Um Brasileiro na ilha de Java (Indonésia)

A minha única referência da ilha de Java era um conto de Lima Barreto, em 1911: ‘O homem que sabia Javanês’. Nunca imaginei que um dia estaria aqui. Pelas circunstâncias do tempo e espaço, cá estou na Indonésia, na Ilha de Java, e falando algumas palavras em Javanês. Sugeng Rawuh!

 

Visitando ilha de Java (Indonésia) – Memórias I

Lima Barreto um dia escreveu sobre a história fictícia de um homem que sabia falar Javanês. Um conto curto, interessante, e que de certa forma explica muito do Brasil ainda hoje em dia. Foi escrito em 1911. Você encontra o link aqui:

O homem que sabia Javanês e outras histórias, por Lima Barreto.

Vou contar um pouco da história (spoiler alert!), sobre o Castelo, um homem que, vislumbrando o sucesso fácil, aprendeu meia dúzia de palavras em Javanês e se passou por Professor, vez que imaginou ele, acertadamente, que a vaga do ensinante teria quase ou nenhum concorrência.

No conto, Castelo nos diz que o Javanês é escrito com caracteres derivados do velho alfabeto hindu – o sânscrito. Hoje isso mudou, e eles usam o nosso alfabeto ocidental. Hoje, assim, e muito mais fácil aprender javanês, embora quase ou nenhum lusófono o faça, simplesmente por que os pontos de contato são baixíssimos. Embora haja 70 milhões de falantes do Javanês, a língua dos negócios é hoje o Inglês, ou mais vale ao lusófono aprender o Bahasa Indonésio, que é a língua nacional. De certo, o Javanês é mais uma língua falada do que escrita – todas as publicações oficiais, propagandas, etc, são em Bahasa.

Quando Castelo está ‘aprendendo’ Javanês, por meio do alfabeto Sânscrito, ele retorna a pergunta do dono da pensão onde ele mora e não paga (como todas as outras, por que está miserável), que o Javanês é uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Isso é verdade por que o Timor é uma ilha da Indonésia, e fica relativamente perto de Java (comparado com o Brasil). Relativamente por que demora 3 horas de vôo de Jakarta para Kupang, que fica na banda ocidental de Timor. Como se sabe, hoje o Timor Leste é uma nação independente e lusófona, e foi uma colônia de Portugal até 1975. Eis a razão das conexões linguísticas.

Leia o conto, é interessante!

Como eu vim parar na ilha de Java?

O Monte Bromo é um dos cartões postais da Ilha de Java

Sou provavelmente um dos únicos brasileiros aqui por essas bandas: estou em Surabaya, capital da província de Java Oriental. Uma cidade com três milhões de habitantes. E dentre estes habitantes, uma moça que por acaso foi a Genebra estudar direito internacional.

A história completa fica pra depois. Em um resumo bem simplificado, eu era Presidente da Associação dos Estudantes do Instituto onde estudava e estava organizando o mês de recepção dos calouros, então eu acabei conhecendo muita gente em um intervalo muito pequeno de um mês. Conheci ela em Setembro e pra lá de Dezembro eu estava namorando com ela. Hoje, um ano depois, estou conhecendo a família dela. E vamos para um casamento típico javanês de uma amiga.

Sendo o único brasileiro aqui nessa área, eu chamo a atenção por onde passo. Eles chamam os estrangeiros de Bule, que é um termo que designa ‘brancos’, mas hoje vale para todos os estrangeiros. As vezes é utilizado de forma pejorativa, tal como muita gente imagina que todo gringo é cheio da grana. Mas eu pareço meio árabe. Eles acham que eu sou árabe. Em cinco dias aqui nessa cidade eu não vi mais nenhum estrangeiro, isso explica a surpresa deles.

Java: Um caos organizado

Quatro e meia da manhã. As mesquitas da cidade fazem retumbar as caixas de som com cânticos islâmicos. É o chamado para a primeira reza dos dias. Os muçulmanos fazem cinco preces por dia, e essa é a primeira. O canto dura cerca de meia hora. A população da Indonésia é 90% Muçulmana, e o restante é dividido entre católicos, protestantes, hinduístas e budistas. Na Indonésia, as pessoas não podem não ter religião: está na identidade. Na realidade, porém, muitas pessoas simplesmente não praticam.

As maiores cidades da Indonésia são Jakarta e Surabaya e elas são bem parecidas em alguns termos com São Paulo, Rio e outras capitais do Brasil – uma bagunça organizada. O trânsito é caótico e funciona de uma forma que as pessoas quase não vão andando para o destino. Existem milhões de motos pelas ruas e boa parte delas são mototaxis. Cruzar a rua é uma arte dos locais. Mas todo mundo sabe como funciona e se vira muito bem. Não existem faixas de pedestres e são poucos os cruzamentos sobre as ruas.

Mas as ruas da Indonésia são um charme. Aqui em Surabaya os bairros são divididos em comunidades de ruas estreitas e milhares de casas, as ruas pintadas e coloridas, plantas. A família e a comunidade são muito importante para os Indonésia.

A cozinha Indonésia é extremamente variada e é uma das melhores partes da viagem. Só por isso já vale a pena vir. A mais conhecida das iguarias é o Nasi Goreng. Basicamente, arroz frito, mas acompanha, por exemplo, frango (ayam). Muitas sopas (Sup), Soto, entre outras. Aliás, a culinária leva bastante óleo e especiarias. Apesar do óleo, os Indonésios são em geral magros, mesmo depois de envelhecer. Alguns dos meus quitutes favoritos são o tempeh, que é um bolinho de soja fermentada, o Rendang, que é um prato de carne assada,

Um dos itens mais comuns é o Kerupuk. A minha namorada falou que era uma iguaria antiga típica da Indonésia. Provei uma vez e comecei a rir. É tipo um biscoito de polvilho com aroma de peixe frito, ou frango, ou camarão. E vem da nossa querida farinha de tapioca. Acho que ela vai gostar do Brasil.

O Bubur é um delicioso mingal com leite de coco e bolas de tapioca envoltas em açucar mascavo de Java e especiarias. Na tela, os espetos são o Satai, e o pote com gelo e gelatina verde é uma bebida derivada de coco: Es Dawet

 

Iga Penyet, carne de vaca temperada e arroz.

 

A língua

O Javanês em si é uma língua que tem poucas inflexões do português. Mas o Bahasa tem várias palavras da terrinha e eu me surpreendi. Kéju é o nosso Queijo. Boneka, Bola, Tinta. Banku. Sekola é a nossa escola. Talvez aprender o dialeto não seja tão difícil. Já sei que em Javanês Matur Nuwul é obrigado e Sami-Sami é de nada.

Sugeng Rawuh: seja bem vindo!

O resto fica pra outro post: vou visitar Yogiyakarta.

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