Crônicas de um Brasileiro na Suíça (2) – Pão de Queijo

Quem é que em sã consciência escreveria um tópico sobre pão de queijo? Talvez um brasileiro como eu, há dois anos no exterior e há muito tempo sem um pão de queijo decente. Um ode a essa maravilha da culinária brasileira.

Crônicas de um Brasileiro na Suíça (2) – Pão de Queijo

Dia 812 de uma das coisas mais loucas que eu já fiz na minha vida. Largar tudo para tentar a vida fora do país. No mais, noves fora, cálculo final, resultado é positivo. Estou mais feliz do que era no Brasil, embora eu não fosse infeliz na nossa terrinha.

Hoje e nos últimos dias fez 8ºC aqui em Genebra. E eu simplesmente adoro. Aliás, adoro muita coisa aqui, principalmente uma certa quietude e a proximidade das coisas. Pra quem veio de São Paulo e aguentava andar de ônibus e metrô pelo menos lotados, pelo menos uma hora por dia, e durante vários anos usando terno e gravata num calor infernal, Genebra é o céu: por isso amo o frio, por isso amo esse certo bucolismo de uma das cidades mais internacionais do mundo.

Mas sinto falta de Pão de Queijo. Sinto falta de pão de queijo? Sim, sinto falta de pão de queijo. Repito essa frase na minha cabeça várias vezes. Como aquela bolota de polvilho com queijo meia cura traz uma nostalgia muito grande em meu coração albergado no frio.

Diz-se que a revolução dos meios de comunicação, transporte e comércio tornou o mundo um lugar muito menor. Mentira. Quero dizer, é verdade, mas o fato de que o meu quitute favorito não pode chegar aqui em sua forma perfeita torna tudo muito relativo.

Pão de queijo fresquinho, quentinho, pra combinar com o frio? Frio tem, pão de queijo não. Até tem, mas não tem.

O pão de queijo aqui é como açaí fora da região norte. Até existem imitações tímidas, bem intencionadas, mas nada chega perto do original. Até tentaram fazer uma versão aqui na Suíça, alguns brasileiros trouxeram. Mas aí colocaram Gruyere na receita. Com todo respeito, ficou ruim e eu não compro de novo. A intenção foi boa, mas pão de queijo preciso do queijo brasileiro, e esse queijo tem nome: meia-cura.

Só por que o Gruyere é um queijo bom, um queijo nacional aqui da Suíça, não significa que o combina com o nosso quitute brasileiro. Eu provei: é ácido, é agressivo e rouba aquele gostinho de polvilho tapioca. Além de tudo, é caríssimo, comprando eu mesmo o polvilho doce faço mais barato.

O mais engraçado? Eu comecei a sair com uma suíça, mas felizmente não passou do primeiro encontro. Ela era uma das pessoas que estavam trazendo o pão de queijo pra cá, ou pelo menos dizia que era. Seria uma traição para um dos meus principais dogmas culinários que coloca o pão de queijo num pedestal. Não mexam com o pão de queijo.

Fiz algumas experiências, e o pão de queijo que mais se aproximou do nosso fui eu mesmo que fiz. Mas aquela aproximação do tipo cinco é mais perto que dois de dez. E foi assim. Procurei um queijo português que se aproximasse do nosso meia cura e um queijo que mais se aproximasse do nosso requeijão. Nada disso eu consegui encontrar aqui na Suíça. Tive que ir na vizinha França. Tentei durante dois dias a razão ideal de colocar um um pouco mais ácido e o outro um pouco mais suave. Demorei, mas deu certo. Fiz um bocado pra mim e o resto eu vendi pra levantar fundos pra Associação dos Estudantes do qual eu era Presidente. Foi a primeira coisa que eu terminei de vender. Pra falar a verdade não durou nem meia hora!

Pra você ver como mesmo um pão de queijo nota cinco conquista os paladares de cidadãos do mundo todo, desde o Peru até a Turquia. Até hoje uma amiga pergunta: André, me passa a receita. Eu digo pra ela: o queijo importa muito! Se for com o Gruyere, esqueça.

Tudo isso pra dizer que eu sinto falta de pão de queijo aqui. Tem que ser aquele verdadeiro. Aceito, por exemplo, o do Rei do Mate. Mas como trazer?

Em tempo – eu odeio aquele pão de queijo gigante que costumam vender nas padarias de São Paulo. Aliás, em geral, pão de queijo de padaria é ruim.

 

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