O lado muito bom, o lado bom e o lado ruim de largar tudo

Lembro bem daqueles dias chuvosos e extremamente quentes do verão e começo da primavera brasileiras. Muita gente falava em deixar o Brasil, hoje mais ainda. Mas o meu caso era bem diferente – eu tinha um bom emprego e uma vida legal. Em tese, não tinha motivos. A minha grande vontade de sair por aí e bater perna pelo mundo falou muito, muito alto e eu não titubeei em nenhum momento. Hoje, um ano depois, eu sinto na pele os efeitos daquela decisão.

O lado muito bom, o lado bom e o lado ruim de largar tudo

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Na lata. Olha, as vezes eu acho que a minha decisão foi uma merda. Sinceramente, quem largaria um emprego público ganhando quase 10.000 por mês, com estabilidade, 45 dias de férias por ano e possibilidade de avançar ainda mais na carreira. Em nome de um sonho ‘bobo’. As vezes eu não sei se eu fui burro ou louco. Se você quer saber bem, eu repenso essa decisão todos os dias. Esse é um dos lados ruins. Você se questiona sempre.

Mas de repente eu olho para trás e revejo aquele mesmo André que estava naquele excelente emprego estava se sentindo infeliz. Não infeliz com o trabalho, pelo contrário, eu me sentia até realizado – o meu ofício era bem valorizado e eu tinha a oportunidade de mostrar o meu potencial. A infelicidade era a outra – eu sentia que eu estava traindo um André ainda mais antigo, aquele sonhador, de 20 e poucos anos. Sim, eu tinha esquecido o que aquele rapaz que veio de escola pública sonhava. Era fazer algo importante para o mundo todo. Sempre tive essa vontade. Tipo, parece meio besta, sabe, mas eu ainda penso nisso. Acredito que nasci com uma certa inteligência e que eu queria utilizar os conhecimentos adquiridos para ajudar outras pessoas na vida. Não que eu me sentisse um gênio, mas eu sabia que eu tinha um grande potencial.

Mas as dificuldades da vida me fizeram entornar para o caminho da necessidade – eu vim de uma família que teve grandes problemas financeiros. Não tive muitas oportunidades de vida, então agarrei àquela que parecia mais segura. Imagina que aquele mesmo rapaz sonhador não tinha mais que uma calça e algumas duas ou três camisetas para sair de casa. E quando eu passei em um concurso público, é claro que eu fiquei meio acomodado. Dos meus 30 anos de vida, eu passei quase 27 deles passando muitas vontades. E somente em três deles eu pude fazer muitas das coisas que sonhava. E uma dessas coisas era justamente alçar uma plataforma para projetos mais altos.

O lado ruim

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Eu perdi a liberdade financeira e perdi um dos meus chãos. Me dei conta que a maioria das coisas boas do mundo a gente não reconhece. Existe uma expressão em inglês chamada ‘take for granted’. A sensação de cair uma grana todo mês na minha conta fazia muita diferença. Essa sensação de segurança era muito boa.

Quando se toma uma decisão como essa, a ideia quase sempre é começar de novo. E começar de novo é dolorido, tem passos muitos chatos. Por exemplo, depois de anos como funcionário, voltar a ser um estagiário. Aprender coisas novas, só com uma idade mais avançada, é uma diferença bastante peculiar se contar 10 anos de diferença. Se alguém te disser que começar de novo só tem lados bons, estão mentindo. É uma baita chatice, por exemplo, ficar mandando currículos novamente e procurar empregos abaixo do meu potencial.

Também é chato ter que lidar com as próprias lacunas da vida. Ao largar tudo com certeza você vai precisar ter que aprender qualidades e habilidades que você já deveria ter aprendido se quisesse seguir o sonho a sério, mas não pôde. É o meu caso. Eu queria uma carreira internacional, mas simplesmente não tive tempo de aprender melhor inglês e francês, línguas essenciais para isso.

O lado ruim é que você vai se reperguntar todos os dias as suas decisões e vai se questionar. Vai sentir falta das comodidades que você tinha. Vai querer se arrepender e voltar à como era antes.

Os lados bom e muito bom

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Se eu perdi a liberdade financeira e perdi um dos meus chãos, isso também tem um lado bom. Significa que eu não tenho segurança e não ter segurança me faz ter a necessidade de me reinventar, sempre. E essa era uma das ideias do Steve Jobs. Eu acredito muito no que ele dizia: “Stay Hungry. Stay Foolish”. Em tradução liberal, você tem que se manter faminto, e assim você vai extrair o máximo de si para sair dessa situação. É como se estivesse mais uma vez no fundo do poço – você só pode ir para cima.

Eu estou aprendendo muito, muito sobre mim. Ideias novas. Descobrindo minhas falhas.

Nesta etapa eu estou em uma constante descoberta. Ou melhor, redescoberta. Se todos os dias eu questiono a minha decisão, todos os dias eu reafirmo a minha decisão. Foi sim, a melhor coisa que eu fiz na minha vida. Reconhecer isso é o lado muito bom. Por que eu tenho certeza, que dando certo ou não, eu não vou me arrepender.

Essa é uma das grandes questões que eu levo comigo para a minha vida – eu não quero mais chegar em determinada idade e me arrepender de não ter cumprido os meus sonhos. Eu lembro quando cheguei aos 25 e me dei conta de que não havia feito muito coisa na vida. Passei na USP, mas praticamente nunca tinha viajado, não me divertia com os amigos, não saia de casa. Eu vivia para sobreviver. E ai tomei algumas decisões, algumas delas que me trouxeram até aqui.

Eu não quero mais somente sobreviver, eu quero viver. Claro, não dá para viver só de sonhos. Precisa ter comida na mesa. Mas somente o fato de eu ter me desafiado e largado tudo em nome de um sonho me faz ter orgulho de mim mesmo.

5 thoughts on “O lado muito bom, o lado bom e o lado ruim de largar tudo

  1. Eu concordo com você André. Acabo de voltar de um ano sabático também. Essa coisa de mandar currículo é uma chatice mesmo, e não ter grana é foda. Mas o que me faz sentir satisfeito é que, independente de grana ou não, eu realizei meu sonho. Eu já fiz praticamento tudo que eu queria com minha vida aos meus 25 anos!

    Agora é só voltar a ganhar dinheiro, mas dinheiro é fácil. Dinheiro tem aí, só precisar ralar. Tempo não, o tempo a gente não consegue reaver. Olhar sempre pra frente, nunca pra trás!

    Enfim, parabéns pelo post !!

    Abraços

    1. Parabéns Felipe, precisa de muita coragem!! O que mais você fez de tudo o que você queria?
      Talvez seja hora de expandir ainda mais teus sonhos!

  2. Parabéns pelo post. Tenho planos de seguir os mesmos passos e uma situação muito parecida com a sua. Achei um dos posts mais realistas sobre o assunto.

  3. Encontro-me numa situação bem parecida com a sua. Ganho 10k por mês, trabalho 6,5h, sendo engenheiro oficial da Foça Aérea. De toda trajetória que tive até até hoje tenho algum arrependimento de não ter morado fora, mas mais forte ainda é meu descontentamento com a realidade brasileira. Os textos extensos de Facebook podem não representarem bem a realidade, mas representam bem a mentalidade. Pessoas simplistas que acreditam que podem resolver o mundo com medidas simplistas. Pessoas com pensamentos extremamente preconceituosos, com uma moralidade baseada em religião e senso comum – nunca se questionam a origem de suas ideias. Some isso ao fato de que já tenho todos os documentos para dar entrada à minha cidadania alemã, o que pretendo fazer. Some ao desmoronamento econômico e político do país, a um lugar em que “ser esperto” é uma condição necessária pois é sistêmico, um ciclo vicioso: você é porque se não for a coisa não anda, e outro o fará porque pensou da mesma forma, e o ciclo se repete. Falo de coisas pequenas até, como furar fila no trânsito.
    Mas e agora, quem disse que tenho os culhões pra largar emprego estável, em uma área que está saturada (http://blogdaengenharia.com/entendendo-falta-de-engenheiros-mercado/)? Se tudo der errado só de pensar no trampo de escalar tudo que construí até agora… Seus textos estão sendo uma fonte de reflexão para eu pensar no que quero. Dependendo de para onde vai o país, pode ser inevitável sair.

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