Precisamos falar sobre as duas mochileiras argentinas

Se você não sabe ainda, ficará sabendo agora – duas mochileiras argentinas estavam passeando pelo Equador e foram assassinadas por dois homens locais. Acontece que não bastou a violência a que foram submetidas durante a vida, mas também à sua memória – como se, por serem mulheres e viajando “sós’, fossem culpadas pela própria violência a que foram sujeitadas.

 

Precisamos falar sobre as duas mochileiras argentinas

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A história é a seguinte, mas não termina aí, e eu vou explicar o porquê:

Duas mochileiras argentinas estavam viajando pela Costa Oeste da América do Sul, onde estavam em Montañita, no Equador, e depois empreenderiam viagem até Lima, por que elas haviam sido roubadas e perderam todo o dinheiro (já começou mal aí). Mas, ainda em Montañita, os familiares perderam contato com as moças no final de fevereiro. Depois de muita comoção na Internet e pressão popular, iniciaram buscas extraordinárias e os cadáveres de ambas foram encontrados na região da praia. Presumivelmente encontraram os culpados em menos de 24h, que contaram histórias suspeitas de que as vítimas foram de bel-prazer às suas casas e quando se deram conta, elas já estavam mortas.

Inobstante, logo começou a pulular na mídia latinoamericana (quase não vi nada disso no Brasil, que infelizmente parece alheio a tudo o que acontece com nossos vizinhos) de que as mochileiras estavam viajando a “sós” (detalhe – elas estavam juntas), de que elas mesmas se colocaram em risco. E se seguiam comentários do tipo de que elas deveriam estar acompanhadas, e dúvidas sobre qual tipo de roupa elas vestiam e se elas ‘deram bola’ aos assassinos. E aqui se percebe que os nossos vizinhos também compartilham da mesma mazela dos brasileiros. Aliás, do mundo todo – quando a vítima parece assumir a maior proporção da culpa pelo seu próprio destino.

O que é um dos maiores absurdos – onde chegamos ao ponto em que não discutimos a violência por si só, mas ela se torna tão comum que um observador admite o caráter ‘determinista’ do crime: como se a bandidagem fosse comum e agisse sempre da mesma forma, e nós e que deveríamos nos cuidar. E tem mais um agravante: isso é levado a um grau muito maior com relação às mulheres, o que evidencia o machismo exacerbado da nossa cultura.

Por que devemos falar sobre as duas mochileiras argentinas? São vários motivos:

(i) Para denunciar a tendência da mídia e de boa parte do público em geral, que propaga e de certa forma é indulgente com a cultura machista. Segundo esta cultura, particularmente forte na América do Sul, mulheres que viajam sozinhas são culpadas pela própria violência que sofrem (como numa ficção absurda onde elas segurassem uma arma contra a própria cabeça apenas pelo fato de serem mulheres). Ainda, particularmente mais doloroso pelo fato de que elas viajavam juntas, o que torna ainda mais evidente o julgamento parcial. Fossem homens, não se discutiria muitas das variáveis como vestimenta e o fato de estarem sozinhos.

Aliás, quase não se falou da conduta dos homens que as assassinaram. Sabe-se que elas levaram golpes no corpo e na cabeça, e pior, foram enroladas em sacos de lixo e ‘desovadas’ na praia.

(i) Para não tornar este crime apenas mais um. Todos os crimes são uma tragédia em si mesma e não devem ser tratados como mero espetáculo de programas sensacionalistas de TV. Não é por que vivemos uma cultura de violência endêmica que ela deve ser considerada como uma obra da natureza.

(ii) Para aproximar os brasileiros do que acontece no restante da América do Sul. Até parece que fazemos parte de outro continente, tal é o desconhecimento sobre a política e fatos dos nossos vizinhos, que em muitas circunstâncias é muito mais importante para nós do que o que acontece nos Estados Unidos e Europa.

E por se tratar de mais um episódio de violência exacerbada pelo machismo, acredito que uma mulher fale bem melhor sobre o assunto do que a mim. Neste sentido, eu queria deixar a minha contribuição para propagar uma carta viral, escrita por uma estudante em Assunção, no Paraguai, que demonstra bem como a nossa cultura se encontra defasada e contrária à liberdade das mulheres. O nome é muito sugestivo: “Ontem me mataram.” E abaixo, a tradução em Português (realizada pelo El País)

 

Ayer me mataron.

Me negué a que me tocaran y con un palo me reventaron el cráneo. Me metieron una cuchillada y dejaron que muera desangrada.

Cual desperdicio me metieron a una bolsa de polietileno negro, enrollada con cinta de embalar y fui arrojada a una playa, donde horas más tarde me encontraron.

Pero peor que la muerte, fue la humillación que vino después.
Desde el momento que tuvieron mi cuerpo inerte nadie se preguntó donde estaba el hijo de puta que acabo con mis sueños, mis esperanzas, mi vida.
No, más bien empezaron a hacerme preguntas inútiles. A mi, ¿Se imaginan? una muerta, que no puede hablar, que no puede defenderse.

¿Qué ropa tenías?

¿Por qué andabas sola?

¿Cómo una mujer va a viajar sin compañía?

Te metiste en un barrio peligroso, ¿Qué esperabas?

Cuestionaron a mis padres, por darme alas, por dejar que sea independiente, como cualquier ser humano. Les dijeron que seguro andabamos drogadas y lo buscamos, que algo hicimos, que ellos deberían habernos tenido vigiladas.

Y solo muerta entendí que no, que para el mundo yo no soy igual a un hombre. Que morir fue mi culpa, que siempre va a ser. Mientras que si el titular rezaba fueron muertos dos jóvenes viajeros la gente estaría comentando sus condolencias y con su falso e hipócrita discurso de doble moral pedirían pena mayor para los asesinos.

Pero al ser mujer, se minimiza. Se vuelve menos grave, porque claro, yo me lo busqué. Haciendo lo que yo quería encontré mi merecido por no ser sumisa, por no querer quedarme en mi casa, por invertir mi propio dinero en mis sueños. Por eso y mucho más, me condenaron.

Y me apené, porque yo ya no estoy acá. Pero vos si estas. Y sos mujer. Y tenes que bancarte que te sigan restregando el mismo discurso de “hacerte respetar”, de que es tu culpa que te griten que te quieran tocar/lamer/ chupar alguno de tus genitales en la calle por llevar un short con 40 grados de calor, de que vos si viajas sola sos una “loca” y muy seguramente si te paso algo, si pisotearon tus derechos, vos te lo buscaste.

Te pido que por mí y por todas las mujeres a quienes nos callaron, nos silenciaron, nos cagaron la vida y los sueños, levantes la voz. Vamos a pelear, yo a tu lado, en espíritu, y te prometo que un día vamos a ser tantas, que no existirán la cantidad de bolsas suficientes para callarnos a todas.

Publicado por Guadalupe Acosta em Terça, 1 de março de 2016

Ontem me mataram.

Neguei-me a deixar que me tocassem e com um pau arrebentaram meu crânio. Me deram uma facada e me deixaram morrer sangrando.

Como lixo, me colocaram em um saco de plástico preto, enrolada com fita adesiva, e fui jogada em uma praia, onde horas mais tarde me encontraram.

Mas, pior do que a morte, foi a humilhação que veio depois.

A partir do momento que viram meu corpo inerte, ninguém se perguntou onde estava o filho da puta que acabou com meus sonhos, minhas esperanças, minha vida.

Não, preferiram começar a me fazer perguntas inúteis. A mim, podem imaginar? Uma morta, que não pode falar, que não pode se defender.

Que roupa estava usando?

Por que estava sozinha?

Como uma mulher quer viajar sem companhia?

Você se enfiou em um bairro perigoso. Esperava o quê?

Questionaram meus pais, por me darem asas, por deixarem que eu fosse independente, como qualquer ser humano. Disseram a eles que com certeza estávamos drogadas e procuramos, que alguma coisa fizemos, que deviam ter nos vigiado.

E só morta entendi que para o mundo eu não sou igual um homem. Que morrer foi minha culpa, que sempre vai ser. Enquanto que se o título dissesse foram mortos dois jovens viajantes as pessoas estariam oferecendo suas condolências e, com seu falso e hipócrita discurso de falsa moral, pediriam pena maior para os assassinos.

Mas, por ser mulher, é minimizado. Torna-se menos grave porque, claro, eu procurei. Fazendo o que queria, encontrei o que merecia por não ser submissa, por não querer ficar em casa, por investir meu próprio dinheiro em meus sonhos. Por isso e por muito mais, me condenaram.

E sofri, porque já não estou aqui. Mas você está. E é mulher. E tem de aguentar que continuem esfregando em você o mesmo discurso de fazer-se respeitar, de que é culpa sua que gritem que querem pegar/lamber/chupar algum de seus genitais na rua por usar um short com 40 graus de calor, de que se viaja sozinha é uma louca e muito seguramente se aconteceu alguma coisa, se pisotearam seus direitos, você é que procurou.

Peço a você que por mim e por todas as mulheres que foram caladas, silenciadas, que tiveram sua vida e seus sonhos ferrados, levante a voz. Vamos brigar, eu ao seu lado, em espírito, e prometo que um dia seremos tantas que não haverá uma quantidade de sacos plásticos suficiente para nos calar.

One thought on “Precisamos falar sobre as duas mochileiras argentinas

  1. um dia na minha cidade no Brasil,eram aproximadamente 10 da noite,uma garota vinha de uma balada,e foi estuprada e morta,no outro dia os comentários,serio?o que uma garota desta idade de mini saia fazia na rua uma hora destas?e outros estupidos,que nem me lembro,então um radialista da cidade decidiu defender esta linda moca que teve seus sonhos interrompidos por uma verme,que absurdo,então quer dizer que porque era uma mulher,porque usava mini saia,não merecia ser respeitada?,mentes sujas,mentes retrogradas,por isso que ate hoje,muitas mulheres são estupradas,e tem vergonha de denunciar,porque ainda hoje,existem policiais,pessoas que as acusam,insinuando que elas são culpadas por tais abusos,me choca,falamos tanto da India,sei la,não entendo muito bem,o que fazem com as pobres das mulheres por la,mas e em todo mundo,eu vejo noticias do Brasil todos os dias de mulheres brutalmente assassinadas,estupradas,e ate pelos próprios pais,e dizem que elas procuravam por isso,e chocante,e lamentável.

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