Morar no exterior – e por que você ainda vai ter que limpar a própria bunda

Vez ou outra me deparo com a profusão de ideias de que o exterior é uma terra maravilha, repleta de banquetes e festas luxuosas, regadas a vinhos caros e terminadas em lençóis de seda. Okay, figuras de linguagem e exagero, à parte, eu confirmo que morar fora: (i) não é fácil, (ii) é, sim, melhor (iii) vale a pena, e (iv) significa um choque de valores com uma parte da cultura brasileira. Ah, e você vai ter que continuar limpando a própria bunda.

Não se engane: Morar no exterior não é fácil (mas pode ser muito melhor)

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Muita gente associa morar no exterior a uma vida de luxo. Isso é irreal. Arte de Constantyn Francken

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Quem foi que disse que morar no exterior é fácil?

Completei exatos seis meses aqui, em Genebra, Suíça. Cento e oitenta dias e um pouco mais, distantes daqueles dos tempos em que tinha um sonho e projeto muito louco de morar no exterior. A essa altura, quem lê este texto sem saber da minha história (que eu convido a ler em posts como este, este, e o meu canal do youtube em geral), deve me imaginar que eu como fondue todos os dias, esquio nas montanhas nevadas dos Alpes, tomo vinho com uvas Merlot em jantares chiquérrimos e tenho uma plantação de chocolate.

Na verdade, a vida é bem menos frugal – nada chique. Ontem mesmo eu precisei ir para o Hospital e passei nada menos do que três horas e meia em espera para uma consulta na emergência. Estivesse com um problema mais sério, que seria de mim? Não sei explicar. Só sei que foi assim, ao contrário do que muita gente pensa. O médico não me trouxe uvas em uma bandeja de prata e nem um tapete vermelho foi desenrolado pra mim. Voltei pra casa, fiz a minha própria comida, passei pano no meu próprio quarto, consertei um problema elétrico. E depois limpei a minha própria bunda.

Aliás, fora e dentro do contexto: Meus amigos franceses se mudaram recentemente para um apartamento que carecia de uma demão de tinta, e adivinha quem pintou? Não foi o filho ‘nordestino’ do porteiro, mas eles mesmos.

Morar em países de primeiro mundo não significa que nós estamos livre de perrengue – aqui você vai encontrar problemas de trânsito, de violência, de burocracia, e corrupção, como no Brasil, mas obviamente em uma escala menor – já que a nossa situação parece endêmica e problemática. E você também, por alguma razão que a ciência ainda procura explicar, vai encontrar pessoas mais predispostas a depressão e menos alegres. Por que? Eu ainda não sei. Sei que o Brasileiro é um povo de certa maneira feliz e que não desiste fácil.

Sei também que muita gente vai me julgar apenas pelos títulos e pelas impressões que uma leitura mal feita pode trazer – a de que eu sou um ‘ladrão de sonhos’, ou um ‘babaca’ tentando jogar água no chopp dos outros. Aliás, que chopp? Exatamente o que eu estou tomando há seis meses. Muita gente pode falar que eu estou falando de boca cheia e que morar no exterior é muito melhor do que morar no Brasil. Em geral essas pessoas não moram no exterior. E eu digo justamente o contrário – morar fora é bom.

Mas eu tenho um compromisso com a verdade e tenho que dizer: não é fácil.

Aliás, quero alertar uma classe em especial de brasileiros e esse é o objetivo principal do texto. Leia o título a seguir.

Por que você ainda tem que limpar a sua bunda no exterior

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La Récureuse, de André Bouys. 1737. Nos tempos dos reis era costume que eles se servissem de penicos para fazer as necessidades pessoais, e haviam serviçais encarregados da limpeza real, se é que você me entende. Muitos brasileiros acham que são príncipes merecedores desta atenção.

É bom entender que, fora do Brasil, a ideia de igualdade e melhor redistribuição de renda implica que você tem que fazer muitas coisas por si mesmo, o que de certa forma ainda contrasta com uma parte da cultura escravocrata brasileira. Infelizmente, essa cultura ainda existe, sim, e eu já tive o desprazer de testemunhar várias situações em que esse costume ainda persiste.

Sim, amigo. Não são poucas as pessoas que acreditam que a felicidade está intimamente ligada a ter serviçais. Muitos não confessam, alguns ainda são caras de pau a falar, outros tergiversam – mas percebe-se nas palavras e no ideário de que no exterior somos tratados como príncipes, ‘tal como merecemos’. Talvez isso aconteça em hotéis cinco estrelas, mas nunca na vida real. Pelo contrário – no exterior, ao menos nos países mais desenvolvidos, somos apenas mais um.

A cultura escravocrata ou serviçal está presente na ideia de que existem pessoas que nasceram para ser ricas e pessoas que nasceram para servir. Assim, muita gente acha um desaforo que uma empregada doméstica brasileira possa tirar férias em Nova York. “Que pecado!” Como disse a Danuza Leão: “Ir a Nova York ver os musicais da Broadway já teve sua graça, mas, por R$ 50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?” Infelizmente, essa frase parece espelhar as vozes de muita gente, que acredita inclusive que o Brasil já foi uma vez perfeito.

E muitas destas mesmas pessoas – algumas eu tive o desprazer de conhecer – acreditam que boa é a vida na Suíça. Mal sabem que na Suíça, mesmo o trabalhador, repositor de estoque de uma rede de supermercados, pode jogar golfe no mesmo campo que o presidente da empresa. Nesse sentido, a vida é boa mesmo, só não é para quem precisa de uma comitiva real – tudo vai ser muito caro.

Quer um exemplo? A própria ideia de ter empregadas domésticas 100% a serviço do patrão. Felizmente uma cultura que está morrendo no Brasil, mas cuja agonia parece durar mais algumas duas ou três décadas, em virtude da ainda verdejante desigualdade social. No exterior, este serviço é caro, caríssimo. Faxineiras são melhores remuneradas nos países de primeiro mundo.

Outro exemplo? Tratar os garçons, atendentes, manobristas, porteiros, e qualquer outra profissão considerada de chão, como fosse uma casta, uma classe inferior. Como fossem serviçais cujo único propósito é se dedicar integralmente ao bem estar da casta superior – os novos senhores de engenho. Você pode achar que eu estou exagerando, ou você pode encontrar esse elemento em seu próprio pensamento. Tratar mal um garçom só por que você pode e ele merece. Xingar o porteiro de ignorante. Dizer que ‘eu estudei para não ter trabalhar limpando banheiro’.

Parênteses: Em 2006 eu trabalhava como atendente de farmácia e limpava o chão da loja todos os dias. Um dia uma cliente falou que o filho dela ia estudar pra não ter que ser igual a mim. Algum tempo depois eu passei na USP e hoje eu faço mestrado em uma das melhores Universidades da Suíça.

De volta – é simples assim – já reparou como nós dividimos as coisas em ‘de rico’ e ‘de pobre’? Em São Paulo, existem Shoppings de Ricos e bairros de ricos, e Shoppings de Pobre e Bairros de Pobre. Basta ir ao Tatuapé, na Zona Leste, que em um raio de 1 quilômetro você vai se dar conta da diferença. Muita gente acha que isso não existe mais. Ora, e o que não é o resultado disso senão a moda da ‘gourmetização’? É a da indústria do comércio e serviço tentando se adaptar ao gosto e cultura do Brasileiro.

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Tapioca. Era considerado coisa de pobre, hoje é um quitute a ser vendido com chocolate belga e redução de caramelo.

No Brasil o rico não gosta de se misturar com o pobre, senão ele vê deslegitimada a própria pobreza. Na verdade, ele gosta de querer desfilar com o pobre como fosse um safári humanitário (tal qual muitos europeus ainda fazem na África, achando que são portadores da civilização em uma cultura inferior).

O mesmo rico diviniza a vida no exterior, o mesmo exterior em que ele acredita vai ser tratado como rei, como um príncipe, que vida boa teria que fosse não limpar a própria bunda.

Acontece (que um tal de Jeremias traficante de renome apareceu por lá) que no exterior, o custo da igualdade é que não há desigualdade, e isso acredito que buga a mente de muita gente. Que não liga o fato de que o serviço de uma babá pode custar 20 francos (80 reais) a hora ao fato de que há menos violência e disparidade social. E que morar no exterior significa enrugar a mão com cândida para lavar o próprio chão, por que esse tipo de serviço é caro. E mesmo que você ganhe bem, trata-se de um gastos que há de se pensar duas vezes antes de fazer.

Adendo: O que isso tem a ver com violência? É uma questão de escolha. Ganhar 1.000 reais por mês durante anos e se matar de estudar pra ser alguém na vida, enquanto tem gente que tem iphone aos 5 anos de idade? Essa mesma pessoa escolhe explodir um caixa eletrônico, se arriscar a ser preso e ganhar 30.000 reais. Faça a associação entre oportunidade, desigualdade e pobreza neste aspecto.

Então, se quiser morar no exterior, tente se dar conta de que isso atrai vários custos e tarefas associadas a ter uma vida mais justa.

Fiquei pensando muito depois de escrever este texto. E cheguei a uma consideração breve:

Okay, talvez, você, brasileiro, que acredite que ir para o exterior vai ter alguém pra limpar a sua bunda, vá, e não volte. O Brasil ficará bem melhor sem você. E boa sorte com a sua poupança. Você vai precisar.

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