Um pequeno desabafo – Morte, síndrome do pânico. Cinco anos depois.

Sobre enfrentar a morte, sobre a partida de um ente querido, sobretudo sobre a vida.

Um pequeno desabafo – Morte, síndrome do pânico. Cinco anos depois

Faz tempo, não escrevo desse assunto. Nem quero mais escrever. Não agora.

Hoje é o dia 8 de Dezembro e queria fazer um desabafo, cinco anos depois daquele fatídico dia de 2012. Acredito, já superei a tristeza, apenas queria falar algumas palavras, trazer algo novo. Espero quer o novo se mantenha. Superar as consequências da dor.

A dor já saiu da história. Por mais sinestésicas que sejam as lembranças, os seus efeitos já não são mais os mesmos. Enfim, ouso dizer, ao menos em parte, eu superei. Há exatos cinco anos, era para ser o dia da minha formatura da graduação, não foi. Essa é uma parte do meu desabafo. A minha mãe faleceu naquele dia.

A sensação ruim: Me fez me dar conta de como nós somos seres frágeis e como podemos morrer assim… pluft. Foi assim que eu acreditei que a minha mãe tinha falecido. Por que por mais que ela estivesse mal nos dias anteriores, não era muito diferente de algumas crises que ela tinha tido. E depois eu descobri que a causa da morte foi um coágulo que subiu das pernas até as artérias, sufocando o coração.

Os médicos reanimaram ela por alguns minutos, mas ela não resistiu.

Não é esse o assunto do dia. Mãe, sinto sua falta, queria te contar várias coisas e jogar várias coisas na sua cara, por que você merecia ouvir! E te fazer um bolo.

São as consequências… essas.. o que fica na cabeça.. que me fazem desabafar.

Ficou na minha cabeça de que isso poderia acontecer comigo. Sabe… a morte. Durante muito tempo. Martelou na minha cabeça. Isso me paralisou, me fez começar a ter medo de coisas que eu nunca tive, me fez querer enfrentar esse medo, me fez fazer coisas que eu nunca tinha feito. Mas a sensação durou durante um bom tempo. Isso de que nós podemos ir embora a qualquer hora como um grão de areia é soprado pelo vento até o mar.

Uma definição para o que eu passei: ataque de pânico.

Ataques de pânico. Tive vários. Mais de dez. Num espaço de três anos, foram uns quatro e aí uns sete. Em comum com esses ataques de pânico: a sensação de que eu estava morrendo. Eu me imaginava forte, nunca estive tão errado. Essa sensação era tão terrível e inescapável que mesmo a menor das crises tinha consequências por várias horas ou dias. E isso me paralisou, me fez pensar em tirar a própria vida, mais de uma vez, do que conviver com a dor. No fundo, eu tinha morrido também.

Procurei viver de todas as formas. Procurei me reviver, na verdade, por que imaginava que eu estava de todo morto. A minha morte não foi da vida – o ser, mas da vida vivida, daquela que se imagina gozar. Essas eram as minhas síndromes do pânico. É como… estar plastificado. Você já não sente mais nada… nem parece que está mais ali.

Tentei de todas as formas estar vivo, e depois descobri que aquilo, talvez, era uma das coisas que não me fazia superar os tais sentimentos. Se eu queria estar vivo era por que achava que não estava mais. Cada esforço que eu fazia era com a consciência de que havia a dor.

O processo foi interessante. Mas talvez tivesse forçado, me imaginando um foguete, terminaria sem combustível. Quis de toda a forma provar a mim mesmo que estava vivo que esqueci de viver uma parte dos momentos em que a mudança me proporcionava. A consciência desses fatos foi se dando aos poucos.

A morte, achava eu, era regra. Até eu me dar conta, talvez há apenas uns 15 meses. Todos os outros dias estamos vivos. Durante uns três anos, ao invés de focar no tempo que me restava, eu estava centrado na inevitabilidade, no perecimento de todas as formas. Mas esqueci de me identificar que enquanto forma, eu ainda o era. A morte não é um Gato de Schrodinger (pelo menos é o que diz a física quântica de nossos dias), ou você é, ou você não é. E enquanto estamos vivos, estamos vivos, não mortos.

Posto, pra mim, a vida é a regra, e que seja feito o melhor de nossos dias. Espero, e ouso dizer, superei.

Mãe, estou bem, moro em outro país (com certeza você ficaria uma arara de eu morar fora), diplomado, e casado.

2 thoughts on “Um pequeno desabafo – Morte, síndrome do pânico. Cinco anos depois.

  1. Ainda que, no fim, a linha de chegada seja a morte, o percurso todo é vida. A vida é a regra! Concordo com você!

    Sobre a síndrome do pânico e a morte da sua mãe, imagino o quão difícil tenha sido. Algumas experiências nossas deixam uma marca tão forte, tão forte, que nos mudam para sempre, ainda que a gente não sinta mais as coisas como à época do ocorrido. Talvez felizmente a mudança é inevitável.

    Além disso, nem sempre a gente entende a lição de pronto… às vezes demoramos mesmo para “digerir” o que vivemos, tirar conclusões úteis e positivas, que nos ajudem a ser nossa melhor versão.

    Pelo seu texto, penso que você já conseguiu descobrir uma melhor versão de si mesmo 🙂

    Fico feliz que você conseguiu ir atrás dos seus objetivos, fez seu mestrado fora, casou, e está bem! E espero que continue cada vez melhor.

    Tenho certeza que, mesmo que sua mãe ficasse uma arara, ela estaria também muito orgulhosa.

    Abraços!

  2. Sei o que sentiu sobre a síndrome do pânico. Passei por esta doença que ninguém percebe. Ouvi tanto das pessoas coisas do tipo: Vai passar, ou, ah isso espiritual entre outras besteiras. Resolvi eu mesma procurar um médico para um tratamento adequado.
    Terminei meu segundo Grau graças a um amigo que me buscava na ida e trazia-me na volta. Foi um grande companheiro. Concordo com a Priscila. No final encontramos nossa melhor versão. Vai dar tudo certo no final!

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