Visitando o Brasil depois de morar no exterior

Moro (sobrevivo) há um ano e meio no exterior. Em um arritmo de saudade e curiosidade, e uma oportunidade única, resolvi visitar a terra que me criou e me fez crescer como pessoa. Encontrei um Brasil igualzinho e ao mesmo tempo diferente.

Visitando o Brasil depois de morar no exterior

Em Belém do Pará, numa área da floresta amazônica

Aconteceu de uma forma engraçada. Sou calmo e controlado mas com algumas coisas eu sou impulsivo. Uma delas é viagem. Quando eu coloquei na cabeça que iria visitar o Brasil, eu passei alguns dias pesquisando e pesquisando passagem. Queria passar o natal e o ano novo com toda a minha família. Só que tinha um problema: conforme os dias foram passando, as viagens foram ficando mais caras, ao contrário do que eu esperava, mas bem de acordo com a experiência que eu já tive anteriormente.

Depois de alguns dias, os meus planos de ir antes do natal foram para as cucuias. Sinceramente, eu não queria pagar 1,500 dólares, o equivalente a R$ 5000, em média. Pra quem conhece o meu blog e a história da minha vida aqui na Suíça, sabe que eu passei dificuldades e agora eu tenho bolsa. Juntei uma grana trabalhando pra poder passar bem o resto do curso e eventualmente visitar o Brasil, mas esse valor é muito pesado. Desisti de ir no natal e encontrei passagens para o dia 29 de dezembro que eram significativamente mais baratas, muito menos da metade do preço.

E a minha visita não teve nada de chocante. Nada. Tudo correu como os conformes, tudo deu certo – o que eu sabia que era arriscado continuou arriscado e assim foi.

Mas teve algo que me impressionou bastante. Eu não deveria ter ficado impressionado, mas talvez eu esteja muito mal-acostumado aqui na Suíça. É a inflação.

Inflação

Meu querido suco de abacaxi com Hortelã passou de R$ 7,00 pra R$ 12,00

Um ano e meio fora do Brasil é o suficiente pros preços subirem tanto? É sim. Eu tenho um critério particular pra isso. Suco. Sou suqueiro, adoro suco de todos os tipos. E gosto muito do Rei do Mate também. Mas vou falar dos sucos em particular: antes de eu ir embora, tomar um suco já era extremamente caros nos restaurantes de São Paulo, e depois eu vi que também é assim nas capitais do Norte do Brasil. Ir no Habibs significava pagar 59 centavos em uma esfiha e cinco reais num suco, sendo que é muito mais fácil fazer um suco do que uma esfiha.

Mas em 2017, eu me assustei com a média de preços de sucos, que cruzavam facilmente os 10 reais. Se antes eu encontrava um simples copo de suco por R$ 7,00, no shopping Tatuapé eles custavam R$ 9,00, R$ 10,00, R$ 12,00. Isso pra mim já é muito. Antes eu já achava um absurdo, agora, mais ainda.

Outras coisas também tiveram o seu preço aumentado demais mas eu já sabia, como os passes de ônibus e metro.

Aqui em Genebra, inflação praticamente não existe. Os preços são os mesmos desde que eu cheguei em Setembro de 2015 e agora que eu estou aqui em Fevereiro de 2017. Mais do que isso, eu visitei a Suíça em Setembro de 2014 e os preços ainda eram os mesmos. O meu critério é o Iogurte do Migros: custa apenas 0,55 francos. Desde aquela época até hoje.

E engraçado saber que as coisas estão assim há um bom tempo. Peguei um jornal de estudantes de 1977 da minha faculdade e eles anunciavam que tinha quartos no centro de Genebra que custavam 400 francos. E ainda hoje você pode encontrar quartos aqui na cidade, para estudantes, que custam 450 francos.

Medo e Pessimismo

Programas como Cidade Alerta vendem violência em troca de audiência

Outra coisa que se fez notar, mas não me surpreendeu: o estado de medo e de pessimismo do Brasileiro em geral. Muita gente reclamando da vida e da economia e da política, e com razão, claro. Eu só não imaginava que isso estaria impregnado de uma forma tão profunda na alma do brasileiro: a sensação de estar na merda. Isso talvez deixou muita gente cega para algumas novidades que estão acontecendo no Brasil e talvez nunca tivessem acontecido antes.

Você já viu prefeito e governadores presos? Políticos sendo investigados e julgados? Quando eu cresci, todos os políticos se livravam de processos e qualquer efeito negativo.

O pessimismo vem de duas desesperanças dos Brasileiros. Aqueles que achavam que a Dilma faria um bom governo, e aqueles que achavam que era só tirar a Dilma que os problemas seriam resolvidos. Tempos depois, o herói de muitos brasileiros, que hoje ninguém mais lembra, foi escorraçado do congresso: Eduardo Cunha.

O medo de violência também é algo recorrente. Aliás, é algo que eu cresci testemunhando. Nasci num bairro chamado Vila Gustavo em São Paulo e era um bairro misto considerado ao mesmo tempo seguro mas com diversas regiões perigosas. Um colega de escola era chefe de uma boca de tráfico e foi assassinado aos 17 anos. Outro colega de escola vive bem, obrigado, até hoje nada lhe aconteceu.

‘Toma cuidado’, foi o que eu mais ouvi quando eu fui visitar o centro de São Paulo. Mas o que eu notei é que muitas vezes esse medo é elevado ao quadrado, muito mais do que realmente merece ser. E esse medo acaba levando a mais violência. Quando fui para Manaus, muita gente me recomendou não ir. Tinha gente que morava lá e não saia de casa. Quando eu cheguei lá, encontrei uma cidade tranquila. Falei com vários moradores e falei com quem entende dos paranauês: os taxistas, que rodam várias regiões. Todos falaram que o medo era muito maior e acabava criando fatos que não existiam.

Por que violência é sexy. Violência vende. Por que programas como Cidade Alerta e Balanço Geral fazem tanto sucesso? Por que pouca gente quer saber de uma boa ação que alguém fez numa comunidade, mas basta ter um assalto que isso já vira capa de notícia. E acabamos tendo uma impressão de que as cidades brasileiras são muito mais violentas do que são.  Como se fosse impossível morar no Rio ou em São Paulo.

Tecnologia

Não vou falar só de coisas negativas. Algumas cidades brasileiras estão se tornando cada vez mais tecnológicas e isso tem acontecido num prazo de menos de dois anos. Em São Paulo peguei um ônibus que tinha wi-fi de qualidade e carregador de celular. E era um ônibus de linha metropolitana, não aqueles ônibus intermunicipais que são mais caros para oferecer mais serviços.

Aqui em Genebra o ônibus não tem nada disso!

Comida

Prato de Tambaqui e Pirarucu em Manaus

Senti uma falta da comida brasileira e entendi por que no Brasil é fácil de engordar. Me desculpem os italianos, franceses, suíços, espanhóis e quiçá portugueses. A comida brasileira é muito boa, em todos os sentidos. A gente pegou tudo de bom que os outros tem e transformou em coisas melhores. E isso foi uma coisa que eu senti falta nesses quase dois anos aqui em Genebra.

Visitei o Brasil, mas não quero voltar a morar lá

Isso tudo o que eu disse não mudou as minhas impressões do Brasil. É um país bom, melhor do que as pessoas imaginam, mas ainda prefiro morar na Suíça, e se tudo der certo, continuo aqui. Aqui penso que se tem menos injustiça e o dinheiro dos impostos (que eu também pago, mesmo sendo imigrante) dá retorno pelo caro preço cobrado.

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