Por quê casei com uma estrangeira – A história, pt. 1

Comecei a escrever esse blog há dois anos e meio contando os meus planos de começar a morar no exterior. O tempo passou rápido, e certamente para a surpresa do meu eu do passado, que nunca imaginava casar e não queria casar tão cedo, amarrei os meu cadarços com a minha companheira. Leia aqui um dos poucos relatos de um brasileiro que casou com uma estrangeira. Ainda mais uma Indonésia.

Por quê casei com uma estrangeira – A história – pt.1

Prólogo: provavelmente a única história de um brasileiro que casou com uma Indonésia que você vai ouvir por aí.

Procurei, procurei e procurei, durante alguns dias e com diversas pesquisas diferentes. Pouco achei. A maioria foi de brasileiros que casaram com Italianas, ou brasileiros que casaram com mulheres (ou homens) de países da América do sul. A verdade é que existem pouquíssimos relatos de brasileiros homens casando com estrangeiras. Existem diversas razões pra isso, pra mim as mais determinantes o fato de que o casamento de um homem com uma mulher com condições melhores de vida (leia-se estrangeiras de países desenvolvidos) é estatisticamente muito menor, e de que muitos homens casam e não compartilham a experiência, talvez pelas expectativas do casamento serem diferentes.

Fiz essa pequena introdução para explicar que: talvez o meu casamento com uma Indonésia seja uma das únicas histórias de brasileiros com indonésias ou quiçá brasileiros com habitantes do sudeste asiático que você, e eu, vai ler na vida. Potencialmente, talvez existam muitos brasileiros nesses países que se casem, mas escrevam, ou muitos brasileiros na Austrália que se casam, por exemplo, com tailandesas. Em resumo, eu não tenho com quem me comparar.

Se a minha história de, formado em Direito, concursado público com um salário legal, um cargo de respeito e estabilidade, largar tudo pra estudar em Genebra já foi a única que eu ouvi por aí, essa de casar com uma Indonésia que eu conheci em Genebra vem coroar uma trajetória de um caminho não traçado por brasileiros.

Quero dizer que eu como um sujeito que veio de uma região muito mais próxima da periferia e de favelas do que do centro de São Paulo, e de uma condição socioeconômica relativamente ruim, de recursos limitados, eu quando adolescente nunca me imaginei fazendo um curso numa das melhores instituições do mundo em Genebra, e mais ainda casar com alguém de uma nacionalidade tão diferente como a Indonésia.

Sempre escrevo aqui em meu blog que há cerca de 10 anos atrás eu tinha apenas um par de tênis, um óculos quebrado, duas camisetas que eu usava pra tudo, zero dinheiro na conta. Hoje eu tenho um diploma de Mestre em Direito Internacional, e agora também estou casado (de fato, ainda não de direito). A história de como eu mudei a minha vida começou há cerca de 11 anos e fica pra outro post. A história de por quê eu me casei eu conto aqui, e no outro, como foi o casamento.

Casei! Como e por quê?

Tudo está interligado com a minha vinda aqui em Genebra. Até por que eu conheci a moça aqui mesmo. Vamos começar do começo e não do meio. Vim pra cá sem grana suficiente, preocupado, querendo terminar o curso. Passei por momentos difíceis, mas consegui levar as coisas até ser agraciado com uma bolsa e ter um trabalho, e tudo isso me sustentou até o fim do curso. Por causa das dificuldades, eu acabei me afundando numa depressão no primeiro e segundo semestres, e demorou até eu me recuperar. Quando eu me recuperei, eu enxerguei uma oportunidade de fazer algo interessante pela comunidade de estudantes, especialmente pessoas que passavam dificuldades como eu.

Assim, eu me candidatei à posição de Presidente da Associação de Estudantes. A Associação fazia um excelente serviço à nós e muita gente não enxergava, e por questões de fatores, não havia nenhum candidato a Presidente. Eu resolvi enfrentar a minha timidez e imaginei que poderia fazer algo legal para os estudantes. Me candidatei, depois apareceu outro candidato, e eu ganhei a eleição nas duas vezes que isso aconteceu.

Como Presidente da Associação dos Estudantes, tive o prazer de ser moderador num debate com uma pessoa que foi Presidente do Brasil, no caso, a Dilma. Independente da opinião sobre ela (eu como defensor dos direitos humanos não gosto muito dela), foi uma oportunidade legal.

E o que isso tem a ver? Bom, fui eleito e comecei o meu trabalho com a nossa tarefa mais importante: criar uma série de eventos para receber os novos alunos. Eu e o meu board queríamos criar coisas interessantes pra fazer os alunos ficarem mais relaxados (o semestre acadêmico é muito duro), conhecerem os novos companheiros e se conectarem com os antigos alunos e os ambientes. Uma grande parte dos eventos foi organizada e liderada por mim. E um desses novos alunos era ninguém menos que a minha futura esposa.

Não me recordo exatamente o dia, mas acredito que nos conhecemos no dia 12 de Setembro, em um dia em que eu fui dar uma palestra aos novos alunos de como funcionava a organização e convidar eles a fazer parte das iniciativas ou futuramente da organização. A gente não falou muito naquele dia, e nem no dia seguinte, quando eu guiei um grupo de pessoas pra um pedalinho no lago. Alguns dias depois a gente se encontrou num tour para a fábrica de chocolate. Foi lá pelos últimos dias de Setembro de 2016 em que nos encontramos num get-together, uma confraternização de alunos do curso de Direito (sim, ela faz o mesmo curso que eu).

Foi nesse dia que eu comecei a achar ela interessante por que estava muuiiito mais frio do que eu imaginava e eu estava penando pra permanecer no local, que era um sítio no cantão de Genebra. Quando a gente estava andando com outras pessoas, eu disse que estava com frio e ela pegou no meu braço e começou a esfregar pra esquentar. Aí eu pensei, nossa que menina mais atenciosa. E quando uma Europeia faria isso? Dificilmente. Senti um espírito mais parecido com nós brasileiros e algo que eu tive dificuldade nas minhas tentativas com algumas italianas e francesas: uma certa falta de empatia. Permita-me explicar que isso não é um defeito delas, mas sim uma qualidade dos brasileiros, e por sinal, da minha namorada Indonésia. Assim como os Europeus tem outras qualidades como uma certa frieza e ‘vamos-resolver’ nos relacionamentos, o que também me agrada.

Nem pensava em casar. Mal sabia eu que um ano depois eu me casaria

Eu não queria sair com ninguém mas na época eu comecei a me interessar por algumas estudantes novas que estavam chegando no pedaço. Resolvi sair da minha bolha, aproveitando que eu estava melhorando da depressão.  Pra mim, se você não está bem mental e emocionalmente, não deve começar a sair com ninguém por que vai influenciar negativamente o relacionamento. Uma das razões que me afastou de outra pretendente, por exemplo. Mas eu já estava melhorando.

Pra falar a verdade, essa era a menina que eu estava menos interessado! Não, não era por que ela não era interessante. Uma pessoa de bem a com a vida, inteligente, bonita e de bom coração. Mas sim um diferenças que eu achava inconciliáveis. A gente chegou a conversar sobre isso? Não. Mas naquele mesmo dia ela tinha me prometido que ia cozinhar comida indonésia pra um grupo de pessoas e eu falei que ia cozinhar comida brasileira pra ela. Fato é que eu sempre tive curiosidade de provar o Nasi Goreng e o Rendang, pratos nacionais daquela nação insular.

 

Mas como o coração prega peças, talvez encarando a absurdidade de eventualmente ficarmos juntos (ao meu ver), eu como um bom brasileiro que gosta de rir do non sense, continuei conversando com ela  e ficando interessando. E em uma determinada festa, a gente estava conversando, e eu bêbado, falei pros amigos que ia casar com ela. kkkkk. Com a intenção de fazer humor por que pra mim isso nunca iria acontecer, e eu sempre falei pros amigos que sentia que não ia casar.

Esse é outra questão: naquela época eu não tinha o menor interesse de casar, por que pra mim, identifico como uma cerimônia em que se gaste muito dinheiro e as vezes não dá certo. Influencia pra isso o fato de o casamento dos meus pais não ter dado certo e eu não queria sofrer e nem que os meus futuros filhos sofressem, como eu sofri.

Eu comecei a meio que sair com algumas meninas, convidar pra comer na minha casa, mas não rolou por alguns motivos, tipo uma pessoa simplesmente não se interessou, outra eu não me interessei, outra estava desestabilizada e não sabia o que queria. A minha atual esposa, eu meio que esqueci ela. Mas continuamos bons amigos, até por que é uma pessoa super simpática e receptiva. Sem falar que eu ainda queria provar comida indonésia. Então papo vai, papo vem, eu fui na casa dela e ela veio pra minha, mais como amigos, mas no fundo nós estávamos interessados. Acontece que eu morava numa república com cinco outras pessoas, todos se tornaram bem amigos, e eles meio que formaram uma banca examinadora das minhas pretendentes! Uma delas eles descartaram logo de cara e foi justamente a pessoa desestabilizada, de quem eu cheguei a ter um certo interesse e eles me convencerem a não tentar. Outra eles gostaram, e a minha esposa, eles gostaram bastante. E eles sempre me perguntavam dela e eu falava que não ia rolar.

A primeira vez que comi comida indonésia foi com ela. No caso, eu tirei foto do dia: Soto Ayam, uma espécie de sopa de frango) e Pechel (vegetais com molho de amendoim)

Ela gostou tanto do lugar onde eu morava e também dos amigos que veio visitar outras vezes. E aí os meus colegas falaram, André, ‘o que tem a ver o cu com as calças?’ Bom, não foi exatamente isso por que eles não falam português, mas em outros sentidos, eles me perguntaram: e daí que vocês tem religiões diferentes? Isso me abriu um pouco os olhos. Talvez, com medo de ser julgado ou de a pessoa ser intolerante (ser amigo é uma coisa, mas namorar é outra), eu acabei pré-julgando-a, e ela também a mim. Pensei cá com os meus botões: deixe as coisas rolarem.

E aí ela também deixou as coisas rolarem. A gente começou a ver filmes juntos, e se encontrar mais. Foi no fim de Novembro que eu me toquei de várias coisas: Nenhum casal concorda com absolutamente em tudo. Não é por que a gente tem opiniões diferentes que as coisas não podem dar certo. E que certamente todas as outras qualidades dela superavam e muito os obstáculos. E mais: a gente sabia qual o limite um do outro. Eu vi que realmente gostava dela, muito mais do que qualquer outra pessoa que eu gostava antes. Faz diferença o fato de ela ter uma ambição positiva, quer mudar o mundo. Outra coisa: acredito que só vivamos uma vez, se há ou não reencarnação, isso vai demorar. E eu posso me arrepender, quando for mais velho, das oportunidades que eu desperdicei.

E num dia a gente se beijou e não paramos mais de nos ver. Certo? Não! Ela viajou para a Indonésia no fim do ano e eu para o Brasil. Mas até aí a gente estava se dando super bem, melhor do que eu imaginava.

 

Caro leitor, nunca diga nunca. A distância me fez perceber o quanto eu apreciava ela. Ao ponto de eu pensar: é ela! Tipo… quero casar com ela. Caro leitor, não pense que eu sou um romântico inveterado. Não gosto de romantismo: é impor um padrão de comportamento hollywoodiano que só existe nos filmes e que faz relacionamentos supérfluos. Acredito que nós amamos mais de uma pessoa na vida, e que, inclusive com ela, pode não dar certo. Assim, de uma forma bem racional. E de uma forma bem racional eu também pensei: pois, eu casaria com ela. É uma pessoa pra mim. Vale a pena investir o meu tempo com ela por que eu não sinto que é um tempo gasto.

[Se você acha que um relacionamento deve ser como o dos filmes de hollywood, está perdendo o seu tempo. Aliás, mesmo os filmes pseudo-românticos estão mudando]

Abro um parênteses para falar de amor: pra mim um bom relacionamento é aquele em que você se sente confortável estando em silêncio com a pessoa. Não precisa ficar alimentando o tempo todo ou com medo de perder a pessoa. Vocês são, acima de tudo, parceiros. Pra mim, não se busca alguém pra lhe completar. Nós já somos completos. Se busca alguém pra complementar. A felicidade é uma coisa independente da existência de outra pessoa na nossa vida. A outra pessoa só vem aumentar. Se for pra diminuir, não.

Fecho o parênteses e abro outro. Você que é um leitor antigo deve se lembrar que eu escrevi que uma das razões de eu ter vindo para Genebra foi o fato de que eu perdi a minha mãe no dia da minha formatura. Se chegou agora ou não sabia, está sabendo agora, você pode ler mais da história nos arquivos aqui do “Minha saga”. Isso mudou a minha forma de pensar. Eu sempre fui extremamente estratégico, mas medroso, bem medroso, mais ainda de relacionamentos darem errado como o dos meus pais deu. E aquele episódio  me fez ter mais coragem pra ser tudo o que eu sempre quis. Então, foi esse o tipo de pensamento, e o fato de que eu não me importo muito sobre as ‘normas de relacionamento da sociedade’, como aquela que as pessoas devem estar juntas a um bom tempo e noivar, etc… Foi dessa forma que, perguntei, numa boa, lá pelos idos de Fevereiro desse ano, 4 meses depois de começar a sair com ela, o que a família dela acharia de ela ficar comigo.

Perguntei isso numa boa por que na minha cabeça, eu já sabia que casaria com ela, então, qual o mal de falar? Então eu falei: olha, eu casaria contigo! E ela falou que casaria também. Mas a gente não falou e nem pensou que seria tão cedo. O que eu perguntei era mais por que eu queria estar sério com ela. Se ia casar ou não, deixamos pro futuro.

Nesse meio tempo, a gente continuou forte juntos, e terminamos e voltamos. Uma das vezes por causa de crença. E isso permitiu-nos a tirar do radar o maior obstáculo para o nosso relacionamento. Por que tanto eu como ela somos e seremos tolerantes com a religião ou não-religião do outro. Não haverá julgamentos, mas discutiremos tudo, e não haverá tentativas de conversão. Claro, a gente pode discutir a base das nossas opiniões, como sempre fazemos.

Que longa história, talvez você pense. Tudo isso pra dizer que 9 meses depois de nos conhecermos, a gente casou. E aí você vai ver que muita água rolou nesse tempo e que a gente teve pelo menos um seis meses fazendo DR constantes até decidirmos nos casar.

E por que casamos? No direito administrativo, gosto de falar, existem dois critérios para os órgãos públicos atuarem, que são conveniência e oportunidade. Então, nos casamos por conveniência, oportunidade, mas mais ainda por que gostamos muito um do outro. Em outras palavras, amor. Pegue uma folha de papel toalha e passe na tela pra tirar um pouco do açúcar.

Bom, antes disso a gente teve a maior crise justamente por que chegamos a um gargalo do nosso relacionamento. Eu terminei os meus estudos, e o meu dinheiro acabou. Teria que ir embora de Genebra por que não tinha como me manter aqui. Na verdade, a gente pensava em morar junto, inclusive tínhamos achado um lugar. E ela iria me ajudar no começo, até eu achar um trabalho. Porém, na cultura javanesa, pega muito mal a pessoa morar junto sem casar. E a família dela começou a ficar meio assim com o nosso relacionamento, um pouco receosos.

Nós iríamos pra Indonésia por que eu queria conhecer a família dela, e ir pro casamento de uma das melhores amigas. Até que rolou um momento em que tínhamos que decidir o que fazer com o nosso futuro. E aí rolou um desgaste, a gente terminou por causa dessa questão de não poder morar junto sem casar e eu teria que voltar pro Brasil, e eu não gosto de relacionamentos à distância, e aí voltou a questão da religião. E nesse meio tempo eu me atentei ao fato de que ela gosta muito de mim, e eu dela, e vice-versa. A gente conversou, e ela veio com uma ideia muito louca: vamos casar… mas tipo, daqui a 25 dias?

Vamos casar, mas tipo, daqui a 25 dias? mais na pt. 2.

Foi mais ou menos a frase dela. E eu fiquei surpreso, falei que não, não. Oxe! Eu, casar? Nãaaao! Mas aí eu parei pra pensar: opa, mas eu já disse que casaria com ela. E numa boa, eu casaria com ela. E bom, se eu casaria com ela ano que vem, por que não em 25 dias?

E foi assim que nós decidimos casar. Contar essa história não foi tão instigante e emocionante pra muitas pessoas por que eles pensaram que a gente tinha algum motivo super misterioso, como ela estar grávida, alguém nos forçar ou eu perder uma aposta.

E foi assim, que, nove meses depois de a gente namorar e apenas um ano depois de nos conhecermos, a gente decidiu se casar. Começou o mês mais louco de nossas vida. E eu vou parar por aqui por que ainda tem muito pra escrever: tem a parte dois.

Caso você não saiba, esse post já tem 3.000 palavras, o equivalente a 12 páginas! A história continua depois, com mais bastidores da nossa decisão, e especialmente, como foi o nosso casamento na Indonésia.

 

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