Crônicas de um Brasileiro na Suíça (3) – Trabalho

Em dois anos de Suíça tive experiências diversas com relação a trabalho, uma parte delas frustrante, uma parte delas interessante. O maior trabalho, porém, foi dedicado a achar um trabalho.

Crônicas de um Brasileiro na Suíça no. 3 – O trabalho de achar um trabalho

 

Antes de mais nada devo esclarecer: esse post é em formato de crônica, um estilo de texto mais pessoal que eu me sinto muito mais a vontade para escrever do que o formato mais informativo que tento passar em alguns posts do blog, como sobre morar e trabalhar na Suíça.

Antes de vir para Genebra eu li muito sobre trabalho na Suíça, mas muito mesmo. E uma coisa que eu coloquei na minha cabeça desde cedo foi de o quanto era difícil conseguir um trampo aqui sendo brasileiro. Se você tiver cidadania Europeia, ou melhor ainda, Suíça, é muito, muito mais fácil. Mas Brasileiro, não. Os relatos que eu lia era todos, na maioria dos casos, negativos. E isso foi extremamente bom pra mim por que eu não criei nenhuma expectativa de achar um trabalho no fim do curso. O que viesse seria lucro. É essa a expectativa que eu quero deixar para as pessoas que chegam no meu blog pensando que ir morar na Suíça é fácil, é só chegar.

Como ia dizendo, sou brasileiro, descendente de brasileiros, portugueses, poloneses e sírios. As minhas famílias estão no Brasil há mais de 3 gerações, não contando com a minha, então eu não tenho em tese chance de conseguir a cidadania europeia por esse meio sanguíneo.

Antes de vir para Genebra eu trabalhava na área do Direito. Sou Bacharel em Direito pela USP (2012), mas ao contrário do que a lógica possa fazer parecer, não sou advogado. Não por que eu não passei na OAB – eu passei no exame de 2013 – mas por que pela minha profissão, eu não poderia exercer a advocacia por conflito de interesses. Eu trabalhava em um dos tribunais do Brasil e respondia diretamente ao Desembargador. Era uma cargo de confiança, e pra falar a verdade, eu gostava bastante do trabalho, dos colegas e do meu chefe. O motivo de eu estar em Genebra foi mesmo um antigo sonho, uma certa crise de identidade e enxergar uma oportunidade única na minha vida.

Além disso, e com isso, eu tinha um total de mais de quase 9 anos de experiência no Brasil quando eu sai de lá. E isso, aqui, não valeu de quase nada, pelo menos até há algum tempo atrás, e pelo menos para mim. Outros brasileiros aqui tiveram outras oportunidades, outras experiências, ou condições de ficar sem trabalhar.

Estudantes brasileiros podem trabalhar em Genebra. Mas não nos seis primeiros meses. Isso foi um grande problema pra mim, que vi as minhas economias rapidamente desvanecerem em virtude da queda do real e alguns gastos imprevistos como com saúde. Depois de seis meses, eu consegui alguns trabalhos pequenos, apesar de não ser fluente em francês.

Poderia escrever mais de um milhar de palavras aqui para descrever toda a minha experiência. Seria um post chato, no entanto. Apenas vou resumir que nesse meio tempo, eu trabalhei com eventos, administração, webdesign e alguns trabalhos duros como mudança e limpeza. Tudo isso me ajudou a sobreviver mas não me preparou para o que eu enfrentaria no final e a conclusão sobre o título do texto. O trabalho de procurar um trabalho.

Fiz tarefas extremamente interessantes como ser Presidente de uma Associação e coordenar o trabalho de uma equipe de 7 pessoas, o que foi dolorosamente desafiador, mas da mesma forma recompensante.

Um dos meus 6 trabalhos temporários em Genebra era com eventos

Mas o que dizer quando mesmo um total de 10 anos de experiência parece não valer nada? Essa foi a grande impressão que eu tive aqui. A de que os meus conhecimentos não valiam de nada! Pra falar a verdade, a área do Direito é muito complicada para se mudar de país.

O certo é que, no Brasil, eu estava devidamente acostumado a trabalhar em uma cidade grande. Quando queria procurar emprego, havia, pelo menos para mim, vagas aos montes. Eu poderia me candidatar para várias, dezenas, em apenas um dia e isso significava que pelo menos algumas delas me chamaram para entrevista. Houve uma época em que, antes de trabalhar no Tribunal, fiz 4 entrevistas em uma semana e todas me chamaram para trabalhar.

Aqui, tive uma experiência contrastante. Aparecem somente três ou quatro vagas para as quais eu posso me candidatar por dia, as vezes até menos, uma por dia. E boa parte delas não tem nada a ver com Direito, o que significa que as minhas chances são menores. Pudera, me dei conta, São Paulo tem 20 milhões de habitantes na Metrópole, o número de vagas é proporcional. Genebra tem 400.000 habitantes na região metropolitana, e basicamente todo o mundo quer trabalhar aqui por que os salários são bons.

Depois que eu terminei a minha tese de Mestrado, o meu trabalho virou basicamente, procurar um trabalho. E não existe tarefa mais angustiante. Aqui em Genebra, é muito mais difícil por que eles pedem uma carta de motivação muito mais focada e detalhada do que os processos seletivos no Brasil. Agora, imagine que para carta de motivação você precise: ler atentadamente a proposta, ver o que se encaixa do seu currículo, ler sobre a empresa / organização, reescrever sobre a sua experiência. Em média, eu demorava cerca de 2h para cada candidatura, sem falar naquelas em que eu tinha que cadastrar todo o meu currículo no sistema novamente. Houve algumas que demorei mais de 5h.

Procurar um trabalho foi um trabalho dos mais difíceis que eu tive. E tudo isso pra nada. E eu não posso colocar no meu currículo. Como eu disse, eu não estava preparado para o que viria: quase zero resposta. Depois de entregar a minha tese de Mestrado, enviei o meu currículo para mais de 200 vagas em menos de um mês, e com certeza mais de 400 durante o período de férias. Nessa época eu escrevi o post: a Suíça é muito boa, mas é para poucos.

Procurar um trabalho te faz sentir culpado quando você não está procurando trabalho – do tipo:  eu não posso relaxar enquanto estiver desempregado. Ao mesmo tempo em que enquanto eu estou procurando trabalho eu me sinto culpado por não poder estar investindo na minha própria carreira, do tipo procurar cursos de francês ou alguma certificação.

Outros dos meus trabalhos: Presidente de uma Associação. E por causa disso eu fui convidado a um debate com a Dilma em Genebra

O certo é que em Genebra, ao menos para mim, parece que no verão as coisas são muito, muito paradas. Eu praticamente não tive nenhuma entrevista nesse meio tempo. O meu trabalho era procurar trabalho em tempo integral. Como eu não consegui nada, eu me senti extremamente estúpido, como se eu não tivesse nenhuma experiência ou como se o meu currículo fosse ruim.

Na verdade eu bati na trave em dois trabalhos, mas nesses dois eles não quiseram me contratar por que eu tinha um visto de estudante, embora eles contratassem estudantes. Mas o fato de o meu visto de estudante ser limitado por não ser Europeu fez eles buscarem alguém cuja contratação fosse mais fácil. Ao menos aí eu vi que era problema de burocracia e não do meu currículo em si.

Recebi alguns feedbacks nesse período: eu era pouco e extremamente qualificado ao mesmo tempo. Com os meus quase 11 anos de experiência eu tinha trabalhado em diversos setores, mas quase sempre não naqueles que eu me candidatava (por falta de vagas), ao mesmo tempo em que eles viam a minha idade (31/32) como um obstáculo para treinamento ou começo. Várias vezes eu me candidatei para uma vaga que, sei lá, era de comunicação, e eu tinha experiência com comunicação, mas aí depois de dois meses eu via o resultado e a pessoa não tinha experiência com comunicação, mas (a) era frequentemente europeia e (b) era muito muito mais nova que eu.

Tentei vagas no setor de security, desenvolvimento, e até áreas que eu tinha mais afinidade, como direito de propriedade intelectual, direito comercial, ou trabalhista, aqui nas organizações internacionais, eu não fui sequer chamado para segunda fase! Mais uma vez, quem foi contratado não necessariamente tinha experiência. E diversas vezes, para vagas de estágio que não pagavam.

Talvez esse post esteja com um teor negativo e reclamão, mas a ideia é que eu quero passar a real das situações que eu passei. Como disse, eu não tinha nenhuma expectativa de achar um trabalho no fim e depois do curso, mas ao menos imaginei que fosse achar uma vaga de trabalho temporário no verão.

Ao menos, posso terminar o post com boas notícias, e que isso sirva de otimismo para quem quer estudar fora. Depois que eu consegui o meu diploma, e especialmente, depois do verão, eu consegui em um espaço de um mês quatro entrevistas. Ter o diploma suíço de Mestrado faz diferença, e pelo visto, a minha experiência finalmente serviu para algo bom.

E agora? Estou trabalhando! Por isso mesmo eu consegui uma vaga, que mesmo que temporária, existem chances de ser efetivada depois de seis meses. O que fez a diferença foi o tempo em que eu trabalhei com direito no Brasil e os meus conhecimentos de regulação. Já faz mais de um mês que eu trabalho e posso dizer que estou feliz. A felicidade e a tranquilidade são proporcionais ao sofrimento ficar dias e dias 10h em frente ao computador enviando currículos. Vamos lá.

 

Nada melhor que o tempo

 

 

 

One thought on “Crônicas de um Brasileiro na Suíça (3) – Trabalho

  1. Sempre quis fazer direito, porém, também sempre quis morar fora e ultimamente isso vem me deixando em uma dúvida infernal, estive pensando em fazer relações internacionais ou economia, com o intuito de mudar de país, pois, o direito parece ser uma área muito complicada pra quem pretende deixar o Brasil, o que acha?

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