Crônicas de um expatriado – Se o Brasil fosse seguro quase ninguém gostaria de sair

Economia, preços, empregos, salários, transportes públicos, serviços públicos. Todos são fatores importantes, mas a segurança é um dos elementos que faz com que muitos brasileiros, como eu, pensem duas, três, cinco, dez vezes antes de decidir voltar ou para ir embora.

Crônicas de um expatriado – Se o Brasil fosse seguro quase ninguém gostaria de sair

Arte d’osgemeos

Me preparando aqui para receber os tomates que muita gente vai querer me tacar só por que é a minha opinião, mas tudo bem! Vão falar de questões de preço, saúde, serviços públicos, salários, tudo, etc.. Mas quer saber? Pra mim o grande problema do Brasil hoje é a segurança, e eu tenho certeza absoluta de que se o Brasil fosse seguro como outros países, quase ninguém gostaria de sair e mudar para outro país.

Em outras palavras, o Brasil é um país tão bom para se viver, apesar dos problemas, que mesmo com violência muita gente nem pensa em sair ou quer voltar. Imagina se fosse mais seguro? Pra mim, se fosse 80% mais seguro e 10% mais justo seria o melhor país do mundo.

Estou generalizando? Talvez, mas leia tudo o que eu tenho a dizer. E a primeira coisa é que os problemas de segurança do Brasil têm grande influência em outros setores que implicam em qualidade de vida. A violência está relacionada com os nossos baixos salários, com os serviços públicos, com o preço das coisas, com o bem-estar geral. O que eu quero dizer é que, com menos violência, teríamos em tese mais oportunidades de trabalho e menos estrangulamento dos serviços públicos.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento publicou um relatório sobre violência na América Latina com dados de 2014. Pra quem não sabe, o Brasil tem índices de homícidio superiores aos de países em guerra como a Síria. E não só isso, em uma estimativa extremamente modesta – a de que a violência custa 0.24 % do PIB do Brasil, o que o Brasil gasta em violência é o suficiente para seis bolsas-família, que muita gente pensa que é um problema e que serviu apenas para comprar votos ou dar o peixe para os pobres, mas há estudos indicam que o Bolsa-Família contribuiu para diminuir a violência (cheque a fonte no fim, inclusive fontes que destoam do que eu estou falando também).

De volta ao cerne, o fato é que o impacto da violência no nosso PIB é estimado entre 5 a 15%. A Ong Vision for Humanity estima que o Brasil perde 13,5% do seu PIB com todos os gastos relacionados à violência. Em 2016, por exemplo, foram mais de 1 trilhão de gastos com segurança, de um total de 6 trllhões de reais do nosso PIB. Mesmo que se possa discutir essa porcentagem, o que efetivamente tem sido feito, o fato é que o valor no mínimo se aproxima do quanto o Brasil tem gasto com saúde, que é 8% do nosso PIB. A Suíça e outros países gastam mais de 20% do PIB, e o fato de não ter muita violência colabora.

Não é só isso: as empresas também perdem quase 4,2% com o problema da violência do Brasil, incluindo aí gastos com seguros, vandalismo e roubo de carga.

O cálculo é simples. Cada centavo que a gente gasta, por exemplo, para mover a máquina policial e judicial e colocar uma pessoa encontrada com algumas gramas de maconha é um dinheiro que não vai ser investido em saúde, educação, infraestrutura. E como a nossa falta de segurança é endêmico, os números são muito altos e pesam no orçamento. Estimativas dizem que o PAC, o programa de infra-estrutura do governo, somou 1.9 trilhões de reais em 9 anos. Mesmo se fizermos um cálculo bem modesto do impacto da violência na Produto Interno Bruto Brasileiro – por exemplo 300 bilhões por ano, podemos dizer que gastamos 1 PAC e Meio apenas com questões de segurança interna.

Arte d’osgemeos

A violência traz vários reflexos no dia-a-dia em termos de economia. O prejuízo da vítima, e em caso de morte ou invalidez, dos familiares, os gastos com saúde para remediar os danos, os gastos com seguro, os gastos com policiamento por que é a primeira coisa que a população pede é o aumento do efetivo ou das rondas. Além disso, a alienação do autor da violência da economia, por que ele deixa de se engajar em uma atividade econômica legal e normalmente a violência é um caminho sem volta – a criminalidade no Brasil é quase como se fosse uma profissão. Além disso, a insegurança limita o funcionamento de estabelecimentos e a liberdade de ir e vir dos clientes e dos produtores de bens. Isso só para falar alguns efeitos da violência que são muitos.

No meu ver, resolvendo o problema da violência teríamos melhoria de condições econômicas e poderíamos utilizar melhor o orçamento com investimento, além de desafogar alguns serviços públicos como policiamento e saúde. O problema, porém, é que a violência está diretamente relacionada com a desigualdade social e baixos salários, além de educação e falta de oportunidades. Estamos em um círculo vicioso difícil de sair: a violência estrangula a economia e reduz os fundos, e com a redução de fundos temos dificuldade de investir em melhorias para combater a violência. Ou seja, para reduzir a violência é preciso, por exemplo, mais educação e mais infra-estrutura, de forma a oferecer alternativas para as pessoas que são desempregadas ou que não estão no mercado de trabalho, mas como investir se uma grande parte do nosso dinheiro vai para remediar a violência?

Uma coisa que me incomoda no Brasil é que existem pessoas e entidades que embora poucas, se beneficiam da violência. Por exemplo, violência dá audiência e vende jornal. Existem programas inteiros que se dedicam a filmar e divulgar violência – por exemplo Cidade Alerta, e jornais inteiros que estampam cenas e dados de violência todos os dias. Em alguns países os jornais não mostram a violência, apesar de ela existir. A violência no Brasil é vendida e faz aumentar a sensação de insegurança e a revolta brasileira com o país.

Não é tão  inseguro quanto querem vender e espeiclamente o quanto se fala aqui no exterior, mas é inseguro a ponto de tornar revoltante.

E quem não se revolta? Você já gasta um valor grande para fazer simples compras, ou decide investir num carro dos sonhos, por exemplo, e em qualquer dos casos você está sujeito a ser roubado por um vagabundo que vai levar tudo na mão grande. E mesmo que não seja roubado você vai gastar uma grana com seguro, o que por si só já impacta deveras no orçamento.

Tenho certeza que muita gente pensa: ah mas você está falando besteira, eu mesmo que o Brasil fosse mais seguro ainda assim iria embora ou não voltaria. Sim, essa é a sua opinião e você se sinta a vontade para se manifestar (sem ofensas por favor), mas a minha opinião, de alguém que mora no exterior e divide muitas informações com imigrantes brasileiros é de que um dos fatores mais importantes, tipo top 3, é a falta de segurança. O número de pessoas que fala, olha, se o Brasil não fosse tão violento eu voltava hoje, é muito grande.

Arte d’osgemeos

O meu ponto é que, o Brasil é um país extremamente bonito e um país que, apesar de mais inseguro que a média mundial, mais feliz do que muitos países ricos. O nosso clima é bom, nós sabemos nos divertir e nós temos potencial de nos desenvolver (apesar que eu ouço que o Brasil é o país do futuro há mais de três gerações e ainda não desenvolveu completamente). Eu por exemplo vim para outro país para investir na minha educação e carreira, mas confesso que a violência e a sensação de perder uma parte do dia ou de correr o risco de perder o que investi pesou bastante. Talvez se o Brasil fosse seguro eu não estaria aqui ou voltaria alegremente assim que acabasse o meu curso.

E como eu disse, isso é compartilhado por muitas pessoas com quem eu convivo ou com quem eu troco ideia. É o que me dizem: ‘pode ter pobreza, desigualdade, ser caro, mas se fosse seguro, eu voltava, por que mesmo assim a qualidade de vida compensa’.

Além de que, uma parte dos problemas de violência e serviços públicos está concentrado em grandes cidades. Se o Brasil fosse seguro você não necessariamente precisa morar nas capitais onde há diversos gargalos de transporte, saúde, etc… Você poderia buscar mais qualidade de vida em cidades menores – essas que infelizmente tem sido as maiores atingidas com o crescimento da violência.

 

Fontes:

Bolsa Família reduz violência, aponta estudo da PUC-RJ

https://oglobo.globo.com/brasil/bolsa-familia-reduz-violencia-aponta-estudo-da-puc-rio-5229981

Bolsa-Família reduz violência contra mulheres:

http://pantheon.ufrj.br/handle/11422/1033

Porém, uma fonte contrastante:

Nem renda maior nem Bolsa Família seguram aumento da violência no Nordeste

http://blogs.ne10.uol.com.br/jamildo/2011/02/04/nem-renda-maior-nem-bolsa-familia-seguram-aumento-da-violencia-no-nordeste/

http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,orcamento-para-saude-no-brasil-fica-abaixo-da-media-mundial,70001788024

Fonte da compilação dos estudos apresentados

http://www.bbc.com/portuguese/brasil-38852816

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.