Quando nem tudo dá certo – Recusa no PhD

Perto de concluir o meu mestrado, cerca de seis meses antes da entrega da tese, eu resolvi que iria me candidatar ao PhD no mesmo lugar onde eu estudo atualmente. Mas infelizmente não deu certo. Estou triste? Estou desesperado? Não! Leia mais no post.

Quando nem tudo dá certo – Recusa no PhD

Como aqui já disse outras vezes, faço o curso de Mestrado em Direito Internacional no Instituto de Altos Estudos Internacionais e do Desenvolvimento, ou na sigla em francês, IHEID. A gente conhece mais como ‘Graduate Institute’ mesmo, por que é mais fácil falar, e por que passa a ideia de que é uma escola somente para pós-graduação.

Também já expliquei aqui, no link ‘Deixando o Brasil – minha saga’, que eu vim pra cá com pouca grana e tive que me virar pra conseguir sobreviver, até que consegui uma bolsa. Uma bolsa parcial, mas uma bolsa. E isso me salvou. Então o meu projeto principal era terminar o Mestrado e eu consegui. Todos os meus planos A deram certo, embora eu tenha pastado um pouco pra isso. E assim caminha tudo para um ótimo final feliz e tenho certeza que vai ser assim (no momento estou escrevendo a minha tese de mestrado).

Então qual era o próximo passo? Pensar no futuro! No final do terceiro semestre (são quatro), eu tomei uma decisão que não tinha cogitado antes. Me candidatar para o PhD – continuar os estudos na minha área. Ironicamente, o André do passado com certeza me repreenderia por tomar essa decisão. Eu lembro que quando comecei a estudar Direito na USP, nunca cogitei ser professor ou entrar pra vida acadêmica. Durante uma época da minha vida, eu saia com um doutora e a vida dela era uma merda. Mais do que isso, ela tinha um ego enorme e as vezes maltratava pessoas ao seu redor, especialmente a mim, por que se achava superior. Eu não queria ficar daquele jeito. Felizmente os anos se passaram e novas areias na ampulheta me levaram para um Mestrado no Exterior. E culminou que eu gostei tanto da rotina de estudos que resolvi dar continuidade.

Foi até natural a minha decisão de continuar estudando e assim dar continuidade também ao sonho de morar fora, que ainda não se esgotou e não sei se se esgotará. Digo isso por que nunca na minha vida eu me senti tão a vontade como eu me sinto em Genebra. E mais do que isso, eu quero uma vida internacional e uma carreira internacional, então preciso de um pouco mais no exterior, pra depois eventualmente voltar pra tentar a Presidência.

vida de pesquisador

Mas agora eu percebi que se candidatar para o Doutorado não é bolinho não. É muito mais complicado do que parece, mas isso faz jus ao investimento de pelo menos três anos da sua vida. E você não consegue organizar três anos da sua vida em um único dia. O PhD demanda que você tenha um bom projeto, um bom currículo, cartas de referência, certificado de língua, e isso é o básico. Outros demandam exames, entrevistas, certificados específicos, prova de artigos.

No meu caso eu me candidatei no meio do fim do meu Mestrado, logo depois das provas, e isso significa que eu tive pouco tempo para preparar o meu projeto. Ainda assim, eu me dediquei ao máximo durante vários dias a fio, de forma a tornar cada vez melhor. O prazo para os dois Institutos era o seguinte: 15 de janeiro para o Graduate Institute e 20 de fevereiro para Oxford. Foram os únicos que eu tentei até agora, mas em breve eu vou tentar outros.

O meu projeto era sobre direitos humanos, justiça e hierarquia de direito internacional. Posso dizer que eu gosto muito do tema e foi algo que eu sempre estudei, desde a graduação. E não foi difícil fazer o projeto por que eu já conheço muito. Assim foi até natural escrever sobre isso. E quer saber? Foi até bom eu não ter sido escolhido por que apenas semanas depois eu comecei a ver coisas que me interessaram ainda mais.

Em Oxford eu não dei a atenção desejada ao meu plano, e como depois me falaram, por ser uma das universidades mais reconhecidas, e por isso, concorridas do mundo (atual número 1 em vários rankings), é preciso se dedicar muito e as vezes integralmente ao projeto por lá.

Eu estava de certa forma confiante com a minha candidatura (aqui a gente fala aplicação, um neologismo que vem do Inglês por ‘apply’), por que o meu professor disse que meu projeto estava bom. Mas nunca me enganei muito: sabia das chances de não ser aceito.

E assim esperei 8 semanas até saber os resultados, na mesma semana em que eu debati com a Dilma no Instituto (veja no post aqui).

Recusado, mas confiante

Foto do dia em que eu recebi a Dilma no Instituto. Ps: não sou Dilmês e nem apoiador dela, sou neutro.

No dia 17 de março eu enfim recebi a notícia que tanto aguardava. Mas foi negativa. Fui recusado no Doutorado do Graduate Institute. Fiquei um pouco triste, apenas no começo. E no dia seguinte, mais uma negativa, dessa vez de Oxford. Pronto! Meu mundo desabou? Que nada. Foram apenas dois baques. A notícia em si não me deixou triste. Eu até me sinto super confiante para o futuro. O que me preocupa um pouco é a falta de estabilidade.

Sim, por que agora eu não tenho estabilidade em Genebra mais. Significa que, para ficar aqui, eu tenho que arranjar um trabalho, algo super difícil mesmo pra quem tem cidadania Europeia. E eu não tenho. Então as chances são muito grandes de eu, ou voltar pro Brasil – o que não quero, ou ir para outro país, que é o que eu acho que vai acontecer.

E com isso eu explico um pouco como funciona o Mestrado na Suíça, só que de uma forma em Geral. Por que cada Uni e cada cantão tem algumas regras secundárias que podem influenciar, mas no geral elas são bem semelhantes. Como não europeu, durante o curso nós podemos trabalhar apenas 15 horas por semana, e durante as férias, não há limite de horas. Assim, no verão daqui eu trabalhei algumas vezes 50 horas em uma semana e isso me ajudou a juntar uma grana pra ficar aqui. Então eu vou entregar a minha tese em 15 de junho, mas sou considerado aluno até 15 de setembro – período no qual eu posso trabalhar de forma integral.

Após o Mestrado, eu posso ficar mais seis meses aqui procurando trabalho, mas para isso eu tenho que pedir uma extensão do meu visto, e comprovar: que eu tenho lugar pra ficar e como me manter. E isso não é fácil. Mas virou meu plano de fundo – se eu não for aceito em nenhum outro doutorado, é o que eu vou tentar.

Como eu disse, não estou triste, mas levemente preocupado, e isso toma um pouco do meu tempo útil por que agora eu tenho que não só procurar emprego como me candidatar a outros doutorados, o que não dá pra fazer em um dia. Mas há ‘males’ que vem para bem, se é que eu posso chamar isso de mal.

Por que depois de começar o semestre, eu comecei a me interessar por algumas matérias de desenvolvimento e relações internacionais. E como eu disse, um dia eu sonho poder mudar o Brasil pra melhor, e eu com certeza preciso saber sobre isso. Acabei me apaixonando mais ainda pela ideia e depois tive vontade de mudar o meu tema e o meu foco para essas áreas coligadas com o Direito. Então, talvez eu mudasse o meu projeto, e agora eu tenho a oportunidade de fazê-lo com mais liberdade do que se tivesse sido aceito.

Mais do que isso, para a carreira de Direito e outras carreiras que são internacionais, como as que eu falei, é sempre recomendável a mobilidade nos cursos superiores. E aí eu vou tentar outras universidades.

Claro, sendo uma pessoa ansiosa, eu não consegui ficar parado. Já pesquisei e achei nada menos do que 40 cursos e faculdades que posso aplicar. E aí, o tempo dirá. Até mais!

3 thoughts on “Quando nem tudo dá certo – Recusa no PhD

  1. Olá André, tudo bem? Estou no 3º ano do doutorado em Sociologia aqui na Inglaterra e queria compartilhar uma dica contigo. Não sei exatamente como você procedeu com suas applications, mas diria que se você seguiu a rota, digamos, convencional, das universidades, realmente suas chances de sucesso diminuem consideravelmente por conta da grande competição (sobretudo em universidades de ponta com Oxford e similares) com alunos do mundo inteiro. O que funciona com maior efetividade é que, bem antes de submeter suas applications, você pesquise nos programas alinhados com sua área quais docentes desenvolvem pesquisas com algum grau de sinergia com seu interesse de pesquisa. Quanto maior a sinergia melhor pra você, é claro.

    Feito este mapeamento, faça contato diretamente com o(a) professor(a). Não se acanhe não e mande ver numa boa. Alguns são bem gentis e vão te dar devolutivas muito boas (horas com dicas para aprimorar o seu projeto, horas com incentivo, etc.) e outros vão te ignorar. Isso é parte do jogo e não leve para o lado pessoal. Às vezes pode ser que a pessoa recebe tantas mensagens vindas de tudo quanto é lado que acaba ignorando algumas mesmo. Mas, enfim, nesta abordagem, explique brevemente o seu background, que você tem determinada ideia para um doutorado e gostaria de saber se ele(a) estaria interressando/disposto/disponível para te orientar caso você ‘aplique’ para o programa. Dependendo da receptividade que você receber do(a) docente, é provável que vocês venham a trocar mais alguns pares de mensagens até chegarem a uma convergência. Se a convergência for positiva, este(a) docente irá dizer para você prosseguir com seu application.

    E onde está o puldo do gato nesta dica que estou compartilhando contigo? Você não está burlando regra alguma e nem aplicando ‘jeitinho’. O que acontece é que esta pessoa será o(a) seu defensor(a) no painel que discute as applications já que demonstrou interesse em te orientar, você compreendeu? Quando você segue simplesmente o que eu chamei no início de ‘caminhos convencionais’ quando sua application chega no painel a única coisa que eles tem para analisar serão as letras frias de seus documentos. Por outro lado, se alguém ali já sabe quem você é e o que você pretende, sua application já se destaca um pouquinho na multidão. Naturalmente que não se trata de uma regra infalível, pois outras variáveis também entram no cômputo final (currículo, publicações, nível de proficiência em inglês, etc.). Mas, pelo menos eleva consideravelmente as suas chances.

    Ah, e outra dica de extrema importância também. Não se deixe levar/encantar unicamente pelo nome de elevado prestígio da universidade como um todo. É claro que um diploma por Oxford, Cambridge, Yale, Harvard, etc. fala por si só. Não há dúvidas. Contudo, existem inúmeros casos, onde alguns dos programas mais fortes ou de maior prestígio junto aos seus pares está em uma universidade de brilho não tão reluzente como estas, mas ainda assim são de excelente nível. Ou também pode acontecer que o(a) ‘mosca branca’ de sua área não leciona nas universidades da Ive League, mas sim na universidade XPTO. Portanto, amplie seu leque de pesquisa por programas e tenha a mente bem aberta, ok.

    Enfim, espero ter contribuído. Se quiser dialogar mais a respeito, fique à vontade pra me contatar, ok.

  2. Olá, André! Tudo bom? Gostei muito dos seus posts. Acabei de me formar em Direito, mas sempre gostei da área de Internacional em geral, principalmente desenvolvimento. Fiz um intercâmbio de Internacional Público em Lisboa e desde então quero muito morar fora de novo. Quero tentar o mestrado no Instituto. Você poderia me ajudar com algumas informações sobre o processo seletivo, por favor? Aguardo uma resposta. Boa sorte aí nos doutorados! Vai dar tudo certo. 🙂

    Rafaela

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