Crônicas de um brasileiro na Suíça – fazendo e mantendo amigos

Diz-se muito que o Brasileiro é um povo amistoso, alegre, pau pra toda obra. Mas e se esse brasileiro for eu: tímido, na minha? Quão fácil é para um brasileiro morando no exterior ter e manter amigos?

Crônicas de um Brasileiro na Suíça – sobre amizades no exterior I

Comecei escrevendo um rascunho desse texto com o título: O brasileiro no exterior – fazendo amigos. Mas depois de dois anos morando na Suíça, eu me toquei que fazer amizade é uma coisa muito diferente de manter e aparentemente mais fácil do que manter amigos. Até por que, se você não mantiver a conexão com o passar do tempo, não é amizade, e sim coleguismo.

Depois disso eu comecei a questionar o termo ‘o brasileiro’, assim que eu comecei a escrever sobre os supostos estereótipos dos brasileiros, e me dei conta que eu não sou alegre e festeiro assim, e que muitos brasileiros não são. E que por isso eu não me sinto a vontade de falar em nome de todos os brasileiros. A última mudança foi relativa ao tema ‘no exterior’, que eu substitui por ‘na Suíça’, por que a minha impressão é muito subjetiva e relativa ao lugar onde eu moro. Talvez seja mais fácil ter amigos em Portugal ou na Tailândia, mas eu não moro lá então não tenho como saber.

Outros fatores que importam e acentuam o subjetivismo são, por exemplo, o fato de que eu moro em Genebra, uma cidade cosmopolita e internacional, e eu era estudante. E ainda, o fato de que, quando eu vim para cá, eu estava em depressão.

Feita essa digressão, faço uma confissão: Um dos meus defeitos é que eu quero ser amigo de todo mundo. E isso frequentemente leva a muitos, mas muitos desapontamentos, alguns dos maiores da minha vida. Outro defeito é a dificuldade em manter a amizades. Eu não sou daquele tipo de amigo que entra em contato o tempo todo. Eu sou ‘na minha’, quieto, mas quando chega a hora eu entro em contato. Isso já foi motivo de desapontamento para outras pessoas que talvez esperassem algo mais ‘ativo’ da minha parte. Saibam que isso não é por mal, mas por pura distração e esquecimento. Bom, tem amigos que eu não falo há meses e considero grandes amigos.

Então, no começo, eu tentei ser amigo de todo mundo. Eu sempre faço isso, mas cedo eu reparei que não era fácil. Ainda mais por que eu estava com depressão e não tinha ideia do quanto isso influenciou. Por exemplo, eu estava com dificuldades de falar inglês e me sentia com vergonha diante de anglófonos nativos. Alguns desses me ignoravam solenemente e, ironicamente, vieram tentar ser amigos depois que eu fiquei ‘importante’, quando eu virei Presidente da Associação dos Estudantes.

A diferença entre manter e fazer amigos é explicada pelo fato de que, logo no começo, eu fui fazer uma viagem para uma cidadezinha da França com dois italianos, um japonesa e uma Egípcia. E embora eles sejam colegas que eu tenho apreço, nenhum deles se tornou um grande amigo. Grandes amigos eu tenho poucos: um britânico, uma indiana, uma taiwanesa, uma indonésia (a minha esposa), um costa-riquenho, uma alemã, uma francesa e alguns brasileiros. Pois o fato interessante é que os brasileiros são minoria, e isso eu explico em um capítulo a parte.

O estereótipo brasileiro em mim é que no começo, eu fui, de certa forma, festeiro. Me encarreguei de organizar alguns eventos com colegas da minha sala e também outros amigos. Inclusive fiz uma festa pequena pra comemorar o fato de que eu achei um lugar mais barato pra morar, e chamei muita gente. Eu imaginei, para o meu engano, e eu estava errado em querer isso, de que eu seria chamado para todos os rolês, mas eu não fui.

Vou contar um causo pra vocês. Na época eu fiquei muito decepcionado, e fazendo dois anos dos eventos, eu tive oportunidade pra digerir. Quando eu mudei de apartmento, fui pra um lugar que era quase 50% mais barato – precisava economizar. E nesse lugar já tinha um grupinho de pessoas que morava lá, inclusive eu já tinha convidado para os meus rolês, mais de uma vez. Quando ficaram sabendo, elas, que não eram brasileiras, falaram: opa, vamos fazer algo juntos. Mas na minha cabeça, lembrem-se eu estava com depressão, então eu estava mais sensível e necessitando de apoio, eu imaginava que elas me chamariam para todos os seus rolês do tipo fazer comida, beber, ver filme, etc.. O que não aconteceu. Na verdade, praticamente não me convidaram pra nada. E vira e mexe eu via elas colocando fotos juntas das coisas que elas faziam e isso começou a doer. Um dia, elas me chamaram, mas eu senti que foi mais por que me viram passando pelo lugar do que algo pensado anteriormente. Pra piorar as coisas, elas começaram a fazer planos de assistir um filme juntas, mas aí disseram – desculpe André, é uma girls night, somente garotas, você entende né. É claro que eu entendi. Mas aí depois chegou um outro conhecido nosso, um cara, para morar no mesmo conjunto. E aí eu fiquei sabendo que não só ele estava sendo convidado para a maioria dos rolês que elas faziam, como ele foi naquela tal seção de filmes que era somente para garotas.

Isso tudo me fez sentir super mal e solitário. Por que eu sabia que, do meu lado, se eu fizesse uma seção de filmes, eu convidaria elas. Mas hoje eu entendo isso de vários ângulos. Primeiro: quem sou eu pra querer ser querer ser um amigo próximo só por que eu faria o mesmo? Na real, elas não precisavam ter me convidado, por que a gente convida quem faz a gente se sentir mais a vontade. E se elas se sentiam a vontade com o cara e que não tinham muita conexão comigo, fazia perfeitamente sentido não me convidar. Talvez eu não fosse a pessoa mais alegre e divertida, talvez a depressão estivesse me deixando chato. Outra coisa: eu sou alguns cinco a sete anos mais velho que elas e venho de uma cultura diferente, enfrentando dificuldades diferentes e pensando a vida de uma forma diferente. Não adiantaria eu tentar me abrir pra eles por que eles não entenderiam. Não tinha muita conexão.

Aquelas moças não fizeram nada de errado!  O desapontamento veio das minhas expectativas. E eu me dei conta de que eu tinha amadurecido de um certo ponto por que eu sempre fiz questão de não querer excluir ninguém, e eu não deveria exigir isso de ninguém. Uma qualidade minha, não os defeitos dos outros. Claro, isso influencia na manutenção de amizades. Eu prefiro amigos com essa qualidade. 

Ah sim, aquelas moças são boas amigas-colegas até hoje.

Hoje a maior parte dos meus amigos é estrangeiro, embora eu tenha grandes amigos brasileiros. No geral, os brasileiros foram que os que mais me decepcionaram. Alguns me ofenderam e me ignoram por razões completamente esdrúxulas, outros simplesmente ficaram infelizes com o meu sucesso. Felizmente, dá pra contar nos dedos. Uma pessoa que veio do Brasil inclusive antes mesmo de me conhecer já falava mal de mim por que eu fazia uma vaquinha pra vir pra cá! Depois que eu virei ‘importante’, o Presidente da Associação dos Estudantes, ela tentou ser minha amiga enquanto continuava falando mal pelas costas e pela frente.

Graças aos amigos, porém, eu estou aqui até hoje. Foi graças a minha hoje esposa que veio da Indonésia que eu pude sobreviver em Genebra um bocado. O meu dinheiro tinha acabado e ela e o meu amigo britânico me deram a maior força.

Minha esposa, companheira e amiga

Mas como eu disse, tenho dificuldades em manter amigos, especialmente se eles estiverem distantes. Sou quase um amigo-preguiça, pra mim é complicado marcar as coisas, gosto de espontaneidade, é uma das minhas dificuldades com as relações sociais modernas, e ter 1.401 amigos no facebook me faz sentir mal por que não dá pra ver todos. Os meus melhores amigos são os que moravam comigo antes.

One thought on “Crônicas de um brasileiro na Suíça – fazendo e mantendo amigos

  1. Olá André!

    Gostaria de parabenizá-lo pelas conquistas! Meus olhos brilham e me alegro muito em ler histórias como a sua! É nítido o seu sucesso. Torço muito por você, não só pelo fato de ter conseguido ir para a Suiça, mas também por ter estudado mestrado em outro idioma.

    Pessoas como você nos inspira a projetarmos nosso futuro!!!

    Grande abraço,
    Victor Lima

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