Como eu mudei a minha vida, passei na USP e vim parar em Genebra

Quando eu falo que moro na Suíça muita gente imagina que eu sou um playboy de família rica que sempre teve tudo o que quis na vida e está na gandaia. Hoje eu vou contar uma história para vocês: eu era pobre e de certa forma, continuo.

Como eu mudei a minha vida, passei na USP e vim parar em Genebra

Outubro de 2006, um dia extremamente chuvoso e triste para mim e minha família. A minha vó tinha passado dessa para uma melhor e eu fui no enterro dela. Liguei pro meu chefe na farmácia e ele não acreditou que ela tinha falecido e ainda pediu pra eu trabalhar. Fui a contragosto, por que sabia que estavam com falta de funcionários. Quando eu cheguei, o gerente conhecido como Gugu perguntou, rindo: e aí, a sua vó morreu!? E eu disse que sim e que não queria que ele risse disse. E ele me disse: antes ela do que eu!

E continuou rindo.

Os dias em que eu mudei a minha vida

O trabalho na farmácia era duro e mal pago. Ficar no caixa, limpar a farmácia toda, tudo isso dentro de uma jornada de 44 horas semanais com apenas seis descansos no mês. O meu salário era menos de R$ 600,00 e eu dava um terço pro orçamento de casa. O resto do dinheiro era pra pagar alimentação e transporte pro curso técnico (gratuito) que eu fazia pela manhã. Não sobrava nada.

Tinha apenas uma calça, duas camisetas pra sair de casa e um par de tênis, além de um óculos quebrado. Eu achava a minha vida uma merda, embora não fosse infeliz e tivesse certeza que tinha muita gente em pior situação. Mas era ruim – sem dinheiro pra investir eu ficava em trabalhos merda, em trabalhos merda eu ficava sem dinheiro para investir em mim mesmo.

A família não tinha boas condições financeiras. Nada de carro, um computador antigo pra cinco pessoas, dívidas. Então eu precisava daquele emprego.

Mas naquele dia me bateu uma revolta muito grande. Foi quando eu me toquei o quanto eu estava acomodado com um emprego ruim e uma situação ruim e como era difícil para eu sair daquela situação. A minha vó era uma segunda mãe para mim e eu fiquei extremamente ofendido com o meu chefe à época. “Antes ela do que eu”. Disse ele. Eu nunca vou esquecer essas palavras. Não me leve a mal, acredito que o Gugu tinha, no fundo, um bom coração. Apenas endureceu com os anos de experiência e tinha falta de tato. A minha revolta era saber que eu tinha potencial para mais e estar acomodado.

Vinte dias depois, sem ter outro emprego na mão, eu pedi demissão e resolvi tentar na minha área, que era design gráfico. Graças a um curso técnico que eu fazia no SENAI, que era gratuito. O terceiro setor foi fundamental para mim e para os meus colegas de curso na época. Sem isso, dificilmente eu poderia conseguir um trabalho que eu consegui. Pois aquele outro trabalho pagava até menos: R$ 500,00, mas felizmente era na área em que eu gostava.

A morte da minha vó tinha me abatido bastante, por que eu praticamente não a visitei quando ela estava no hospital, enquanto eu estava trabalhando naquele farmácia que fazia manobras jurídicas para pagar o trabalhador valores menores. Isso também tinha me deixado revoltado comigo mesmo por que eu gostava muito dela e não dei o devido valor ao meu tempo.

Tinha uma garota: A Mônica era uma boa amiga, e era engraçado por que ela era amiga de duas meninas que eu tinha flertado e depois a gente parou de se falar. Mas a Mônica eu só fiquei mais amigo. Durante aquele ano a gente conversou bastante, e eu tinha um certo crush nela, mas ignorei por que ela tinha um namorado e eu não queria perder uma das únicas amigas que tinha. A Mônica passou na UNIFESP, que era perto de onde eu trabalhava, e por isso a gente tinha combinado de se encontrar pra falar ao vivo. Então, quando eu comecei a trabalhar no jornal, fiquei felicíssimo de poder contar pra ela.

Dois meses se passaram e eu sonhei com ela em uma noite de Dezembro. E nesse sonho, eu contava pra ela como era o meu trabalho. Quando eu acordei, fui procurar no MSN (lembra?) pra poder mandar uma mensagem. Ela não ficava online durante três dias e isso não era comum. Ao mesmo tempo, duas amigas em comum tinham colocado mensagens de luto no perfil delas. Não quis ligar os pontos e perguntei. Pra minha surpresa, essa amiga me contou que a Mônica tinha sofrido um acidente de carro e falecido apenas alguns dias antes. Eu fiquei extremamente pasmo e triste. Eu gostava muito dela. E o que me deixou mais pasmo foi o fato de uma pessoa tão doce e cheia de planos, ter acontecido essa fatalidade com apenas 19 anos.

Esses dois eventos ficaram na minha cabeça até hoje e na época martelavam muito mais. Como a vida era extremamente passageira, e como eu estava me sabotando por estar acomodado. Na época, o meu chefe, vendo que eu iria fazer uma faculdade só por que era perto de casa, quase quis me bater: você, uma pessoa inteligente e cheia de potencial, vai fazer essa faculdade aí detrás da esquina? Detrás da padaria? E em dois ou três dias ele começou a zombar falando que eu estava na Uniquina, Unipão.

Resolvi tomar as rédeas e arriscar. Meus pais me achavam velho e que eu tinha que fazer faculdade e não cursinho naquele ano de 2007 (eu tinha 22). Pra piorar, perdi o emprego no meio do ano e só fui arranjar outro depois de dois meses. Os caras me sacaneavam e queriam pagar só metade do combinado, falando que ia pagar depois. Eu fiquei revoltado, e sempre aquelas palavras “Antes ela do que eu” me retornavam à cabeça. Resolvi dedicar as minhas melhores energias pra estudar pro cursinho. Não quis outra faculdade: escolhi Direito na USP.

Sabe o que era mais engraçado? O fato de eu ter que aprender praticamente todo o conteúdo do ensino médio em apenas alguns meses. Especialmente física. Mas a minha motivação era tão grande que eu estudava até quando ia tomar banho. Aquelas palavras: “Antes ela do que eu”, ressoavam na minha cabeça. Nunca mais passaria por aquilo e um trabalho exploratório. Um dia eu vou jogar na cara dele que eu era melhor do que ele. Hoje eu não tenho a mínima vontade de fazer isso. Mas na época me deu motivação. Eu não tinha grana, não tinha roupas, não tinha nada, não me sobrava nada.

Passei em 26º lugar entre 12.000 candidatos ao curso de Direito na USP. Meritocracia? Não existe meritocracia quando você tem que se esforçar muito mais do que os outros que conseguem a mesma coisa simplesmente por que nasceram em situações melhores do que a sua, cujos pais puderam pagar um cursinho, inglês, academia, e tinham tempo pra fazer outras coisas. Eu não tinha tempo pra nada. E mesmo aqueles dias refletem até hoje. Eu só fui aprender inglês de verdade anos depois, enquanto muitas pessoas que vieram para Genebra tiveram tempo de fazer inglês, francês, espanhol, voluntariado com 21, 22 anos, eu estava penando pra ajudar em casa.

Raiva. Posso ser sincero. Foi raiva, de mim mesmo, do mundo, que me fez passar na USP. Foi a vontade de vencer.

Graças a isso, eu estou hoje em Genebra. Fazer a USP foi uma enorme diferença na minha carreira por que os examinadores bateram o olho e viram a universidade mais concorrida da América Latina.

“Antes ela do que eu”, essa frase ainda ressoa em mim, mas agora já não tenho mais ressentimentos e nem vontade de chamar ele de filho da puta. Essa frase, de certa forma, foi o que me trouxe até Genebra. Hoje eu entendo muitas coisas por causa dela: as dificuldades de quem nasce pobre no Brasil e tem que passar por empregos ruins e baixa qualificação. O quanto é difícil sair desse ciclo vicioso. Veja o que eu tive que fazer: durante um ano eu estudei e fiquei sem dinheiro, não cuidei da minha saúde, só tinha um par de camisetas, um tênis, não tinha vida social.

E de outro lado, o meu colega da USP vem de uma família rica do Norte do Brasil, o papai e a mamãe pagavam cursinho e um aluguei num bairro rico pra ele estudar na escola paga com dinheiro público e hoje ele fica falando mal dos direitos sociais.

2 thoughts on “Como eu mudei a minha vida, passei na USP e vim parar em Genebra

  1. Querido Andre.
    Venho acompanhando os seus blogs e me identifico bastante com as suas historias e exemplos de vida. E gostaria de te dizer que sinto muito orgulho de voce mesmo sendo so sua amiga virtual. Mas a impressao e que te conheco ha anos. Acho que ja te acompanho ha uns 5 anos desde que estou aqui na Holanda e fico muito feliz em acompanhar a a ria trajetoria. E atraves das tuas palavras sinto mais motivacao pelos meus estudos com o idioma daqui que tambem nao e facil. Mas que com a sua ajuda eu vou vencendo casa obstaculo por aqui. Muito obrigada e te desejo muito sorte juntamente com a tua esposa. Um grande abraco.
    Walzinha Costa

  2. Sua história é impressionante. Tenho 16 anos e quero fazer direito, desde o ano passado sou apaixonado pela suiça e cada vez mais tenho vontade de morar ai. Gostaria de saber se tem como falar um pouco mais da época em que fez vestibular, dicas de estudo e etc. Abraços André

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