explico em outras palavras. É como um grande livro. O livro é a minha vida e de repente eu estou naquele capítulo que eu começo a ler e não paro mais. E agora o capítulo está chegando em uma das cenas mais importantes e mais desafiadoras.

A estrada até aqui correu rápida. Parece que não, mas correu rápida. O semestre está terminando e eu consegui sobreviver a primeira etapa, que eu explico logo abaixo. Eu diria que a estrada não teve quase nenhuma curva, mas teve diversos quebra-molas e pontos sem iluminação. Diversos pontos sem iluminação. Mas eu consegui chegar no primeiro quarto do caminho e por enquanto está tudo bem.

 

A estrada até aqui.

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Oi, meu nome é André. Eu sou e não sou uma pessoa normal, agora eu reconheço. Eu sou normal porque eu passei por diversas dificuldades, umas mais e outras menos, de pessoas normais. Eu não sou normal por que no fundo ninguém é, mas ainda não descobriu. Eu descobri um pouco da minha falta de normalidade e a minha pretensa loucura, que é uma das razões de eu estar agora na Europa. Hoje eu estou escrevendo na cidade mais bonita que eu já vi até agora – Praga.

Estava tudo correndo super bem na minha vida. A minha carreira finalmente tinha decolado depois de quase 6 anos de espera. Eu tinha sido promovido, ganhava bem, num emprego estável e podia me planejar para passar um futuro tranquilo no Brasil e viajar duas ou mais vezes por ano, continuasse onde estava. Apertasse um pouco mais e fizesse um último grande esforço de estudo, o que demoraria mais 1 a 3 anos,  viraria juiz ou promotor e passaria a ganhar bem mais. A ser mais respeitado, a ter mais status. Mas não.

Na parte emocional, eu tive algumas crises que me fizeram repensar toda a minha vida de novo. Até hoje eu penso na minha vida de forma filosófica. Todos os dias eu me pergunto o que eu estou fazendo aqui e qual o sentido da vida. Talvez essa seja a minha falta de normalidade.

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Eu acredito em vida após a morte mas o conceito era somente virtual para mim. Eu tinha perdido a minha avó há uns 10 anos atrás e no mesmo ano, uma grande amiga, o que foi um choque que me fez mexer. Mas eu não estava preparado para perder a minha mãe em um mal súbito. Era o dia da minha formatura na Universidade de São Paulo. Aquilo me deu um grande choque também, mas foi depois. Um efeito retardado, mas devastador. Não, não foi a passagem da minha mãe que me fez mal, até porque eu acredito que ela esteja melhor agora. Inclusive eu sonhei diversas vezes, sonhos incrivelmente reais, em que ela dizia estar bem.

Foi o acordar de diversos questionamentos sobre a minha vida, o meu futuro, o que eu iria fazer, e principalmente – nós podemos morrer a qualquer hora. Esse pensamento me assustou e começou a pegar no meu pé em momentos em que eu ficava triste. Eu não sabia, mas eu tive depressão e provavelmente pânico. Eu me lembro que eu achava que eu ia ter um ataque do coração e morrer. E teve dias que eu quase cheguei a desejar ir embora deste mundo por que eu não me senti apropriado para viver na Terra. Como se eu não estivesse sincronizado.

Eu deitei na maca. A pressão 17-11. Exatamente um ano depois de ela ir embora, eu achei que fosse também. Amigo, pode parecer pequeno ou besta para você, mas para mim, foi muito real, surreal, um gigante que não ia embora. Eu demorei para me tocar que não tinha nada. Fiz todos os exames. Não tinha nada, pelo contrário, tirando triglicérides (eee vício em pizza e massas em geral), a minha saúde estava até melhor do que a média para a minha idade. Meu coração estava perfeito.

Tive longas conversas comigo mesmo. Por que eu estava daquele jeito? Por que justamente na melhor fase profissional da minha vida eu não estava satisfeito. Por que querer o sono eterno se há tantas coisas para se fazer nesse mundo. E eu comecei a lembrar de tudo o que eu queria fazer e não tinha feito.

Eu tomei duas decisões que deram uma nova guinada na vida: (i) eu queria morar fora e (ii) eu queria fazer alguma grande contribuição ao mundo. Para isso eu sempre quis trabalhar com direitos humanos e educação.

A notícia e a preparação

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As duas decisões vieram a calhar para escolher um lugar que eu nunca tinha pensado em morar mas tinha tudo a ver com a minha decisão. Eu sempre gostei de Direito Internacional e Direitos Humanos, e por acaso essa cidade era a única que eu achei um programa de Mestrado com as qualificações que eu queria. Eu moraria fora e estudaria. Me prontifiquei a me focar nisso.

Para minha surpresa parcial, eu fui aceito. Eu sabia das minhas habilidades mas ao mesmo tempo tinha um pouco de síndrome de vira-lata. Quando fiquei sabendo, fiquei extremamente feliz, mas ainda não de todo satisfeito – pensei em tudo o que eu tinha que fazer para tornar o sonho de realidade. Esse é o mal de uma mente atormentada! Não guenta ficar feliz alguns segundos. É lógico que eu me senti super bem, eu estava colocando um objetivo para mim e isso mudou o meu humor da água para o vinho.

Infelizmente esse também significou o fim de um relacionamento muito bom, mas que para mim não tinha futuro com distância. Não vou entrar em detalhes por que eu não gosto de expor estes assuntos no Blog. Só para dizer que foi um sacrifício extremamente dolorido e que acabou por acentuar um pouco de depressão assim que eu cheguei na cidade.

Bom, o certo é que eu fui aceito no Mestrado. O errado é que não me deram bolsa. Pois apesar de eu ganhar bem eu não tinha dinheiro para me sustentar em Genebra, por que simplesmente eu teria que deixar o meu trabalho. E o fato de eu ter vivido uma vida humilde e sem economizar quase nada durante 28 anos falou muito alto. Eu não tinha carro, casa ou qualquer bem vendável que valesse mais do que R$ 1.000,00. Somente poderia contar com as minhas reservas. Eu tinha dinheiro apenas para metade do curso, falando em termos práticos.

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E algumas pessoas tentaram me convencer a desistir. Primeiro pela falta de grana. Segundo, por deixar um trabalho super cobiçado em um concurso público. Mas depois de várias conversas comigo mesmo (leia acima), eu já estava mais do que integrado com a ideia de partir. Eu queria por que queria realizar esse sonho que estou realizando agora.

Tentei de tudo: fiz uma vaquinha online, e junto com os parentes, foi o que mais me ajudou. Vendi o que podia vender. Tentei todas as bolsas do mundo que eu conhecia e vim a conhecer. E montei esse site para tentar monetizar os meus textos. Se você curte o que eu escrevo pode me ajudar frequentando mais e fazendo reservas com os meus afiliados, inclusive. =)

O certo é que mesmo assim não foi o suficiente para eu conseguir toda a grana. Além da coragem que eu tive de pedir dinheiro, muita gente falou muita merda na minha cara. Que eu era um vagabundo e que não merecia ajuda. Tudo isso apesar de eu deixar claro que no futuro eu iria doar o valor equivalente ao que me foi doado, para quem precisasse. Na hora de julgar as pessoas não sabem ler ou raciocinar. Elas só querem te atingir. Nada disso me colocou para baixo, porém.

As doações, vendas e economias se mostraram essenciais para mim por que no futuro eu tive algumas surpresinhas desagradáveis.

Em Genebra, finalmente

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Quando eu depositei os meus pés em Genebra, muitas coisas fizeram sentido, para o bem e para o mal. Do lado realista, eu me dei conta da inevitabilidade das minhas decisões. Eu não poderia voltar para o meu antigo trabalho e teria que me virar de qualquer forma para ficar na Suíça. Do lado positivo, eu finalmente estava realizando o meu sonho.

Mas logo no começo bateu a real muito mais forte. Se eu não fizesse nada, em seis meses o meu sonho seria abreviado e eu teria que voltar para o Brasil pior do que há 4 anos atrás, sem emprego, sem nada. Isso por que as surpresinhas colocaram um grande quebra-molas na minha estrada. Primeiro, perdi o meu cartão do banco, segundo, a minha conta foi bloqueada, e terceiro, o Real caiu absurdamente, quase 20%, e com isso todas as minhas economias também. Sobrevivi uma semana com um pacote de massa, um litro de suco, pão e manteiga.

De alguma forma eu consegui arrumar a questão do banco, mas a parte financeira pegava forte. Então eu comecei o Mestrado com pouco foco e muito preocupado. Nessa época eu alternava dias de grande esperança e dias em que a depressão me fazia repensar tudo na vida e ter vontade de largar tudo e me tornar um eremita no Nepal. Sim, eu pensava isso, sério.

Isso tudo em Setembro. Eu também tive problemas com a língua e para me comunicar. Meu inglês é fluente, mas quando você não está no seu momento ideal, as ideias não saem da forma como você quer. A depressão me atrapalhava e eu tinha vergonha de cometer erros simples, gaguejar. Esse foi o meu maior problema na faculdade. Mas no geral eu estava me saindo bem. Comecei a me acostumar com a ideia e a reconhecer que eu não estava bem.

DSC00772menorViajar, morar fora, não vai te fazer resolver muitos dos problemas emocionais que você tem. Você leva o seu coração com você.

Em outubro, as coisas começaram a engrenar para melhor. A Universidade reconheceu que eu precisava de ajuda financeira e me concedeu um grant emergencial. Graças a isso eu ainda estou aqui, por que era para o meu dinheiro ter acabado. Isso me ajudou a ficar mais alguns meses em Genebra. Fiquei extremamente feliz. Se eu não tivesse acreditado em mim, nada disso teria acontecido.

Chegou Novembro, chegou Dezembro, e eu estava bem melhor emocionalmente. Cheio de ideias positivas, mas ainda não de todo recuperado. Isso refletiu nas minhas notas por exemplo. A falta de foco em algumas matéria me derrubou muito e em outras me colocou muito para cima. Mas eu passei em todas!

E assim passei o meu primeiro Natal e Ano Novo como morador da Europa. A História podia terminar aqui com um ‘e foi feliz para sempre’, mas ainda tem muito mais. Hoje estou aproveitando o fim das férias para fazer um mochilão (totalmente low cost, é claro), pela Europa.

A inevitabilidade do tempo. O grande desafio.

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Coloquei a foto de capa com o meu rosto de perfil e o relógio astronômico de Praga (de onde escrevo hoje), propositalmente. Queria relembrar a ideia principal que me fez vir para a Europa e repensar toda a minha vida. E é o símbolo da minha etapa atual, o que eu vou enfrentar nos próximos meses.

O meu dinheiro deve dar para mais três meses, com sorte, e comendo apenas o essencial. O tempo é inevitável e se eu não conseguir me virar nesses 90 dias, tudo será em vão e eu terei que escrever outros capítulos. Eu não quero. Não vou e não quero mudar de novo. Eu quero perseguir este sonho até o fim. Mas para isso eu preciso dar o máximo de mim.

A partir de agora eu posso oficialmente trabalhar, inclusive na faculdade. Antes que alguém pergunte, eu não podia. Só consegui fazer alguns trabalhos online e esporádicos. O desafio é conseguir um trabalho sem falar francês fluente. Mas eu não quero saber e nem tenho muitas condições de escolher. Apenas alguns dias atrás eu recebi a cobrança de 4.000 francos (16.000 reais) pelo semestre na faculdade e isso ligou o alerta em mim.

Eu me dei conta mais uma vez que o tempo é inevitável e que passa super rápido. Que aquele capítulo está chegando em momento especial em que ou vai ou racha. Por que se eu conseguir um trabalho agora, ou melhor ainda, uma bolsa (que eu posso tentar novamente), o meu futuro aqui em Genebra vai estar facilitado e eu posso ficar pelo menos até o fim do curso.

E se você me perguntar, como eu estou emocionalmente agora? Eu só penso em como a vida a curta e como o tempo é inevitável. Como passa rápido. De repente eu já vou fazer 31 anos. Gente mais nova do que eu já faz um super sucesso e eu estou em um caminho totalmente novo, sem qualquer pessoa para me guiar. Me sinto uma grande criança realizando os seus sonhos. Me sinto vendo aquele grande filme sobre a vida e refletindo a cada decisão que eu tomei. Estou mais pensativo do que nunca, e os próximos meses serão cruciais para assentar muitas dúvidas do meu ser. Eu sinto isso.

Essa é a estrada até aqui – passei por vários obstáculos, mas estou vivo e respirando. Continue acompanhando para mais novidades.

E relembrando, se você gosta do meu trabalho, existem muitas formas de me ajudar: anúncios, afiliados (hospedagem no menu), entrando no site ou colaborando com o patreon ou apoia-se.

Em breve, eu também lançarei o meu livro contando sobre esta grande história.

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2 thoughts on “Saindo do Brasil – A estrada até aqui e a inevitabilidade do tempo

  1. Ler esse blog me faz jogar tudo pro alto. Mas preciso manter o foco para economizar e juntar o máximo. Provavelmente passarei por algo próximo do que você está agora.

    Se tivesse uma boa grana (loteria, por exemplo), te enviava uns Euros.

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