Era uma vez um sonho: morar fora

Faz três graus em Genebra. Na madrugada de hoje chegou a cair flocos de neve. Foi a primeira coisa que eu pensei: adoro o frio. A segunda: ainda tenho contas pra pagar. A terceira, e aí a ficha caiu: já faz mais de dois anos. Absurdo, pela minha cabeça de pobre: morar fora era um dos meus sonhos, e eu realizei.

Era uma vez um sonho: morar fora

Eu, deslumbrado, com orgulho.

Das mais interessantes críticas que eu recebi depois que eu comecei a escrever esse blog, uma delas foi a de que eu era um deslumbrado. Um deslumbrado? Demorei um pouco pra entender a conexão dessa palavra com a minha vida. Deslumbrado, assim como muitos outros adjetivos, é uma característica que depende muito da contextualização do sujeito, no caso, eu, e o que a pessoa em ação imagina que seja um deslumbre. Para as pessoas que fizeram o tal comentário (que não foi por mal), eu estava deslumbrado por estar morando na Suíça, e que na real, a Suíça não é o paraíso na terra e esconde um monte de defeitos, dentre eles os obstáculos aos cidadãos dos ditos países em desenvolvimentos.

De certo, existe uma qualidade (e verdade) nessa crítica: a Suíça é boa, mas tem vários defeitos. Algo que eu já escrevi várias vezes aqui no meu blog e no meu canal do youtube. Inclusive um dos meus posts e vídeos que mais recebeu hate e críticas negativas foi o ‘Pobreza na Suíça’:

Abre parênteses: Uma pessoa, não sei se é Suíça ou brasileira, teve a pachorra de criar uma conta anônima no youtube com o nome ‘Brasilero GO’ e falando que eu não deveria criticar o país que me recebeu. Outro fala que eu deveria voltar a morar na favela que era de onde eu vim.

Fecha parênteses.

As pessoas que falaram que eu sou deslumbrado tem razão em alguns aspectos, mas são daqueles leitores de sinopses que querem comentar o filme inteiro. O meu blog é recheado de críticas e elogios à Suíça e eu faço muita questão de tentar ser imparcial (o que me deixa sujeito a ouvir críticas como a acima). Por isso a surpresa de ouvir tal crítica, que depois passei a levar de forma mais construtiva.

A parte que eles tem razão: eu vou me deslumbrar sim, e para sempre. Faço questão, inclusive! Não é por Genebra, mas sim questão de ser, na minha cabeça, uma das maiores absurdidades que poderia acontecer em toda a minha vida. Absurdo por que eu nunca me imaginei morando no exterior e sempre achei que esse dia nunca iria chegar. Mas era um sonho. O sonho não é morar num lugar muito melhor, mas simplesmente morar num lugar bem distante. Viver uma aventura. Se eu fosse morar na Armênia, ficaria igualmente surpreso.

Não, meu amigo, minha amiga, o meu deslumbramento não é por viver em Genebra. É por simplesmente sair do Brasil. Muita gente estudou em escola particular, os pais pagaram viagem para a Europa, tinha algum familiar que trazia presentes dos Estados Unidos, ou mesmo teve a chance de fazer um intercâmbio no exterior. Eu nunca tive chance de fazer isso e nem cheguei perto, e só pude fazer uma viagem ao exterior com 27. Vi a maioria dos meus amigos de faculdade viajarem, fazer mochilão, passar um ano fora, e eu não tinha dinheiro e nem condições de aplicar sequer pra intercâmbio, mesmo com bolsa, por que tinha que ajudar em casa.

Morar fora era um ‘no-no’. No grana, no chance, no time. Para muitas pessoas, talvez seja extremamente normal ir visitar Paris e andar na Champs Elysée, ou mesmo que não seja normal, é acessível. Pra mim, morar fora era um sonho por que eu durante muitos anos me arrastei por subempregos, tive dificuldades para estudar, não tive dinheiro nem para comprar uma calça jeans e andava com um óculos quebrado. Ir até Minas Gerais era um grande feito. É claro que eu vou ficar deslumbrado. Não com o lugar onde eu moro, mas sim com a própria surpresa de eu estar morando fora. Genebra não tem quase nada a ver com isso, a não ser que é uma das cidades mais caras do mundo. E sim, a absurdidade e o contraste do meu complexo de vira-lata de me ver, um dia, morando aqui.

Lembro quando eu meu primo, irmão e alguns amigos íamos jogar num clube público da zona norte de São Paulo, e a gente tinha que andar mais de uma hora só pra chegar lá, e as vezes não tinha quadra e íamos para outra escola, tínhamos que pular o muro pra jogar lá e não raro tinha algum cara jogando armado (a gente deixava ele ganhar kkk). Pra mim, a minha vida era aquilo, e hoje eu reparo que tinha um cabeça de pobre, e que isso não é necessariamente negativo.

O meu deslumbre é justamente descobrir: caralho, eu posso sair do Brasil? Tipo assim, é permitido pra mim? Por que pessoas que vem de classes sociais mais baixas, existe uma presunção de que elas tem que se ater ao lugar delas.  Que é ficar pobre ou ser subserviente para sempre. Inclusive quando eu estava estudando pro cursinho teve gente que falou que eu não deveria tentar USP que aquilo não era pro meu bico (depois eu passei, ha ha!). Quem passou uma grande parte da vida ouvindo e vendo as coisas que não pode ou não deve fazer por que não tem grana ou por que simplesmente não tem pedigree, é claro que vai se sentir surpreso quando consegue alcançar coisas aparentemente inalcançáveis.

Pra mim, sair do Brasil pra um país longe como a Suíça, sempre foi inalcançável. Ironia do destino, hoje eu estou aqui. Morar fora era o meu sonho e olha só: já faz mais de dois anos. E quanta coisa aconteceu nesse meio tempo: fiz mestrado no exterior e casei com uma estrangeira.

Eu estou feliz simplesmente pelo fato de descobrir: eu posso, e isso dependeu quase que totalmente de mim mesmo, embora no fim das contas, eu ainda seja tecnicamente e contrastadamente pobre.

 

2 thoughts on “Era uma vez um sonho: morar fora

  1. irado seus textos mano..te acompanho faz um tempão, desde a sua chegada ai e um pouco da sua historia de vida!!
    faz 11 meses que to morando aqui no Chile, e as vezes me pego nesse pensamento, fico feliz de estar vivendo aqui todos os tipos de experiencias e me desenvolvendo melhor que no Brasil, coisa que meus parentes e amigos não estão vivendo!!!

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