Conhecendo o Azerbaijão

Não acredito em destino, mas é certo que um número interessante de fatores me levou à região do Cáucaso e conhecer um dos país mais peculiares do mundo. O Azerbaijão! Saiba mais sobre esse país, conhecido desde a antiguidade como a terra do fogo, e o porquê do apelido!

 

Conhecendo o Azerbaijão

Parte 1: Como fui parar lá no Azerbaijão.

Eu e os colegas no templo de Fogo, Atesgah, Azerbaijão.

Pra muita gente, como eu até um tempo atrás, o Azerbaijão é aquele país que quando você joga ‘STOP’ e vem a letra ‘A’, você coloca no campo do país e é certeza que vai ganhar mais pontos. Ou quando alguém pergunta para você, países que começam com a letra ‘A’. Ou até mesmo quando você quer falar um país exótico e distante: vai para o Azerbaijão!

Pois é, O Azerbaijão era um país exótico e distante pra mim até há pouco tempo atrás. Era, por que em Julho de 2017, uma série de fatores colaborou para que eu pudesse visitar o Azerbaijão. Melhor ainda por que pude conhecer não só a capital, como o interior e outras províncias Azeris (adjetivo do que mora ou pertence ao Azerbaijão), e pontos turísticos importantes. Tudo isso sem gastar nenhum centavo. Hotel, alimentação, transporte, tudo incluso, por eu ter sido escolhido para participar.

É Julho de 2017 e eu estava pra lá de triste. Uma tristeza situacional e relativa, por que no fundo dela eu estava feliz. Tinha acabado de entregar a minha tese de Mestrado e estava apenas aguardando o resultado, a nota, com a certeza que passaria. Pra quem não conhece a minha história, saiba que vir e ficar em Genebra foi um parto. Por isso o diploma é um feito e tanto, e por isso estou muito feliz. Mas a tristeza vem do fato de que eu não conseguia emprego ou estágio algum, e eu queria me manter em Genebra.

Nessas condições eu nunca teria chances de visitar o Azerbaijão durante 11 dias, como fiz, simplesmente por falta de grana ou por outras opções. Foi quando a minha Universidade falou de um certo projeto Aladin, que é um projeto independente com suporte da UNESCO e Comissão Europeia e que tem como objetivos combater o racismo, judeofobia, islamofobia e o negacionismo do Holocausto, além de promover bons relacionamentos entre culturas e religiões. Todo ano eles tem um ‘Summer University’, e a desse ano foi sobre multiculturalismo no Azerbaijão, em parceria com o governo do Azerbaijão.

Competi com outras cinco pessoas pela vaga, mas inicialmente sabia que não seria chamado, como não fui, pelo fato de eu ter acabado o curso e eles darem preferência para quem está cursando ainda. Entre os critérios, está o de ser um líder de alguma comunidade ou escola, e eu era o líder dos alunos da minha escola. Mas não fui chamado inicialmente. Aí entrou outro fator, o de a pessoa que tinha sido chamada antes de mim começar um trabalho e não poder mais ir. Eu era o próximo na linha de escolha e falei, vamos lá!

Se eu não estivesse em Genebra, desempregado e até quase desesperado, não tivesse sido Presidente da associação dos alunos e se a pessoa escolhida não tivesse sido contratada, talvez eu nunca, na minha vida, tivesse visitado o Azerbaijão! Mas foi assim que tudo aconteceu. Eu viajei para o Azerbaijão no dia 22 de Julho de 2017 e voltei dia 31 de Julho do mesmo ano. E a partir de agora você acompanha a série das minhas conhecenças Azeris.

Esse post é uma introdução, e serve para explicar um pouco o que é o Azerbaijão.

Parte 2: o Azerbaijão é logo ali.

O Azerbaijão é um país que fica no começo (ou no fim) da Ásia e da Europa. Pra mim é muito difícil conseguir colocar o Azerbaijão tanto como um país Europeu como um país do Oriente Médio. Eu prefiro falar que é um país da região do Cáucaso, que tem uma história peculiar e costumes próprios, apesar de diversas semelhanças com outros países. Fazem parte também a Armênia e a Geórgia. Essa região está sob constante influência de três grandes mundos: além da Europa e Oriente Médio, a Rússia.

A orla do Mar Cáspio em Baku

Além disso o Azerbaijão é influenciado de várias formas e influencia o Mar Cáspio  (Xəzər dənizi), que é o maior corpo fechado de água do mundo e considerado o maior ‘Lago’ do mundo também.

A história do Azerbaijão é ligada com alguns dos maiores impérios do mundo, tendo sido parte da Suméria, dos Medos e dos Persas, dos Helênicos (conquistados por Alexandre o Grande), Romanos, Pártias (Iranianos/Persas), os Califas Muçulmanos, os Mongois, os Xás Shirvan, Otomanos, Rússia e União Soviética, até a sua independência atual, em 1991, com o fim da URSS.

os Xás do Azerbaijão, no Palácio de Shirvan

Por isso a cultura Azeri é uma das mais diversificadas do mundo. O Alfabeto, por exemplo, é um misto do cirílico (Russo), com o alfabeto ocidental (derivado do Romano), com uma língua de origem turca e palavras persas, árabes e gregas. O Azerbaijão é um país com maioria muçulmana, mas diferente do seu vizinho logo mais ao sul (Irã), é uma república secular, em que a religião é separada do governo. Além dos muçulmanos, cristãos ortodoxos e judeus são grupos significantes também.

No Ocidente muita gente tem preconceito com muçulmanos, e mais especialmente no Brasil, pouco se sabe sobre estes países, até por que a imigração de seguidores do Corão é irrisória quando comparada com os Estados Unidos e Europa. O Azerbaijão, sendo um país de maioria muçulmana, muita gente sem senso crítico imagina que vamos encontrar pessoas de burca e andando pelo deserto em um cenário destruído. Ou pessoas barbudas de turbante e com uma AK-47.

Um mercado na província Gakh

Mas não é bem assim. Arrisco dizer que o Azerbaijão é em certos pontos mais desenvolvido que o Brasil, e muito mais seguro. Os serviços públicos funcionam muito bem e são limpos e organizados. E pouco se vê de prédios destruídos ou mal-tratados. As pessoas na ruas são respeitosas e cordiais. Existem sim, pessoas usando burca ou véu, mas elas são a minoria e a maioria delas são turistas do Irã e do Iraque, ou de outros países muçulmanos.

Pelo contrário, os Azeris são bem mais liberais e se aproximam das culturas Europeias e Russas nesse sentido. Muitos bebem cerveja e comem carne de porco e a experiência que eu tive foi que as pessoas não se intrometem muito na questão religiosa.

A terra do fogo e a riqueza do Petróleo

Uma das grandes razões dessa riqueza e desenvoltura do Azerbaijão vem do Petróleo e do Gás. Isso explica como eles tem uma economia que pouco sofreu com a recessão de 2008. Para se ter uma ideia, lá pelos idos de 2004 a 2007 o país chegou a crescer mais de 40% em um trimestre, e isso quando falamos do crescimento chinês como algo impressionante. Agora você já pode falar pra sua família que em 2005, por exemplo, o Azerbaijão foi o país que mais cresceu no mundo.

O fato é que o Azerbaijão tem grandes reservas de petróleo e enquanto esse recurso estiver em alta, o Azerbaijão vai estar em alta. Mas eles sabem que se trata de uma commodity limitada e o governo está iniciando a transição para promover diversidade econômica, e entre as alternativas, o turismo.

A presença de gás no Azerbaijão sempre foi um aspecto marcante, desde a antiguidade. Em muitas localidades, línguas de fogo simplesmente subiam de alguma rachadura na terra, e os povos da idade do bronze e posterior acreditavam nos poderes mágicos e divindades relacionadas ao fogo. Os Zoroastras foram alguns dos primeiros.  Existem vários templos do fogo no Azerbaijão e inclusive eu visitei um deles. As línguas de fogo são oriundas de depósitos de petróleo ou mais especificamente, de gás, abundante em certas áreas. Inclusive, ‘Azer’ é a palavra turca para ‘fogo’.

Em muitos lugares do Azerbaijão é possível encontrar as três chamas, que é o símbolo nacional. As ‘flame towers’, ou torres de fogo, são um dos cartões postais da capital, Baku. Elas foram construídas em 2007-2012 e durante a noite são iluminadas por mais de 10.000 lâmpadas LED.

Mas não é só por isso que o Azerbaijão é conhecido, mas também pelos tapetes (eles tem um museu só para isso), o trabalho do bronze, os chás, as sedas. Inclusive, quando eu falar da região de Sheki, eu explico mais sobre o comércio com a Rota da Seda vinda da China e os costumes Azeris.

A influência soviética você vê nos edifícios e especialmente nos carros. Eu encontrei Ladas, Moskvitz e Zaporozhets, não muitos na capital Baku, mas em outras regiões eles são maioria. 

E pra finalizar, o que comem os Azeris? A dieta do Azerbaijão é regada a carne, muita carne, especialmente de carneiro e de frango. Eles comem muito kebab, kafta, que são carnes normalmente assadas em forno a lenha. Todas a refeições que eu tive tinham carne. Além disso, eles comem muita melancia, também em todas a refeições, antes e depois. Eles consideram a melancia como uma espécie de suco. Também não pode faltar pepino, tomate, que são oferecidos frescos ou também tostados. Eles oferecem um queijo meio ácido, com um gosto parecido com a nossa ricota. E não tem sobremesa. Uma coisa que eu senti falta foi a sobremesa.

Foto: Karina Bogda

Eu gostei do Azerbaijão? Sim, deveras, mais do que eu imaginava. E o melhor de tudo foi que visitei lugares que talvez eu nunca visitaria se tivesse tempo e oportunidade. Por isso, quase tudo foi uma grata surpresa. Fique comigo aqui no blog e no próximo post eu falo sobre a capital: Baku!

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