Viagens Pomodoro – Quando as férias se tornam trabalho

Maximizar a viagem, aproveitar todo o tempo. Quem não quer? Mas as vezes nessa nossa ânsia de querer conhecer a tudo e a todos põe a perder justamente algumas ideias principais por parte de querer viajar – gozar, descansar, relaxar, sair da rotina.

Viagens Pomodoro – Quando as férias se tornam trabalho

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As 6h da manhã você terá que estar pronto e no hall do hotel, penteada(o), perfumado(a), carregados de badaluques turísticos. As 6h10, parte a van, em direção à primeira praia mais próxima, onde você descerá e poderá gozar exatos 25 minutos, nem mais, nem menos. A cachoeira é o próximo destino – todos os turistas devem fazer uma mini-trilha com fila indiana, chegando às águas as 8h00. As 9h00, saída para a cidade vizinha, onde você estará liberado para dar uma volta de 45 minutos no centro da cidade, já que as 10h15 você já estará encaminhado para a terceira vila do seu dia, onde você tem horário marcado para uma visita guiada no museu as 11h20. Quando bate o sol no centro do céu, meio-dia é hora de todo o grupo almoçar, com horário limite até as 13h00. Depois, as 13h30, todos visitarão a mesma loja de lembranças e souvenires, as 14h21, o museu de cera, as 15h00, o café mais antigo do centro da cidade, as 15h50, saída para ver o mar, as 16h20, partida para a praia vermelha, as 17h00, para o monumento em homenagem ao turista estressado e as 18h00 para o observatório com o fim de testemunhar o pôr-do-sol.

Só de escrever isso, eu já estou cansado. Imagina experimentar essa baita viagem. Muita gente vai reconhecer este tipo de cronograma. Outros vão achar que eu estou exagerando. Alguns até passaram por essa situação. E por incrível que pareça, não é tão incomum. É algo que eu mais vejo, estes cronogramas super apertados.

Já ouviu falar de Pomodoro? Não é só uma marca de molho de tomate, mas também uma técnica muito conhecida nos dias de hoje, especialmente para aqueles que querem otimizar o seu tempo e tornar mais eficiente o seu dia. Concurseiros em geral gostam muito de aplicar essa ideia, que basicamente funciona assim:

Você dedica 25 minutos a uma tarefa e descansa 3 a 5 minutos, e em seguida mais 25 minutos e mais descanso. Cada período de 25 + 5 é considerado um ‘Pomodoro’, e a cada 4 Pomodoros você descansa de 15 a 30 minutos adicionais. Eu particularmente já tentei e achei interessante. Mas para viagem, acredito que não funciona muito bem, especialmente se a sua viagem é feita no período de férias.

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Por que não vale a pena? Bom, não sei você, mas para mim férias significa acordar mais tarde e ter menos tarefas quadradas, menos compromissos marcados. A ideia é justamente variar, não? Pois eu gosto de viajar assim, e normalmente eu o faço nas férias. Se eu tenho um cronograma estrito, não parece que estou de férias, justamente o contrário – me sinto trabalhando. Claro, isso pode ser de alguma forma uma experiência legal e prazerosa, mas eu já testei algumas vezes e o resultado foi de que no final eu estava louco para voltar a ter uma rotina certa e descansar da minha viagem.

Isso reflete também um pouco o comportamento e a necessidade do Brasileiro quando viaja para o exterior. Parece que é a primeira e a única vez que saímos do País, e para muita gente é. Eu que cresci pobre e sem condições de cruzar a fronteira do Estado me vi mais de uma vez com esse dilema. Depois acabei tendo uma vida melhor devido ao meu esforço, mas o esquema de viagem não mudou, muito em razão da ânsia de conhecer vários lugares e do pouco tempo.

Posso dizer: foi legal, muito legal, mas muito cansativo. Em 2014 eu fiz uma viagem muito louca ao Japão e eu queria acordar cedo todos os dias para visitar o máximo possível de coisas. Eu planejei nada menos do que 15 dias e pelo menos 75 lugares para visitar. Pode parecer pouco no dia-a-dia, mas em 15 dias isso acaba se tornando muito. E na minha ânsia de conhecer mais e mais eu deixava de lado alguns fatores como comer de forma saudável e organizada, o que é muito importante.

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Na terra do sol nascente

Essa viagem você encontra aqui no site (ainda vou reescrever diversos capítulos). O resultado foi – uma das melhores e mais cansativas experiências da minha vida. Chegou no 10º dia eu simplesmente estava exausto e minhas pernas doíam de tanto andar – quase 8 horas por dia. Isso, claro, contando que no Japão eu visitei muitos templos e lugares que envolviam caminhar. Acabou que eu deixei de lado coisas importantes como integrar na cultura e realmente saborear um prato de comida japonesa. Eu o fazia a noite, mas voltava muito cansado para o Hotel.

Hoje eu faço de uma forma um pouco diferente, mas ainda insuficiente. Não acordo mais cedo todos os dias, e quando o faço eu vou dormir. Ainda me sinto cansado depois do fim das viagens, mas muito mais realizado e em melhores termos comigo mesmo.

Vale sempre a reflexão, e fica de dica: que tipo de viagem você quer fazer? Será que é só para colocar os lugares no seu álbum de figurinha ou é realmente para aproveitar?

Acredito que quanto mais novo a gente seja, mas intenso queremos ser, e é inevitável reconhecer que temos mais energia. Mas isso não precisa significar abusar do nosso próprio momento de descanso.

One thought on “Viagens Pomodoro – Quando as férias se tornam trabalho

  1. Bem isso, mesmo: a gente quer fazer o máximo de coisas no tempo que a gente tem, que em geral é curto igual à grana. Acho que faz parte de nossa cultura: a instabilidade econômica traz a sensação de que aquela será nossa última viagem àquele lugar, então é preciso fazer tudo – e ainda emendar vários bate-voltas. Dormir é para os fracos e analgésicos são para as dores.

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