Vida de Estudante na Suíça (e na Europa): o que esperar

Dois longos anos depois, eu consegui o meu diploma em um Mestrado no exterior. Nesse meio tempo, basicamente, eu, como muitas pessoas em aventuras de graduação ou pós no exterior, fui um estudante profissional. Saiba como foi a minha experiência. E o que você pode esperar de fazer o mesmo.

Vida de estudante na Suíça (e na Europa): o que esperar

Introdução

Nove anos seguidos trabalhando e estudando. Saindo de casa pela manhã e só voltando tarde da noite. Nove anos seguidos basicamente sem descanso e sem férias. Por que por mais que eu tivesse recesso no trabalho ou na faculdade, sempre precisava fazer alguma coisa, como estudar inglês ou estudar para concursos. A correria deu certo, muito certo. Consegui me formar em Direito pela USP e passei num concurso bem disputado para um Tribunal regional. Passei em mais de um, e antes mesmo da formatura eu estava com um emprego estável. Mas isso me deixou cansado, muito cansado, mesmo. Chega de cadernos!

Nem queria saber de estudar mais. Nada de livros, pelo menos por um ano. Era o que eu dizia para mim mesmo, e foi basicamente o que eu fiz. Hoje eu teria feito diferente, mas na época, eu precisava descansar e muito. Eu precisava tirar aquela vida de estudante-e-profissional de mim e virar apenas profissional.

É engraçado pensar isso – pela primeira vez na vida eu tive tempo e condições de fazer outras coisas que não eram estudar, estudar e estudar. Aí eu resolvi reativar meus blogs e aquela paixão de estudar. Comecei a me focar em aprender a cozinhar, me reatualizar em quais eram as séries, livros e jogos mais interessantes, por que basicamente, desde 2005 até 2012 eu não parei.

Aí eu virei somente um profissional. E tinha tempo livre. E foi legal. Foi recompensador. A correria pagou: virei um profissional em um cargo sênior num Tribunal, bem pago e com ótimas perspectivas de vida. Nessa minha carreira, eu tinha condições de viajar pro exterior numa boa, comprar eletrônicos, ir comer em restaurantes toda semana. Tudo o que eu uma vez almejei quando eu era mais pobre e só tinha um par de camisas pra sair de casa e um óculos quebrado.

Eu estava bem, mas eu queria ser feliz. A história você encontra mais no Blog: passei por uma depressão forte, síndrome do pânico e resolvi rever as minhas prioridades. Uma delas foi ir atrás dos meus sonhos. Morar fora era um deles. Ter um salário bom, uma vida legal, eram sim recompensadores. Mas eu queria dar um pulo maior.

Em Genebra – me reacostumado a uma vida de estudante

A vida de estudante é uma vida interessante. Ainda mais em um país estrangeiro. É como começar outra vida novamente por que além de aprender as matérias e o conteúdo do curso em si mesmo, você precisa se aprender a virar sozinho em uma cultura diferente, com quase sempre línguas e costumes diferentes. Ah… a burocracia também é diferente. A burocracia é muito chata.

Eu fiz toda aquela introdução acima, contando um pouco da minha vida, para falar como foi difícil me reacostumar com a vida de estudante. Na verdade, foi dificílimo. O processo é interessante e recompensador, alternei momentos de tristeza, depressão, e felicidade, e hoje estou feliz, mas o saldo que ficou é que foi, durante muitos momentos, uma das coisas mais difíceis que eu já fiz. Quer dizer, todas as impressões que você vai ler aqui são influencidas pela minha experiência, como poderia ser diferente?

Acredito que para o leitor deva ser um pouco mais fácil. Não se preocupe com o tom e teor aparentemente negativos. No geral, a minha experiência, apesar de dura, foi bem legal e eu faria de novo, embora de outra forma. 

Voltando… É difícil sair de uma vida em que você tem independência financeira e pessoal para uma vida de limitações. E algumas limitações que eu tive foram mais duras do que as que eu tive quando era estudante no Brasil. Se antes como profissional em um Tribunal eu tinha condições de morar num lugar legal, uma internet decente e comer bem, quando eu cheguei em Genebra eu tive que ir para uma moradia estudantil, com recursos limitados e passei a racionar e escolher muito melhor a minha comida. Quase nada de viagens, nada de eletrônicos, nada de restaurantes!

Não vou negar que eu senti falta disso. A falta de liberdade para fazer o que eu bem quisesse foi o pior. Olhar para as coisas que eu podia comprar no supermercado e reparar que na verdade eu não podia comprar nada além de massa, arroz e algumas saladas.

Claro, isso em virtude de vir pra cá quase sem nenhum dinheiro. Por que embora eu tivesse uma boa vida no Brasil, isso durou muito pouco tempo, e eu não tinha nenhum bem de valor. O meu dinheiro, convertido para francos suíços, virou pó quando o Brasil efetivamente entrou em crise. Outros brasileiros tiveram uma vida muito mais fácil e suave aqui.

Foi difícil, mas eu me reacostumei. Demorou, doeu, mas valeu a pena. O que eu mais senti falta foram de amigos que estivessem em situações semelhantes as minhas. Imagine, eu, que era profissional e já tinha bons anos de experiência, passei a dividir a sala com colegas muitos mais novos do que eu, que tinham pouca ou nenhuma experiência. Essa é a primeira afirmação que eu quero fazer sobre o que você pode esperar de morar e estudar fora:

1.Na Europa, os estudantes de graduação e mestrado são em geral bem mais novos do que você

Isso é uma coisa que você pode esperar que aconteça. A não ser que você tenha expectativas acadêmicas, é mais comum que saindo da Graduação você não vá direto para uma pós ou mestrado. No Brasil, depois da graduação, se trabalha dois a cinco anos e aí a pessoa, sabendo bem o que ela quer, vai fazer um MBA, por exemplo.

Na Europa é mais comum que os estudantes façam mestrado ou mba diretamente. Aqui, a Graduação é vista como básica e normalmente as pessoas procuram se especializar por meio de uma pós, enquanto no Brasil a Graduação já é vista como especialização.

2. Mesmo assim, quem não tem graduação não é mal visto

O que é uma coisa cada vez mais comum no Brasil. Exceto para algumas profissões, tenho a impressão quem não faz faculdade no Brasil é visto como um preguiçoso ou perdedor. Isso, porém, advém das grandes diferenças salariais entre as profissões técnicas e especializadas com outras não técnicas. O Brasileiro é muito incentivado a fazer graduação por que esse é um dos caminhos de melhoria de vida. Os serviços de limpeza, braçais, ou outros, como cobradores de ônibus, são vistos como ‘menores’, o que pra mim é um absurdo. Mas é a realidade que esses serviços paguem menos do que os serviços de quem trabalhe num banco privado por exemplo.

Aqui na Europa, a pessoa que limpa a casa dos outros ou o motorista de ônibus não ganham um salário tão abaixo quanto o salário de um profissional bancários. A diferença não é tão grande, o que faz com que se incentive, por exemplo, que os estudantes tenham diplomas técnicos, e a pessoa não vai ter uma vida ruim.

3. Nós brasileiros temos mais experiência profissional, mas menos atividades extracurriculares.

Atividades extracurriculares são fatores que contam muito para conseguir uma vaga de graduação, mestrado ou doutorado no exterior e a Europa e a Suíça são grandes exemplos. Então a carreira dos estudantes está voltada para uma formação mais completa e abrangente do que a nossa dos brasileiros, que tem mais foco no mercado de trabalho em geral. Nós brasileiros somos incentivados a descolar um trampo para complementar o aprendizado do curso, mas de outro lado nós não temos incentivos de fazer outras línguas ou um curso coligado. Isso também tem razões econômicas, por que normalmente o Brasileiro precisa trabalhar pra se manter na faculdade, enquanto os Europeus tem preços menores em geral para os mesmos bens diários e mais suporte da família. O brasileiro em geral é o contrário – ele precisa dar suporte para família. No Brasil ou é 8 ou 80.

Isso também faz diferença para que o Brasileiro faça uma pós mais tarde.

Também faz diferença para competição de trabalhos. No meu caso, por exemplo, eu era muito qualificado e pouco qualificado ao mesmo tempo. Tinha muito tempo de experiência para os trabalhos de estágio ou iniciantes, mas ao mesmo tempo pouca experiÊncia qualificada para os trabalhos junior ou full time.

4. Ser estudante é uma profissão

Essa foi uma das maiores coisas que eu tive dificuldade para me adaptar, mas é uma das circunstâncias que eu mais gostei da minha nova vida. No Brasil, em geral, a graduação e principalmente a pós são em tempo parcial. É tudo voltado para o mercado de trabalho. Por que o brasileiro precisa trabalhar, e bastante, para pagar os seus cursos.

Os Europeus precisam trabalhar menos por que o dinheiro vale mais e as coisas custam menos. A família também tem condições de vida. Tudo isso faz parte uma estrutura acadêmica que faz com que ser estudante seja uma profissão em si. Aqui, as graduações e pós são mais voltadas ao tempo integral. Embora não tomem todo o tempo do seu dia, a carga de leituras e trabalhos é pesada. Para cada 2h de aula, imagina-se e faz um cálculo que o aluno vai dispender pelo menos 6h do seu tempo. E aí são feitos os cálculos dos créditos de faculdade e pós, por exemplo.

Quer dizer que o estudante vai dedicar uma grande parte do seu dia, e é até incentivado que o faça. É um estudante profissional.

Antes eu estava acostumado com uma vida 9\18, ou melhor, 7\19, por que morava em São Paulo. Quer dizer que eu acordava e o meu dia girava em torno do trabalho, levantando mais cedo para não chegar atrasado, e em virtude do meu trabalho eu aterrisava em casa somente depois das 19h00, quando eu tinha o meu tal tempo livre. Isso foi interessante no começo mas depois eu comecei a me sentir limitado. Afinal, bastava um dia mais cansativo que eu não tinha ímpeto ou energia para fazer uma academia ou algum curso de noite.

A vida de estudante, você basicamente define o seu próprio tempo, e isso tem os seus prós e os contras. O lado ruim é que dá a impressão de que todo o seu tempo, inclusive o tal tempo ‘livre’, que você imaginava que tinha, você vai imaginar que deveria estar estudando, por que a carga é dura. Pelo menos foi assim que eu senti, especialmente em épocas de prova. De outrado lado, o grau de liberdade é muito maior. Eu podia estudar das 8h00 as 12h00 e ir pra academia, dar um passeio na cidade, e voltar a estudar umas 18h00. Isso levou a algumas crises de tempo, mas em geral tornou a minha vida mais feliz.

5. Sentir falta da burocracia e jeitinhos brasileiro

Essa é uma das coisas que eu reparei mais os colegas atravessarem problemas do que a mim mesmo. Estudar na Europa, as regras são muito mais impessoais, menos flexíveis. Para o bem e para o mal. Significa que muitos brasileiros não vão poder levar o curso na mamata, como eu testemunhei acontecer até mesmo na USP, mas ao mesmo tempo as regras podem ser muito duras e impessoais de forma que impossibilitem o estudante, basicamente estudar.

Uma das regras, por exemplo, é sobre a intenção e a vida pessoal do estudante. Embora existam procedimentos para o caso de o estudante passar por problemas pessoais, eu pude verificar em primeira mão que algumas regras são muito levadas ao pé da letra. Por exemplo, no Brasil alguns professores deram chances a mais para estudantes, mesmo quando as regras não previam isso, e aqui na Europa, tinham regras que previam chances para estudantes que não passaram em algum exame, e embora o estudante demonstrasse por A mais B que ele se encaixava, as faculdades fizeram jogo duro.

6. Conhecer gente do mundo todo, e um ambiente multicultural

O Brasil, convenhamos, já não é a muito tempo um destino dos mais procurados por estrangeiros, enquanto a Europa, por enquanto, parece ser a panaceia dos problemas de muita gente. Então aqui é muito comum encontrar gentes de todas as nacionalidades e isso é uma das coisas mais legais. A minha esposa, por exemplo, é Indonésia, meus amigos alemães, franceses, mongois, coreanos, americanos, argentino. Quer dizer que nesse meio tempo eu pude e tive oportunidade de saber mais sobre esses países. E claro, comer comida do mundo todo!

Tem dificuldades no convívio, mas em geral os estudantes são de cabeça aberta… bom… por eles também serem estudantes em um lugar, um país diferente.


Essas são algumas considerações pessoais. E você, que já estudou fora, quais são as suas impressões?

 

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