Jogjakarta: a capital cultural da Indonésia

Se Jakarta é a capital de fato e de direito, Jogjakarta é a capital cultural da Indonésia. É lá onde se encontram alguns dos principais centros espirituais, inclusive o maior templo hindu do país (Prambanan) e o maior templo budista do mundo (Borobudur).

Jogjakarta – A capital cultural da Indonésia

 

Uma cidade pra se prosperar. É esse o significado de ‘Jogja’ ou ‘Yogya’ e ‘Karta’, um lugar habitado há mais de 1200 anos e que por suas peculiaridades, é uma região especial da Indonésia com maior autonomia e prerrogativas. Dentre elas, a de ter um sultão, ao invés de um governador eleito pelo povo.

Jogja, como é carinhosamente chamada, fica cerca de 440 km de Jakarta (a capital da Indonésia), na ilha de Java. Lá também se fala Javanês. A cidade é conhecida como a capital cultural da Indonésia e não é por menos: dois dos maiores templos budista e hindu estão lá, além de ser um centro de produção de arte batik, do teatro de marionetes (Wayang Kulit), e educação

Normalmente o brasileiro e os estrangeiros em geral só sabem falar de duas cidades na Indonésia: Jakarta e Bali. Mal sabem que logo ali, na mesma região, existe essa cidade que tem tanta coisa pra ver e fazer que duas semanas são insuficientes. As duas principais atrações são os templos de Prambanan e o templo de Borobudur, ambos reconhecidos como patrimônio histórico e cultural da humanidade.

Mas antes de falar dos templos vamos falar um pouco da cidade. É facilmente acessível via transporte de alta velocidade, seja avião ou trem vindo de Jakarta. O voo demora cerca de 50 minutos da capital ou 2h30 de Denpasar, enquanto pela linha ferroviária demora de 7h a 12 vindo de Jakarta, ou cerca de 5h vindo de Surabaia (de onde eu vim).

Jogja, como a maior parte da Indonésia, tem uma maioria Muçulmana. No país, as religiões Hindu e Budista, além da cultura Javanesa influenciaram bastante a religião, mas aqui é especialmente peculiar a forma como se deu o sincretismo. Mais pessoas usam as roupas com motivos de batik (técnica especial javanesa), e o uso do Javanes durante rituais religiosos.

A cidade também é conhecida pelos seus doces e gostos peculiares, como o Curry de Jaca mole. E sim, eu provei e não é ruim! O Gudeg, por sua vez, é um doce feito de Jaca dura (Durian) cozido com açucar e leite de coco. O Leker é uma espécie de pastel ou panqueca, normalmente recheado com chocolate, acompanhado de banana. Mas eles também podem misturar queijo com chocolate (o que é uma iguaria para os Indonesios)

Mas vamos direto às atrações de Jogjakarta: eu visitei 4 grandes atrações e algumas outras pequenas pelo caminho. Eu a minha recém esposa fizemos a nossa pequena lua-de-mel lá (havíamos nos casados apenas dois dias antes) e contratamos um motorista particular pra levar a gente pros lugares. O carro estava planejado para cinco pessoas mas um conhecido meu que iria pra Jogjakarta resolver não ir na última hora. Ainda assim, foi muito barato com relação ao que a gente ia gastar de outros transportes: US$ 70.

 

Uma coisa que se deve considerar é que os templos e atrações são distantes entre si. O Borobudur, por exemplo, fica pelo menos duas horas de distância da cidade.

O templo de Borobudur

É o maior templo Budista do mundo, construído no século 9, quando da grande influência das religiões e culturas indianas na Indonésia, especialmente na ilha de Java. O templo teria sido ‘redescoberto’ no século XIX por um inglês, mas eu duvido que o Sultão local não sabia de um lugar tão grande assim nos registros. Dizem que estava coberto de cinzas do vulcão próximo e pela floresta.

O nosso plano era acordar as 3h30 da manhã e partir as 4h pra pegar o nascer do sol na colina perto de Borobudur (que também faz parte do complexo). Chegamos lá na hora exata, 6h30, mas com um pequeno porém: o dia estava nublado. A época das chuvas na Indonésia começa em Setembro já, embora seja insignificante quando comparado com os meses de novembro, dezembro e janeiro.

Vi um misero raio de sol. Ainda assim, a uma bela cena.

 

Sem problemas! Aproveitamos a presença de um balanço lá pra passar o tempo até irmos para o templo em si mesmo:

No caminho, passamos por uma igreja em formato de galinha, de onde também há uma bela vista da região das colinas em Borobudur. A igreja por si só não é tão interessante. Ela foi construída na década de 1980 por um local que disse ter uma visão.

A entrada para o Candi (fala-se chandi, o que significa templo) era um pouco salgada para quem era estrangeiro: cerca de 25 dólares.

O templo de Borobudur, como vocês podem ver abaixo, é uma estrutura gigantesca:

Ele contém 504 estátuas do buda, muitas das quais tiveram a cabeça retirada para ser vendida no mercado negro, ou por colecionadores, ou vândalos. Além disso, são mais de 2700 esculturas em alto relevo, muitas delas contando histórias inteiras.

As estátuas dos Budas estão cobertas por estruturas que parecem sinos, como podem ver por uma das fotos acima. Isso não impediu as pessoas de roubarem partes das estátuas mesmo dentro das estruturas. Bom, ainda assim a vista do templo, por fora e por dentro, é muito bonita. O que incomoda é o número muito grande de turistas, muitos deles desrespeitosos com a construção, sentando no pé das estátuas, desgastando as pinturas que ainda restam e tirando selfies em lugares perigosos.

Nota: ao entrar no templo somos requisitados a usar um sarong, em respeito às tradições budistas do local. O Sarong é uma espécie de ‘saia’, se é que assim se possa dizer, pra utilizar por cima das vestimentas que não cubram o joelho. O templo é um patrimônio histórico e cultural reconhecido pela UNESCO e está em constante restauro. Durante os meses de Maio ou Junho, na Lua Cheia, todos os anos os budistas comemoram o Wesak no templo.

Mendut

Não muito longe dali, existe o templo de Mendut. Ele foi construído na mesma era e contém em seu interior três estátuas do Buda, representando a libertação do Karma. A foto abaixo é a do Buda Vajraparani, conduzindo ao alívio do karma do pensamento.

Historiadores e arqueólogos acreditam que o Mendut está conectado com o Borobudur, por que há uma linha reta com dois outros templos budistas até o complexo. A tese mais aceita é que haveria uma peregrinação desde que passava pelos quatro templos.

 

Prambanan

O Prambanan é um templo hinduísta, o maior da Indonésia. Também eleito como um patrimônio histórico e cultural, o templo também foi construído na mesma época do Borobudur (século IX), e também abandonado depois de algum tempo. A diferença é que os Javaneses sempre souberam e visitaram o local durante os séculos, ao contrário do Borobudur, cuja existência era mais no imaginário do que na realidade das pessoas. Também por que o Prambanan fica muito mais perto da cidade.

Talvez dizer o templo Prambanan não está correto: é uma série de templos, todos parecidos mas ao mesmo tempo diferentes. Muitos deles estão parcialmente destruídos ou de todo derrubados em virtude dos frequentes terremotos em Jogjakarta (um dos motivos dos abandonos dos templos pelas cortes locais na idade média).

Os templos foram escavados das ruínas e das cinzas nos séculos XIX e XX, e a forma como foi feita a descoberta gradual facilitou o contrabando e roubo de peças originais. Por causa disso e da dificuldade de se estabelecer como era a estrutura original, muitos templos contém apenas as bases e as pedras desmontadas.

Os templos são cada qual dedicado a uma divindade diferente, como Garuda, Brahma, Vishnu  e Shiva, sendo o maior, ao centro, dedicado à ultima que é a deusa/deus da destruição / renovação. Todos eles contém esculturas em relevo e alguns contém estátuas em seu interior.

O Prambanan é um templo belíssimo! Infelizmente, também tem muitos turistas por ser um dos mais famosos. Infelizmente, também é carinho: US$ 20,00 de entrada, sendo que não tem tanta coisa pra ver. Vale a pena sim, muito, mas eu gostei um pouco mais do Borobodur.

 

Kraton – Os palácios do Sultão

Como eu falei lá em cima, Jogja é um Sultanato – o único da Indonésia, e tem tido um Sultão há pelo menos 250 anos, e antes disso, uma figura parecida com um rei, mas seguindo prenúncios e nomenclaturas budistas. O complexo de palácios do Sultão é chamado de Kraton. E ele ainda vive lá. Pra manter toda a estrutura, o local emprega pelo menos 1.000 pessoas, e todas elas vivem no complexo.

A arquitetura é uma mistura do estilo Javanês, por fora, com escritos na língua javanesa em alfabeto sânscrito, como era originalmente, e ocidental, especialmente por dentro. Máscaras representando demônios estão próximas a entradas e portas, significando que você deve deixar os seus pecados, os seus demônios do lado de fora. Ornamentos de dragões são encontrados pra lá e pra cá, mas eu não sei significado deles.

O Kraton é mais um local pra se visitar e conhecer as histórias do que tirar fotos. Não existem áreas muito fotogênicas. Uma das histórias que me contaram foi a de que os sultões tinham mais de 4 esposas antigamente, e o atual tem apenas uma. Um deles tinha mais do que 48. Na foto abaixo, podemos ver a área de banho do sultão, que fica perto da área de banho de suas esposas. Durante a noite, de dentro do quarto, o Sultão jogava uma rosa para as donzelas, e a que conseguir pegar, depois de muito estapeamento, ‘ganhava’ o direito de dormir com ele aquela noite.

O Palácio contém uma galeria com uma mesquita circular dentro dela, além de estruturas burocráticas e de reza para as as diferentes religiões da Indonésia. Você encontra por aí e por aqui funcionários públicos vestidos com roupas típicas javanesas, mais do que em outros lugares.

A estrutura do palácio contém também diversas casas e vendas dos locais. Muitas dessas casas são ateliers de produção de arte, especialmente Batik, uma técnica especial de uso de cera pra pintar e texturizar panos e roupas. Como as que sê abaixo:

O Palácio é um lugar interessante e vale a visita. Inexiste local como esse no mundo, talvez apenas em Brunei. O lado ruim: os vendedores MUITO insistentes de quinquilharias na parte exterior, eles querem te empurrar e forçar a comprar.

Uma parte substancial do palácio também foi destruída pelo grande terremoto que abalou Jogja em 2006.

Colina Breksi

A Colina Breksi é um parque que fica perto de Prambanan. O lugar foi recentemente descoberto por um grupo de estudantes que faziam pesquisa numa pedreira. Por isso você quase não encontra informações sobre como chegar lá. Na parte de baixo existe uma espécie de teatro. Existem alguns restaurantes e carros de comida com quitutes indonésios muito bons.

A colina é um excelente lugar pra tirar fotos de Jogjakarta. Muitos casais vão fazer o book pré-casamento lá, pela paisagem pitoresca. Mas como eu disse, naqueles dias estava nublado e não era tão bonito quanto poderia ser. Não deixei de ser atraente.

Como vocês podem ver pela foto acima, uma das paredes foi esculpida com relevos javaneses. Outro ponto interessante é que guias locais mantém corujas na escadaria da colina e os turistas podem tirar fotos. Apenas eu não sei se as corujas são bem tratadas.

A vista de cima da colina:

O dia já começava a terminar e a gente decidiu ir para um último templo e ver o pôr-do-sol. E fomos para o Candi Ijo, ou templo verde hinduísta, que não ficava muito distante dali. Outro que foi construído há mais de 1000 anos e cujas estruturas estão parcialmente destruídas. Mas não deixa de ser interessante e belo visitar! A entrada também é paga, mas é bem mais barato do que os outros: cerca de US$ 1,00.

Mas, se você tiver tempo limitado, não acredito que tanto a colina como o templo verde sejam lugares que você deva visitar. Existem opções melhores!

 

 

Bom é isso aí, eu visitei Jogjakarta e gostei bastante da cidade. É uma pena, nós não tivemos tempo de visitar outros lugares mas certamente vamos voltar.

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