Morando fora – Frente a frente com Dilma

‘A Dilma vem para a Suíça. A Dilma vem para Genebra. A Dilma vem para o Instituto. E você vai debater com ela.’ Tudo parecia normal e andando tranquilamente até eu ouvir essas frases em uma ligação naquela segunda-feira fatídica. Nesse post eu conto um pouco mais das circunstâncias do dia em que eu estive de frente com uma ex-Presidente da República.

Morando fora – Frente a frente com Dilma

Talvez eu deva começar explicando algumas coisas sobre mim novamente. A primeira é que eu estou fazendo um Mestrado em Genebra. Estou no último Semestre. Vim para cá sem grana o suficiente para o curso tudo e consegui segurar a barra com pequenos trabalhos e depois felizmente fui agraciado com uma bolsa. No Brasil eu era concursado, mas larguei tudo por causa do sonho de estudar fora. A história completa você encontra aqui no meu blog em outros posts.

A segunda é que eu não tenho partido e não voto em partido – voto em ideias. A minha linha é de Direitos Humanos por que essa é a área que eu estudo, e é isso que eu defendo.

Feitas essas informações iniciais, vamos voltar um pouco no tempo: como eu já escrevi aqui, com 20 anos eu não tinha nenhum plano e projeto de vida, eu só tinha uma calça jeans e um óculos quebrado, não conseguia arranjar trabalho, não ia no médico há anos e não tinha as mínimas condições financeiras de estudar em uma universidade, mesmo pública. Onze anos depois, eu estou na mesa debatendo com uma ex-presidente da República.

Não que o fato de conhecer a Dilma seja um ponto alto da minha vida – a honra é toda dela na verdade =). E sim a questão de ter um mandatário do seu país e você ser escolhido e reconhecido pra estar lá na mesma posição discutindo com ele. E é um grande ironia para mim, que antes não tinha a mínima perspectiva para o futuro, de ter essa grande oportunidade. E o que é mais irônico é o fato de que eu sempre tive um sonho, talvez projeto de vida. E esse sonho é: ser Presidente da República.

Não que esse fosse o meu único sonho ou projeto e que eu não tenha outros projetos que são incompatíveis com a Presidência – por que eu tenho. Mas digamos que essa ambição foi um dos fatores que me trouxe até Genebra, me fez prestar a USP, entre outras coisas. E lá estava eu: um rapaz com ambições de ser Presidente da República, atualmente eu sou Presidente da Associação dos Estudantes, e ela uma ex-Presidente, amada e odiada por  muitos.

Ironia, coincidência, destino, karma, eu não sei, só que aconteceu: no dia 13 de março de 2017, Dilma veio à minha cidade, à minha escola e eu fui moderador do debate com ela, e chair de um encontro dela com Brasileiros.

Mas vamos aos fatos e falar coisas que vocês provavelmente não vão ler em nenhum outro lugar por que são impressões que eu tive: e eu sou absolutamente observador, costumo tentar perceber detalhes, trejeitos, sinais e coisas pra identificar toda a linguagem que a pessoa quer passar – e a que ela não quer passar.

Dilma Roussef viria inicialmente para o Festival International de Filmes e Forum de Direitos Humanos, que acontece ano a ano em Genebra. Lá ela faria uma palestra de combate a pobreza. Alguns parceiros da minha escola tinham parcerias com os organizadores do evento então logo rolou um convite. Mas a minha escola resolveu me consultar por que algumas semanas antes tiveram controvérsias com outro político que veio ao Instituto, e a Dilma por si só já atrairia polêmicas, amores e ódios. Falei que não achava problemas, mas haveriam protestos – como houve.

E aí rolou o convite para ela vir, faltava definir um tema, e eu sugeri alguns, junto com a comunidade brasileira. Pra minha surpresa, eles também me convidaram para estar no debate. Não pelo fato de eu ser Presidente da Associação dos Estudantes, mas sim por ser uma liderança brasileira e estar fazendo direito. Resolvi não falar que eu estava no debate, por que imaginei que isso ainda não era confirmado e pra evitar arroubos negativos contra mim. Arroubos esses que aconteceram posteriormente, mas não são assunto desse post.

Além disso eu também atuaria, dessa vez na qualidade de representante dos estudantes, para um encontro informal com ela e estudantes brasileiros antes do debate. E por falar em debate, inobstante as nossas sugestões, a própria Dilma escolheu um tema bem aberto: ‘Defendendo Direitos Sociais na América do Sul’. Achei um pouco genérico, um pouco diferente, e tive a impressão, que depois se confirmaria, de que na verdade era pra ser uma grande defesa do governo dela e início da campanha para o ano que vem. E isso também é assunto para outro post, mas já adianto: não gostei nem um pouco disso.

O dia fatídico: conhecendo Roussef

Íntegra do debate com Dilma. Eu apareço aos 00:41:17

Chegou o dia 13 de março e estava um tanto estressado e ansioso, ao mesmo tempo esperançoso. Por que não só eu ia participar do debate como estava ajudando a organizar o evento e o dito encontro informal que disse a vocês. Dilma chegaria por volta de 11h25 na minha escola. Naquele dia eu escolhi a minha melhor roupa. Não pela Dilma, mas sim pela oportunidade.

Dilma chegou sorridente e eu me apresentei pra ela. É estranho conhecer um Político que já foi presidente do seu país. De repente ele se torna humano. Por que a gente só conhece eles pela mídia e transmissões oficiais em geral. E naquele instante muita coisa passou pela minha cabeça, especialmente o fato de que muita gente ou ama ou odeia Dilma. Uns chamam ela de Dilmãe, outros chamam até de ‘Vaca’, como já ouvi anteriormente. Eu não gosto de nenhum dos lados: Dilma teve muitos acertos e fez muitas coisas interessantes, mas fez um governo ruim. Isso não me faz querer ofender ela.

no encontro `informal`

Tive várias oportunidades para falar com Dilma e vou passar as minhas impressões de uma forma neutra. Dilma é uma pessoa extremamente inteligente. É sim. E isso de certa forma contrária uma imagem que uma parte da mídia e da sociedade tenta passar, de que ela é estúpida. Quem aí não viu discursos dela falando da mandioca e de estocar vento? Dilma não é burra. Ela é inteligente, e isso me chocou de uma forma indescritível. Como uma pessoa tão inteligente pode fazer tanta besteira no governo? Dilma cita facilmente livros, desenrola documentários que ela viu, fez menção a Foucault como passa margarina no pão, questiona economistas e seus livros e dá nomes aos bois, e fala com uma propriedade (o que não dizer que tenha razão) enorme.

Dilma é também uma pessoa muito política e consegue falar horas e horas sem perder assunto. O que não significa que fale alguma coisa, e principalmente, que responda o que foi perguntado. Foi o que aconteceu. No encontro com os brasileiros estudantes, Dilma fez um discurso de 20 minutos e tomou quase 10 minutos pra responder cada pergunta, o que deixou muita gente frustrada, inclusive eu, por que imaginava que ela se dedicaria a uma conversa mais informal com alunos. Parecia um pouco uma campanha.

Dilma também é uma pessoa forte e determinada. Para o bem e para o mal. Significa que se uma pessoa cruza o seu caminho ou modo de ser, ela vai reagir de uma forma forte, um pouco ríspida. E foi a experiência que eu tive com ela. Embora ela tenha sido sempre respeitosa comigo, se eu pedi pra ela gentilmente dar a palavra a alguém e dar atenção aos alunos (como dantes combinado), ela me repreendeu e continuou o que estava fazendo.

E Dilma não deixa de ser enviesada. Os alunos brasileiros criaram algumas perguntas excelentes, uma das quais eu tive o prazer de perguntar à ela durante o debate. A famosa Lei Antiterrorismo, sancionada por ela, e que tem a falha de poder enquadrar grupos e movimentos sociais como terroristas. Quando perguntei, Dilma pareceu engolir um sapo e ficou brava.

Uma outra pergunta da comunidade brasileira também veio da plateia, mas Dilma não sabia. E foi um que eu ajudei a colaborar, juntamente com outro estudante que também é um exemplo de superação que veio pro instituto e que tem mais conhecimento da questão indígena. Nada mais, nada menos que Belo Monte e o fato de que muitas comunidades foram desalojadas e outras perderam meios de subsistência, sem falar nas mortes pela questão do agronegócio. Dilma também não gostou da pergunta, e ao invés de responder sobre os direitos sociais dos indígenas, disse que o Brasil não deveria fazer termoelétricas e sim hidrelétricas por que era mais limpo. Posteriormente, a Dilma disse a mim e a outras pessoas que tinha certeza que aquela pergunta foi feita pelo PSTU. Isso demonstra como estava enviesada.

O link para o debate completo você pode encontrar lá em cima. O certo é que nesse dia eu aprendi muito sobre política, responsabilidade, falar em público, e escolha de meias. Isso por que na frente de uma plateia de 700 pessoas, eu me dei conta que tinha escolhido meias curtas demais e se eu mudasse muito de posição ia parecer um caça sapo com a calça do meu terno mostrando as minhas canelas.

Ainda deu tempo de participar de um almoço surpresa com a Dilma, convocado pelo organizador do evento no Festival de Filmes, e que pra minha surpresa me convidou também. Fui solenemente praticamente ignorado, como um mero estudante (que sou) por Dilma. Ironicamente, um estudante que sonha em melhorar o Brasil e mudar justamente muitos dos erros que ela cometeu.

One thought on “Morando fora – Frente a frente com Dilma

  1. Boa matéria, mas Dilma é um personagem da política gerada pela ideologia dos velhos frustrados do passado e contaminada pelo autoritarismo e pelo poder, é motivada por um modelo arcaico de governo de absolutismo, mas com roupagem nova, o modelo é o mesmo o populismo, infelizmente pagamos caro pela aposta do governo petista e seus aliados e alinhados na construção do embrião que caso continua-se seria a nova Venezuela da america do sul e a segunda grande veia boliviana em curso, (o novo bloco econômico da esquerda no mundo) após a queda da URSS, o preço pago nos mostrou que devemos sim tentar mudar mas estar preparados para a frustração, o maior esquema de corrupção do mundo, escândalo aparecem a cada mes e o povo continua sendo mal tratado, pois quando recebe uma camisa, lhes tiram os calçados, quando lhes oferecem o pão , lhes tiram a agua, é lamentável que o Brasil seja uma ilha de pseudodemocracia, contaminada por uma sensação de inutilidade ou de que tudo esta bem mesmo estando mal, a cultura popular tao rica deu lugar a contaminação de subculturas e valores importantes para avida em sociedade estão se perdendo, contudo não se deixa de ser brasileiro mesmo estando em outro pais, ou tendo outra naturalização ou dupla-cidadania, e isso carregamos em nossos corações e mentes a esperança de que um dia tudo possa ser de fato diferente e que sejamos de fato tão grandes quanto nosso tamanho territorial.

    Sou professor de geografia, leciono na rede publica e ( sou brasileiro)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.